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México: um caso singular de antineoliberalismo, por Edwin F. Ackerman

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Edwin F. Ackerman
02/08/2023

Foto: Ma­nuel Ve­las­quez / Getty

O sis­tema po­lí­tico me­xi­cano so­freu um forte abalo em 1º de julho de 2018, quando An­drés Ma­nuel López Obrador (AMLO) e seu novo par­tido MO­RENA ob­ti­veram uma es­tron­dosa vi­tória elei­toral, ob­tendo 53% dos votos em uma dis­puta com quatro can­di­datos, al­can­çando uma van­tagem de 30 pontos sobre seu ad­ver­sário mais pró­ximo. Foi de longe a maior margem re­gis­trada desde a “tran­sição para a de­mo­cracia” do país na vi­rada do mi­lênio. Os par­tidos que do­mi­naram o campo po­lí­tico ao longo do pe­ríodo ne­o­li­beral fi­caram em um es­tado las­ti­mável. Hoje, os ín­dices de apro­vação do pre­si­dente per­ma­necem na faixa de 60%, apesar de uma im­prensa im­pla­ca­vel­mente hostil, uma pan­demia global, a crise econô­mica que a acom­pa­nhou e as pres­sões in­fla­ci­o­ná­rias em curso. As ve­lhas ri­va­li­dades entre os par­tidos de opo­sição foram en­ga­ve­tadas e, con­se­quen­te­mente, PRI, PAN e PRD foram for­çados a se unir sob pena de se re­sig­narem a perder qual­quer chance de vi­tória nas urnas.

As idi­os­sin­cra­sias da pre­si­dência po­pu­lista de es­querda de AMLO o con­fron­taram não apenas com a di­reita ne­o­li­beral, mas também com a in­te­lec­tu­a­li­dade cos­mo­po­lita “pro­gres­sista” e os autô­nomos fa­vo­rá­veis ao ne­o­za­pa­tismo. Esses grupos o acu­saram in­dis­tin­ta­mente de “trans­formar o país em uma Ve­ne­zuela”, de pro­pagar o “con­ser­va­do­rismo” e de agir como “um ca­panga do ca­pital”. No en­tanto, à me­dida que seu man­dato de seis anos no poder chega à reta final, um olhar mais atento à car­reira de AMLO re­vela um quadro muito mais com­plexo. Seu pro­jeto global tem sido afastar-se do ne­o­li­be­ra­lismo e avançar para um mo­delo de ca­pi­ta­lismo de­sen­vol­vi­men­tista-na­ci­o­na­lista. Até que ponto con­se­guiu isso e o que a es­querda pode aprender com a im­ple­men­tação desse pro­jeto?

Como regra geral, as tran­si­ções para aban­donar o ne­o­li­be­ra­lismo devem ocorrer no am­bi­ente es­tru­tural mol­dado pelo pró­prio ne­o­li­be­ra­lismo: a erosão da classe tra­ba­lha­dora como agente po­lí­tico e o des­man­te­la­mento da ca­pa­ci­dade do Es­tado. Daí de­corre que a ta­refa his­tó­rica bá­sica da es­querda con­tem­po­rânea é a re­a­ti­vação da po­lí­tica de classe e a re­le­gi­ti­mação do Es­tado como ator so­cial. Po­demos, então, ava­liar o man­dato de AMLO com base em três cri­té­rios fun­da­men­tais: o res­ta­be­le­ci­mento da cli­vagem de classes como prin­cipal or­ga­ni­zador do campo po­lí­tico; o es­forço de re­con­cen­tração do poder de um apa­rato es­tatal es­va­ziado por dé­cadas de go­ver­nança ne­o­li­beral; e a rup­tura com um pa­ra­digma econô­mico ba­seado na cor­rupção ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada. Vamos con­si­derar cada um desses cri­té­rios se­pa­ra­da­mente.

1. Em maio de 2020, quando eclo­diram os pri­meiros pro­testos de di­reita contra o go­verno AMLO, um vídeo viral cir­culou nas redes so­ciais. Ele mostra uma mul­tidão de ma­ni­fes­tantes de classe alta par­ti­ci­pando de uma car­reata em uma grande ave­nida em Mon­terrey, Nuevo León. Da ja­nela de um ônibus pú­blico, um pas­sa­geiro anô­nimo co­meça a arengar aos mo­to­ristas: “É isso que move o Mé­xico!”, diz ele. “Os tra­ba­lha­dores… os tra­ba­lha­dores movem o Mé­xico!” Para muitos, a cena cap­turou o re­torno da po­lí­tica de classe à cons­ci­ência pú­blica após uma longa au­sência.

Poucos meses de­pois de se tornar pre­si­dente, AMLO de­clarou a morte do ne­o­li­be­ra­lismo me­xi­cano. Foi uma afir­mação ou­sada, mais uma as­pi­ração do que um fato con­su­mado. Os pri­meiros si­nais de sua re­a­li­zação foram re­tó­ricos. An­te­ri­or­mente, o dis­curso po­lí­tico se con­cen­trava na di­visão entre uma “so­ci­e­dade civil” va­ga­mente de­fi­nida e o Es­tado. Fun­ci­o­ná­rios pú­blicos re­co­nhecem cada vez mais a ne­ces­si­dade de au­mentar o “con­trole ci­dadão” sobre a “go­ver­nança”. O an­ta­go­nismo de classe havia quase de­sa­pa­re­cido do dis­curso pú­blico do­mi­nante. No en­tanto, com AMLO ele res­surgiu sob uma rou­pagem la­clauiana: como um con­fronto entre “o povo” e “a elite” (fifís e ma­chu­chones, como ele os chama iro­ni­ca­mente), esta úl­tima de­fi­nida por sua ri­queza, seu au­to­en­gano me­ri­to­crá­tico e seu desdém pela cul­tura da classe tra­ba­lha­dora. Essa mu­dança verbal foi acom­pa­nhada por um acen­tuado pro­cesso de re­a­li­nha­mento par­ti­dário. Nas elei­ções de 2018, os votos da classe tra­ba­lha­dora foram dis­persos entre di­fe­rentes par­tidos, in­clu­sive o bloco ne­o­li­beral, en­quanto AMLO teve certa van­tagem entre os pro­fis­si­o­nais da classe média. Na­quela época, 48% dos elei­tores com di­ploma uni­ver­si­tário apoi­avam os can­di­datos MO­RENA ao Con­gresso. Nas elei­ções de meio de man­dato de 2021, por outro lado, esse nú­mero caiu para 33%. O oposto ocorreu na faixa in­fe­rior do nível de es­co­la­ri­dade: 42% das pes­soas com apenas o en­sino fun­da­mental vo­taram em MO­RENA em 2018, en­quanto 55% o fez em 2021. Pes­quisas re­centes mos­tram que os mai­ores apoi­a­dores de AMLO são tra­ba­lha­dores co­muns, o setor in­formal e cam­po­neses, en­quanto seus opo­nentes mais vo­ci­fe­rantes são em­pre­sá­rios e pro­fis­si­o­nais com nível su­pe­rior. O fenô­meno da “es­querda brâ­mane”, que ca­rac­te­riza cada vez mais os pa­drões de vo­tação na Eu­ropa e nos Es­tados Unidos, evi­den­te­mente se in­verteu no Mé­xico.

Por que a mu­dança? Nos úl­timos quatro anos houve uma ava­lanche de re­formas pró-tra­ba­lha­dores. Pela pri­meira vez, os di­reitos for­mais das tra­ba­lha­doras do­més­ticas foram re­co­nhe­cidos e as prá­ticas pre­cá­rias de con­tra­tação foram eli­mi­nadas. Como re­sul­tado, no ano pas­sado houve um au­mento de 109% na par­ti­ci­pação nos lu­cros, ou seja, pa­ga­mentos de par­ti­ci­pação nos lu­cros a que todos os tra­ba­lha­dores têm di­reito for­mal­mente, mas que os em­pre­ga­dores con­se­guiram con­tornar an­te­ri­or­mente por meio da “ter­cei­ri­zação” de seus con­tratos. Com AMLO, o pro­cesso de cri­ação de novos sin­di­catos foi con­si­de­ra­vel­mente sim­pli­fi­cado, as fé­rias es­ta­tu­tá­rias foram du­pli­cadas e tra­mita uma lei para es­ta­be­lecer uma se­mana de tra­balho de 40 horas (em com­pa­ração com as atuais 48 horas). Seu go­verno ins­ti­tuiu o maior au­mento apro­vado no sa­lário mí­nimo em mais de 40 anos. Di­ante da crise econô­mica que se se­guiu ao con­fi­na­mento da covid-19, o setor mais pobre da po­pu­lação viu o seu ren­di­mento au­mentar 24%.

Essas areias mo­ve­diças deram origem ao tí­mido re­a­pa­re­ci­mento da classe tra­ba­lha­dora como ator po­lí­tico. Talvez a prova mais clara seja a re­volta dos tra­ba­lha­dores das ma­qui­la­doras na ci­dade de Ma­ta­moros, es­tado de Ta­mau­lipas, onde de­zenas de mi­lhares de tra­ba­lha­dores lan­çaram as greves mais sel­va­gens da his­tória do setor. Im­pul­si­o­nados pelo au­mento do sa­lário mí­nimo, exi­giram au­mentos de ou­tros be­ne­fí­cios, re­cu­sando-se a aceitar as ten­ta­tivas dos em­pre­ga­dores de acabar com os bônus, di­ante do au­mento dos sa­lá­rios. O mo­vi­mento gerou novos e bem-su­ce­didos es­forços de sin­di­ca­li­zação e im­pul­si­onou uma de suas lí­deres, Su­sana Ter­razas, a uma ca­deira no Con­gresso na chapa do MO­RENA.

A de­cisão de AMLO de se con­cen­trar em pro­gramas so­ciais for­ta­leceu ainda mais essa nova po­lí­tica de classe. As trans­fe­rên­cias mo­ne­tá­rias au­men­taram 65% em termos de co­ber­tura em com­pa­ração com os go­vernos an­te­ri­ores. Em 2021, apesar da crise econô­mica, o gasto so­cial como per­cen­tual do gasto pú­blico total atingiu seu ponto mais alto em uma dé­cada. Este mo­delo de po­lí­tica so­cial opera sob uma ló­gica to­tal­mente di­fe­rente da ne­o­li­beral até então vi­gente, afas­tando-se do mo­delo de gestão ba­seado em micro-ob­je­tivos e na im­po­sição de com­pro­vação de meios para de­fender um mo­delo mais uni­versal. Em­bora as trans­fe­rên­cias mo­ne­tá­rias con­ti­nuem re­ser­vadas a am­plos sub­grupos so­ciais (mai­ores de 65 anos, es­tu­dantes, pes­soas com di­ver­si­dade fun­ci­onal, etc.), as con­di­ções de acesso são mí­nimas. Os pro­gramas de bem-estar so­cial foram con­sa­grados na Cons­ti­tuição, con­so­li­dando seu status de ga­ran­tias le­gais e não “do­a­ções” do Es­tado; são di­reitos, não ca­ri­dade.

Do outro lado do es­pectro po­lí­tico, os par­tidos des­lo­cados pelo MO­RENA for­maram uma co­a­lizão, pro­cla­mando aber­ta­mente sua fi­de­li­dade às grandes em­presas. Mag­natas como Claudio X. Gon­zález e Gus­tavo de Hoyos, ex-chefe da con­fe­de­ração pa­tronal, de­sem­pe­nharam um papel cru­cial no fi­nan­ci­a­mento da opo­sição e na apre­sen­tação de seus pontos de vista. Além de de­nun­ciar as leis tra­ba­lhistas de AMLO, o setor em­pre­sa­rial tem re­sis­tido fe­roz­mente ao seu novo mo­delo fiscal.

Ainda que o go­verno adote, de forma geral, uma linha or­to­doxa em ques­tões ma­cro­e­conô­micas, ele tem feito um es­forço com­bi­nado para au­mentar a ca­pa­ci­dade de ar­re­ca­dação tri­bu­tária para o Es­tado que, his­to­ri­ca­mente, tem fi­cado abaixo da média da OCDE e da atual na Amé­rica La­tina e Ca­ribe. Sem al­terar a atual es­tru­tura tri­bu­tária, essas me­didas co­er­ci­tivas ti­veram um im­por­tante im­pacto re­dis­tri­bu­tivo.
Se­gundo dados ofi­ciais, o go­verno au­mentou em mais de 200% a ar­re­ca­dação de im­postos pagos pelos mais ricos do país (por isso o Fi­nan­cial Times des­creve Ra­quel Bu­en­rostro, ex-se­cre­tária da Ad­mi­nis­tração Tri­bu­tária de AMLO e atual se­cre­tária de Eco­nomia, como uma “dama de ferro” que usa o “chi­cote em re­lação aos im­postos que as mul­ti­na­ci­o­nais devem pagar”).

Ao mesmo tempo, a perda de se­tores das classes mé­dias que têm tí­tulos aca­dê­micos da base de apoio de AMLO re­flete a de­gra­dação sim­bó­lica destes na grande nar­ra­tiva da nação, que o pre­si­dente vem cons­truindo em suas co­le­tivas de im­prensa diá­rias. En­quanto nos go­vernos an­te­ri­ores um ga­bi­nete cheio de fi­guras da elite com cre­den­ciais uni­ver­si­tá­rias era sinô­nimo de res­pei­ta­bi­li­dade e au­to­ri­dade, os apelos por “ex­pe­ri­ência” agora são vistos como jo­gadas va­zias de mar­ke­ting po­lí­tico. Os mi­nis­tros são elo­gi­ados por “es­tarem perto do povo”, não por seus tí­tulos e con­de­co­ra­ções.

AMLO tem sido cri­ti­cado em cír­culos so­ci­al­mente pro­gres­sistas, pre­do­mi­nan­te­mente for­mados por classes com en­sino su­pe­rior, por seu de­sin­te­resse em pro­mover o di­reito ao ca­sa­mento gay ou ao aborto. AMLO re­cusou-se a tomar po­sição sobre essas ques­tões, pro­pondo, em vez disso, que elas fossem sub­me­tidas a um re­fe­rendo po­pular; no en­tanto, isso é am­pla­mente dis­cu­tível agora que um pro­gresso sig­ni­fi­ca­tivo foi feito nessas ques­tões em nível es­ta­dual (cu­ri­o­sa­mente, o pro­gresso mais sig­ni­fi­ca­tivo ocorreu em áreas onde o MO­RENA con­trola o poder le­gis­la­tivo local).

O pre­si­dente também tro­peçou em sua res­posta ao com­ba­tivo mo­vi­mento fe­mi­nista que surgiu em 2019 para de­sa­fiar a per­sis­tência do fe­mi­ni­cídio no Mé­xico. Desde o início, AMLO pa­recia mais in­te­res­sado em “des­mas­cará-lo” como uma cam­panha or­ques­trada pela di­reita (que, de fato, tentou se­ques­trar o le­vante) do que ouvir suas de­mandas. Ele cri­ticou as tá­ticas de ação di­reta das re­centes mo­bi­li­za­ções e elo­giou o tra­balho das cui­da­doras, o que foi con­si­de­rado por muitos como um claro exemplo de con­des­cen­dência mas­cu­lina. Em­bora AMLO tenha ade­rido a uma po­lí­tica es­trita de pa­ri­dade de gê­nero na es­colha de seu ga­bi­nete, as crí­ticas fe­mi­nistas com­pre­en­si­vel­mente veem sua pre­si­dência como in­su­fi­ci­en­te­mente pre­o­cu­pada com as de­si­gual­dades de gê­nero do país.

2. Uma das prin­ci­pais pri­o­ri­dades do go­verno AMLO tem sido re­verter o pro­cesso de es­va­zi­a­mento do Es­tado. Este pro­cesso as­sumiu vá­rias formas. Em pri­meiro lugar, pro­moveu-se a re­cen­tra­li­zação das fun­ções go­ver­na­men­tais, que ha­viam sido sub­con­tra­tadas a em­presas pri­vadas e se­mi­pri­vadas. A ter­cei­ri­zação de ser­viços pú­blicos foi abo­lida para rein­tegrá-los em ins­ti­tui­ções pú­blicas cen­tra­li­zadas. O go­verno também deu fim aos con­luios pri­vados que ad­mi­nis­travam os fundos pú­blicos de forma opaca e al­ta­mente dis­cri­ci­o­nária, e os in­cluiu entre as atri­bui­ções dos Mi­nis­té­rios a cargo de cada um deles.

Este pro­grama foi apoiado por uma série de “me­ga­pro­jetos” de in­fra­es­tru­tura es­ta­tais, o can­ce­la­mento de ou­tros pro­jetos pri­vados, como o ae­ro­porto de Tex­coco, e a ex­pro­pri­ação pú­blica de partes das fer­ro­vias. Os pro­jetos em­ble­má­ticos de cons­trução da AMLO in­cluem o ae­ro­porto Fe­lipe Án­geles, o Trem Maia ao redor da pe­nín­sula de Yu­catán, um cor­redor de trans­porte que co­nec­tará o Golfo do Mé­xico ao Oceano Pa­cí­fico, um pro­jeto de cons­trução de uma ro­dovia rural e um grande plano de re­flo­res­ta­mento. Esses pro­jetos visam criar em­pregos por meio de obras pú­blicas e re­jeitar a dou­trina fra­cas­sada do laissez-faire.

A so­be­rania ener­gé­tica tem re­ce­bido atenção es­pe­cial do go­verno AMLO, que tem bus­cado re­novar a ca­pa­ci­dade pro­du­tiva da pe­tro­lí­fera es­tatal PEMEX e trans­formá-la em motor de cres­ci­mento. Também tra­ba­lhou para con­trolar, ainda que mo­des­ta­mente, o poder das mi­ne­ra­doras es­tran­geiras. Uma nova Lei de Hi­dro­car­bo­netos abre a pos­si­bi­li­dade de re­vogar as li­cenças para em­presas pri­vadas que co­me­terem certas in­fra­ções, en­quanto a Lei do Setor Elé­trico pre­tende au­mentar a energia ge­rada pela CFE, a com­pa­nhia elé­trica es­tatal, li­mi­tando a exi­gência de compra de ele­tri­ci­dade para o setor pri­vado. Ambas as me­didas visam me­lhorar a po­sição re­la­tiva do setor pú­blico e re­pelir a onda de re­formas ne­o­li­be­rais. O go­verno re­cen­te­mente re­a­firmou esse com­pro­misso com a compra de treze usinas de pro­pri­e­dade da em­presa de energia Iber­drola.

O pro­lon­gado pe­ríodo de atrofia do Es­tado que pre­cedeu o man­dato de AMLO ine­vi­ta­vel­mente pre­ju­dicou al­gumas de suas po­lí­ticas mais am­bi­ci­osas. O Es­tado ainda não su­perou sua de­pen­dência das par­ce­rias pú­blico-pri­vadas. Foi for­çado a usar a in­fra­es­tru­tura ad­mi­nis­tra­tiva do Banco Az­teca, do mag­nata da mídia Ri­cardo Sa­linas Pliego, para im­ple­mentar seus pro­gramas de trans­fe­rência de renda. Em­bora haja um plano para que os bancos pú­blicos as­sumam essas res­pon­sa­bi­li­dades, a tran­sição tem sido lenta. A in­fra­es­tru­tura que é o carro-chefe da ad­mi­nis­tração AMLO, o trem de Yu­catan, é de pro­pri­e­dade do Es­tado, mas in­cluirá par­ce­rias pú­blico-pri­vadas.

Ser­viços pú­blicos ter­cei­ri­zados, como cre­ches, foram fe­chados com a in­tenção de des­pri­va­tizá-los, mas nem todos foram subs­ti­tuídos, o que sig­ni­fica que os ci­da­dãos devem usar vales do Es­tado para ad­quirir ser­viços es­sen­ciais no setor pri­vado. Sem qual­quer ca­pa­ci­dade ad­mi­nis­tra­tiva real, AMLO tornou-se cada vez mais de­pen­dente dos mi­li­tares para cons­truir e operar muitos de seus pro­jetos de in­fra­es­tru­tura.
A ne­ces­si­dade de re­con­quistar o poder do Es­tado também fica evi­dente na per­sis­tência de graves vi­o­lên­cias re­la­ci­o­nadas aos car­téis de drogas, pro­blema que levou AMLO a criar uma nova Guarda Na­ci­onal, for­mada por mi­li­tares (re­for­çada por novos re­crutas), re­trei­nados para re­a­lizar ope­ra­ções po­li­ciais. Os crí­ticos afirmam que isso sig­ni­fica a mi­li­ta­ri­zação da vida pú­blica. Eles também apontam que AMLO faz uso apa­rato re­pres­sivo ao longo da fron­teira sul do país, onde ca­ra­vanas de mi­grantes da Amé­rica Cen­tral são fre­quen­te­mente re­ce­bidas à força. Essas ações são, em grande me­dida, uma ca­pi­tu­lação à pe­rene de­manda dos Es­tados Unidos (antes e de­pois de Trump) de que o Mé­xico in­ter­rompa o fluxo de re­que­rentes de asilo. Como seus an­te­ces­sores, AMLO aceitou tais res­tri­ções à so­be­rania na­ci­onal, talvez porque elas possam ser usadas como ala­vanca nas ne­go­ci­a­ções com seu vi­zinho do norte. Ele de­dicou uma energia con­si­de­rável para im­pedir que as ca­ra­vanas che­gassem aos Es­tados Unidos, ofe­re­cendo vistos de tra­balho me­xi­canos, pe­dindo um “Plano Marshall para a Amé­rica Cen­tral” e ne­gli­gen­ci­ando a brutal re­pressão po­li­cial. Seu de­sem­penho nessa área só pode ser des­crito como pés­simo, em­bora uma ex­ceção im­por­tante tenha sido sua re­cusa em con­sentir na ten­ta­tiva de Trump de de­clarar o Mé­xico um “ter­ceiro país se­guro”, o que teria im­pe­dido pra­ti­ca­mente todos os re­fu­gi­ados centro-ame­ri­canos de buscar asilo nos Es­tados Unidos.

O re­tum­bante fra­casso da Guerra contra o Nar­co­tra­fi­cante – com 152 mil mortos, 32 mil de­sa­pa­re­cidos e 310 mil des­lo­cados – não im­pediu o go­verno de Peña Nieto de aprovar a con­tes­tada Lei de Se­gu­rança In­terna, que le­ga­liza a mi­li­ta­ri­zação do país.

3. Em seu dis­curso de posse em de­zembro de 2018, AMLO afirmou que “a marca re­gis­trada do ne­o­li­be­ra­lismo é a cor­rupção”. O ne­o­li­be­ra­lismo, em sua opi­nião, não con­siste apenas na con­tração do Es­tado, mas em sua ins­tru­men­ta­li­zação a ser­viço do mer­cado. Esse pro­cesso trans­formou o Mé­xico em uma es­pécie de eco­nomia ren­tista re­versa, na qual uma rede de em­presas pri­vadas desvia di­nheiro dos co­fres pú­blicos por meio de uma série de me­ca­nismos le­gais e ile­gais: pri­va­ti­zação, sub­con­tra­tação, venda de ser­viços su­per­fa­tu­rados e cri­ação de em­presas de fa­chada para tirar van­tagem de con­tratos pú­blicos e opor­tu­ni­dades de evasão fiscal.

A noção de ne­o­li­be­ra­lismo como a eco­nomia po­lí­tica da cor­rupção in­formou as metas de gastos pú­blicos de AMLO. O con­ceito prin­cipal de seu go­verno é con­train­tui­tivo: aus­te­ri­dade re­pu­bli­cana. Na prá­tica, isso sig­ni­fica a re­or­ga­ni­zação e re­cen­tra­li­zação do gasto pú­blico com o ob­je­tivo de “cortar dos de cima”. Dado que o ne­o­li­be­ra­lismo me­xi­cano forjou ex­tensos vín­culos entre o Es­tado e as em­presas pri­vadas, a aus­te­ri­dade é vista como um ins­tru­mento per­ti­nente para romper esses vín­culos e se li­vrar de cor­po­ra­ções pa­ra­sitas cujos lu­cros de­pendem da ge­ne­ro­si­dade do go­verno.

A longo prazo, uma adesão es­trita à aus­te­ri­dade re­pu­bli­cana pode tornar di­fícil, se não im­pos­sível, a cri­ação de um só­lido sis­tema de bem-estar so­cial. No en­tanto, por en­quanto, con­se­guiu re­le­gi­timar o Es­tado após dé­cadas de fa­vo­ri­tismo e cli­en­te­lismo. Os te­mores de que isso de­sen­ca­de­aria de­mis­sões em massa di­mi­nuíram. Além dos grandes gastos com obras pú­blicas e trans­fe­rên­cias mo­ne­tá­rias, se­tores como ci­ência, edu­cação e saúde ti­veram seus or­ça­mentos au­men­tados, ainda que mi­ni­ma­mente. O pro­blema mais pre­mente de­cor­rente do aperto fiscal de AMLO é que ele pre­ju­dica os ar­gu­mentos a favor de uma re­forma fiscal de en­ver­ga­dura, pois im­plica que a es­querda pode atingir seus ob­je­tivos apenas por meio de gastos mais efi­ci­entes: re­e­qui­li­brar as contas em vez de re­dis­tri­buir a ri­queza.

Em te­oria, os crí­ticos de es­querda de AMLO po­de­riam re­co­nhecer seus avanços en­quanto fa­ziam uma forte crí­tica de sua po­lí­tica de gê­nero, po­lí­ticas de fron­teira e pro­gramas de aus­te­ri­dade. Porém, na prá­tica, per­deram a opor­tu­ni­dade de cons­truir uma al­ter­na­tiva séria ao MO­RENA. Até agora, as crí­ticas de es­querda a AMLO foram am­pla­mente mo­no­po­li­zadas pela in­te­lec­tu­a­li­dade “pro­gres­sista”, que por sua vez foi ab­sor­vida pelo bloco de opo­sição do­mi­nado pela elite. O mo­vi­mento autô­nomo, por sua vez, con­tinua de­sin­te­res­sado em cap­turar o poder do Es­tado. Há muito aban­donou esse ter­reno e se con­cen­trou em se opor a pro­jetos de­sen­vol­vi­men­tistas, ob­tendo poucos re­sul­tados nesse sen­tido.

Qual­quer ava­li­ação de AMLO e MO­RENA deve re­co­nhecer as di­fi­cul­dades de rei­ni­ciar um Es­tado de bem-estar com um apa­rato ad­mi­nis­tra­tivo di­la­pi­dado e re­vi­gorar uma classe tra­ba­lha­dora que foi quase der­ro­tada como agente co­le­tivo. O atual go­verno é, na­tu­ral­mente, afli­gido por muito mais in­cer­tezas e con­tra­di­ções, que estão além do es­copo deste pe­queno texto. Até que ponto o ne­o­de­sen­vol­vi­men­tismo é viável no con­texto da atual crise cli­má­tica? A tri­bu­tação pro­gres­siva pode ter su­cesso em um am­bi­ente de cres­ci­mento es­tag­nado? Com que ra­pidez um país pode se des­fazer de in­ves­ti­mentos es­tran­geiros? Estas são ques­tões para a es­querda em todo o mundo. Quais­quer que sejam as fa­lhas nas res­postas de AMLO, sua ten­ta­tiva de romper com o ne­o­li­be­ra­lismo não pode ser fa­cil­mente des­car­tada.

Edwin F. Ac­kerman é so­ció­logo e pro­fessor da Uni­ver­si­dade de Sy­ra­cuse.
Re­ti­rado de El Salto
Tra­dução: Rôney Ro­dri­gues, Ou­tras Pa­la­vras.

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