Milei corre contra o tempo para salvar peso argentino

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O presidente da Argentina, Javier Milei, prepara-se para um encontro simbólico e estratégico com Donald Trump, em Nova York, nesta terça-feira (23), em meio a um dos momentos mais delicados de seu governo. Enquanto busca reafirmar alianças no exterior, seu país enfrenta uma tempestade econômica interna: desvalorização acelerada do peso, fuga de capitais e crescente desconfiança dos investidores quanto à sua capacidade de cumprir a agenda liberal.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, teve um gesto em direção à Argentina. Pelo X (antigo Twitter), ele afirmou: “Seguimos confiando no apoio do presidente Javier Milei à disciplina fiscal e às reformas pró-crescimento.” E acrescentou: “Elas são necessárias para romper com a longa história de declínio da Argentina.”

A visita internacional ocorre no momento em que a Argentina tenta evitar um colapso cambial e estabilizar a economia antes das eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para 26 de outubro. Em apenas três dias da última semana, o Banco Central argentino injetou US$ 1,1 bilhão no mercado para conter a pressão sobre o peso, numa tentativa de evitar a repetição de crises anteriores — como episódios de hiperinflação e calotes da dívida.

“Faremos tudo o que for preciso para proteger a qualidade de vida dos argentinos”, prometeu Milei na sexta-feira (19), durante um evento em Córdoba. A fala, no entanto, contrasta com o nervosismo crescente do mercado, que vê nas intervenções cambiais um risco à sustentabilidade das reservas internacionais, hoje estimadas em menos de US$ 20 bilhões líquidos.

Milei: Mercado em pânico e risco político interno

A atual turbulência começou a ganhar corpo após a derrota do governo nas eleições locais de 7 de setembro, especialmente na província de Buenos Aires, bastião do peronismo. O revés político enfraqueceu a posição de Milei no Congresso e acendeu um alerta entre investidores, que passaram a duvidar da viabilidade de suas reformas estruturais.

Diante do enfraquecimento político, aumentaram os temores de que Milei seja forçado a abandonar sua promessa de defender o peso, recorrendo a uma desvalorização abrupta.

A pressão também vem de dentro do próprio mercado: bancos como Morgan Stanley já apontam a necessidade de um novo “arcabouço macroeconômico” após as eleições.

Alianças externas e negociações discretas

No plano internacional, a Casa Rosada vem tentando costurar apoio com os Estados Unidos. Apesar de não confirmar oficialmente, Milei deu pistas de que há negociações em andamento para garantir recursos que assegurem o pagamento de US$ 9,5 bilhões em dívidas a vencer em 2026.

Questionado sobre o envolvimento do Tesouro americano, o presidente afirmou: “Estamos bastante avançados, mas não fazemos anúncios até que algo esteja confirmado”.

A ideia de um apoio via Fundo de Estabilização Cambial chegou a ser ventilada por Scott Bessent, em abril, mas não houve atualizações oficiais desde então. Já o FMI (Fundo Monetário Internacional), que fechou um acordo de US$ 20 bilhões com a Argentina no início do ano, evita comentar novas rodadas de apoio financeiro.

Milei aposta que uma vitória significativa nas eleições de outubro poderá renovar a confiança do mercado. Entretanto, a escalada da crise já começa a corroer parte do capital político acumulado no início do mandato, quando os cortes de gastos e a desaceleração da inflação chegaram a animar investidores globais.

Promessas em xeque

Em um gesto que contradiz seu discurso libertário — de dolarização da economia e fechamento do Banco Central —, o governo endureceu o controle cambial e está queimando reservas a ritmo acelerado. A estratégia, embora emergencial, reforça a percepção de improviso e falta de previsibilidade da política econômica.

A combinação de fragilidade política, pressão cambial e ausência de apoio externo robusto transforma o mês de outubro em um divisor de águas para o governo Milei.

Sem uma reversão de expectativas, a Argentina corre o risco de repetir o ciclo de instabilidade que já se tornou marca registrada de sua história econômica recente.

 





Fonte: ICL Notícias

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