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SUS: Atenção Básica começa a dar os primeiros frutos, por Gabriel Brito e Gabriela Leite

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SUS: Atenção Básica começa a dar os primeiros frutos
Gabriel Brito e Gabriela Leite, Outra Saúde

Em uma sala do sé­timo andar do prédio do mi­nis­tério da Saúde, em meio a uma imen­sidão de ou­tras sa­letas e di­vi­só­rias de es­cri­tó­rios, Nésio Fer­nandes, o se­cre­tário de Atenção Pri­mária à Saúde, re­cebeu nossa equipe – que es­tava em Bra­sília em função da co­ber­tura da 17ª Con­fe­rência Na­ci­onal de Saúde. Du­rante o en­contro, Fer­nandes fez uma longa e de­ta­lhada fala, di­dá­tica para a com­pre­ensão dos sig­ni­fi­cados da Atenção Bá­sica em Saúde, pilar es­sen­cial do fun­ci­o­na­mento do SUS.

Na con­versa, cuja ín­tegra pode ser lida abaixo, o ex-se­cre­tário de saúde do mu­ni­cípio de Palmas (TO) e do es­tado do Es­pí­rito Santo fez uma aná­lise da con­jun­tura his­tó­rica em que se en­contra o campo da Saúde. Em sua visão, trata-se de uma ja­nela de opor­tu­ni­dades que não pode ser des­per­di­çada.
“Par­tidos de di­reita, que de­fen­diam coisas como vou­cher da saúde, estão de­fen­dendo saúde pú­blica gra­tuita e uni­versal. Virou uma car­teira comum a muitos campos po­lí­ticos. Temos um na­moro, um en­can­ta­mento de di­versos se­tores com o sis­tema de saúde”, nota. Mas com­pleta: “Acre­dito que se nós não dermos re­sul­tados de me­lhor per­for­mance em dois ou três anos, co­me­çamos a de­compor e a di­luir esta paixão, esse en­can­ta­mento com o SUS, e ve­remos teses de re­visão, de pri­va­ti­zação res­sur­girem com força”.

No mo­mento em que a con­versa era gra­vada, a ca­pital fe­deral es­tava aque­cida pela 17ª Con­fe­rência, com seus mais de 4 mil de­le­gados de todo o país – mo­mento mar­cante na de­mons­tração do amplo apoio que a mi­nistra Nísia Trin­dade an­garia entre tra­ba­lha­dores e mi­li­tantes do di­reito à saúde. A ce­rimônia de en­cer­ra­mento, com pre­sença de Lula e dis­cursos con­tun­dentes em favor de sua per­ma­nência, se­pultou a chuva de es­pe­cu­la­ções que o cha­mado “Cen­trão” plantou na mídia cor­po­ra­tiva nas se­manas an­te­ri­ores.

Mas, pas­sada a eu­foria, volta-se à ro­tina. E dentro de tal nor­ma­li­dade, é ne­ces­sário falar do tra­balho prá­tico da ad­mi­nis­tração pú­blica. Como ex­plicou Fer­nandes, a Atenção Pri­mária em Saúde é um ex­ce­lente campo de apre­sen­tação de re­sul­tados con­cretos. “Para um pri­meiro ano de go­verno, de­ci­sões es­tru­tu­rantes na atenção pri­mária são ca­pazes de gerar uma ex­pec­ta­tiva de re­sul­tados em 12 ou 24 meses, que ou­tras po­lí­ticas não geram”, afirma.
O se­cre­tário também co­loca as ne­ces­si­dades em saúde da po­pu­lação à luz de sua dis­tri­buição ge­o­grá­fica e so­ci­o­e­conô­mica, o que ex­plica boa parte das de­ci­sões to­madas neste pri­meiro se­mestre de go­verno. A mais mi­diá­tica de todas, sem dú­vidas, o Mais Mé­dicos.

“Neste de­senho, o Pro­grama Mais Mé­dicos é uma so­lução na­ci­onal para um pro­blema local. Seja da­queles 1.256 mu­ni­cí­pios com menos de cinco mil ha­bi­tantes, seja de grandes ca­pi­tais que pos­suem re­giões sem mé­dicos. Com o novo edital de co­par­ti­ci­pação do Mais Mé­dicos, que está vi­gente, nós já temos um grande su­cesso de adesão dos mu­ni­cí­pios a novas vagas da ex­pansão do pro­grama. Nós de­se­nhamos um pro­grama que che­garia no final deste ano com 28, 30 mil vagas. Talvez a gente se sur­pre­enda e tenha mais”, re­vela.

Com­ba­tido pela di­reita por ques­tões ide­o­ló­gicas e cor­po­ra­tivas, o pro­grama ainda volta acom­pa­nhado de me­didas que pa­recem abrir um ho­ri­zonte de ex­pansão real do SUS, con­forme de­fen­dido por di­versos atores do setor. As equipes mul­ti­pro­fis­si­o­nais (eMulti) são mais uma fa­ceta da nova es­tra­tégia de atenção bá­sica do go­verno fe­deral.

“É o res­gate do an­tigo NASF (Nú­cleo de Apoio à Saúde da Fa­mília). Nós já temos mais de 7,5 mil so­li­ci­ta­ções a essas equipes no Brasil. No auge do NASF che­gamos a 5,2 mil equipes. Nós, nos pri­meiros seis meses, já es­tamos com um grande mo­vi­mento, com a maior ex­pansão de um cui­dado mul­ti­pro­fis­si­onal já vi­vido na atenção bá­sica bra­si­leira. E isso é ex­tra­or­di­nário. O im­pacto que pode ter com a im­plan­tação das equipes no pri­meiro ano, ao longo de três anos, é ex­tra­or­di­nário”, co­me­mora o se­cre­tário.

Outra sin­gu­la­ri­dade do mo­mento é o con­texto econô­mico um tanto clau­di­cante do setor pri­vado. Ou­trora as­so­ciado à efi­ci­ência e sa­tis­fação dos usuá­rios, passa por im­passes fi­nan­ceiros e con­flitos ju­rí­dicos cres­centes com os cli­entes. Para Nésio, uma bomba-re­lógio criada por sua pró­pria con­cepção de cui­dado em saúde. A seu ver, re­força-se a ne­ces­si­dade de “um SUS que fun­cione para 203 mi­lhões de bra­si­leiros”.

“Há um mo­delo de saúde su­ple­mentar do Brasil que tem in­su­fi­ci­ên­cias tanto na questão da uni­ver­sa­li­dade do acesso, que não con­segue dar conta, quanto na in­te­gra­li­dade do cui­dado. E uma mo­de­lagem de co­par­ti­ci­pação, com planos que não co­brem todos os ser­viços que esses pa­ci­entes pre­cisam, acaba fa­zendo com que este pa­ci­ente migre para o Sis­tema Único de Saúde”, ana­lisa.

Ao longo da en­tre­vista, Nésio Fer­nandes também co­mentou a Con­fe­rência Na­ci­onal de Saúde. Ele acre­dita que o en­contro não só sim­bo­liza a “união e re­cons­trução” de­fen­dida pelo go­verno, como co­loca na ordem do dia a ideia his­tó­rica de con­trole so­cial pelos usuá­rios. Entre ou­tras ques­tões de seu âm­bito, também co­mentou o avanço da di­gi­ta­li­zação do SUS e das pos­si­bi­li­dades que abre em favor da or­ga­ni­zação de po­lí­ticas pú­blicas.

Leia a ín­tegra da en­tre­vista.

Quais se­riam os de­sa­fios mais im­por­tantes da atenção pri­mária no atual mo­mento? Como a se­cre­taria que você ocupa pode ajudar nos ob­je­tivos ge­rais do Es­tado na área da saúde, no con­texto her­dado da pan­demia?

Atenção Pri­mária em Saúde (APS) é, sem dú­vida ne­nhuma, em todos os ní­veis de atenção que existem no SUS, uma grande opor­tu­ni­dade de de­ci­sões prag­má­ticas e re­sul­tados rá­pidos. Pri­meiro porque é o único nível es­sen­cial pre­sente em todos os mu­ni­cí­pios do Brasil. Grandes po­lí­ticas que têm fi­nan­ci­a­mento fe­deral, como por exemplo UPAs (Uni­dades de Pronto Aten­di­mento), são para mu­ni­cí­pios com mais de 50 mil ha­bi­tantes. So­mente 15% dos mu­ni­cí­pios do Brasil têm mais de 50 mil ha­bi­tantes. Hos­pi­tais com 100, 150 leitos, que são hos­pi­tais sus­ten­tá­veis, também são de­se­nhados para mu­ni­cí­pios grandes, com 80, 100, 200 mil ha­bi­tantes. E o Brasil é um país de pe­quenos mu­ni­cí­pios: 68% dos mu­ni­cí­pios do Brasil têm menos de 20 mil ha­bi­tantes. Ba­si­ca­mente, as po­lí­ticas fe­de­rais aptas a esse tipo de mu­ni­cípio são vin­cu­ladas à atenção bá­sica, que a gente hoje de­no­mina com maior con­senso como atenção pri­mária em saúde.

Assim, se pen­sarmos em uni­ver­sa­li­zação do acesso, ga­rantia do cui­dado in­te­gral, pre­ci­samos pensar em de­se­nhos vin­cu­lados à atenção pri­mária em saúde. Porque é a pa­ra­me­tri­zação que al­cança a grande mai­oria dos mu­ni­cí­pios do Brasil, ainda que esses mu­ni­cí­pios não te­nham a maior parte da po­pu­lação. Vejam que 1.256 mu­ni­cí­pios pos­suem menos de 5 mil ha­bi­tantes. Eles re­pre­sentam 22% do total de mu­ni­cí­pios do Brasil e pos­suem so­mente 2% da po­pu­lação bra­si­leira mo­rando neles.

Ou seja, fa­lamos de um es­forço cujo im­pacto al­cança 22% dos mu­ni­cí­pios e 2% da po­pu­lação bra­si­leira. No en­tanto, lá tem gente, tem pes­soas, tem os re­cortes de gê­nero, de raça, os es­tratos so­ciais, econô­micos, todos os re­cortes pos­sí­veis e de­si­gual­dades vin­cu­ladas.

E a APS tem uma outra ca­rac­te­rís­tica: ela é 99% es­tatal, pouco ter­cei­ri­zada e tem poucos ar­ranjos ju­rí­dicos que a ope­ra­ci­o­na­lizam nos mu­ni­cí­pios. São poucos os mu­ni­cí­pios do Brasil que pos­suem OSs (Or­ga­ni­za­ções So­ciais) ou ou­tros tipos de ter­cei­ri­zação como mo­delo prin­cipal de go­ver­nança da atenção pri­mária. Dentro do que nos cabe no mi­nis­tério da Saúde, ao pu­blicar uma de­ter­mi­nada por­taria com uma po­lí­tica – fi­nan­ci­a­mento, di­re­trizes e apoio à im­ple­men­tação – em até quatro meses já gerou-se em todo o país, de ma­neira bem uni­forme, uma grande mu­dança.

Quando se trata de ou­tros ní­veis de atenção, por exemplo, atenção es­pe­ci­a­li­zada, é uma con­fusão gi­gan­tesca, porque tem lu­gares onde quem deve li­derar é o mu­ni­cípio, nou­tros o es­tado, em cada re­gião é di­fe­rente, tem muitas fi­guras ju­rí­dicas, fi­lan­tró­picas, pú­blicas, es­ta­tais, mistas. É um con­junto de atores muito di­verso para con­ci­liar e mo­bi­lizar em po­lí­ticas na­ci­o­nais. Por­tanto, para um pri­meiro ano de go­verno, de­ci­sões es­tru­tu­rantes na atenção pri­mária são ca­pazes de gerar uma ex­pec­ta­tiva de re­sul­tados em 12 ou 24 meses que ou­tras po­lí­ticas não geram.

Por­tanto, num país com as ca­rac­te­rís­ticas do Brasil é im­pos­sível pensar uma po­lí­tica ampla de saúde sem pri­o­rizar a atenção pri­mária.

O Brasil tem a se­guinte si­tu­ação: nos anos 90, tí­nhamos uma dis­puta de dois mo­delos de atenção bá­sica. Um que dizia o se­guinte: na atenção bá­sica para os países em de­sen­vol­vi­mento é pre­ciso um pro­grama que co­loca uma en­fer­meira, um agente de saúde, um as­sis­tente so­cial; pro­cura-se a po­pu­lação mais pobre, faz-se exame de ras­tre­a­mento, en­trega-se re­médio de hi­per­tensão e di­a­betes e pronto, tem-se um pro­grama de atenção pri­mária.

A partir de 2006, com a pu­bli­cação da Po­lí­tica Na­ci­onal de Atenção Pri­mária (PNAB), de­cidiu-se que a APS de­veria ser com­posta por pro­fis­si­o­nais ca­pazes de ga­rantir um cui­dado in­te­gral e ao longo da vida, uma atenção capaz de cuidar do curso da vida, tanto dos pro­blemas crô­nicos quanto da de­manda es­pon­tânea. As equipes de­ve­riam ser com­postas por mé­dico, en­fer­meiro, téc­nico de en­fer­magem e um con­junto de agentes co­mu­ni­tá­rios de saúde para atender tudo que es­tiver na­quela co­mu­ni­dade, com o cui­dado lon­gi­tu­dinal e vol­tado a todos os pro­blemas, de cri­ança, ado­les­cente, mães, ges­tantes, tra­ba­lha­dores, idosos, do­mi­ci­li­ados do pro­grama saúde na es­cola… Uma atenção pri­mária in­te­gral.

Só que nós es­bar­ramos em al­guns pro­blemas. O teto do sa­lário dos pre­feitos é o teto do pa­ga­mento do fun­ci­o­na­lismo pú­blico de cada mu­ni­cípio. A grande mai­oria dos pre­feitos ganha um sa­lário entre 8 e 10 mil reais men­sais, de modo que não se con­segue con­tratar um mé­dico para ficar 40 horas se­ma­nais no mu­ni­cípio. No go­verno an­te­rior, criou-se uma fi­gura com o fi­nan­ci­a­mento das equipes de atenção pri­mária sem o agente co­mu­ni­tário de saúde. Muitas equipes foram ex­pan­didas sem o con­ceito da Es­tra­tégia de Saúde da Fa­mília, com qua­renta horas se­ma­nais no mesmo lugar. Como o Mais Mé­dicos foi de­si­dra­tado e o Mé­dicos pelo Brasil não chegou com ca­pa­ci­dade de subs­ti­tuir o que foi o Mais Mé­dicos no seu auge, e tam­pouco ir além, os mu­ni­cí­pios fi­caram com mais ou menos 5 mil vagas oci­osas sem pre­en­chi­mento do pro­grama Mais Mé­dicos ou do Mé­dicos do Brasil.

Nós tí­nhamos 4 mil Equipes de Saúde da Fa­mília no Brasil sem mé­dicos no início de 2023. E muitas equipes de atenção pri­mária sem agente co­mu­ni­tário de saúde, sem equipes de Es­tra­tégia de Saúde da Fa­mília com qua­renta horas se­ma­nais sendo ex­pan­didas e cri­adas. Com o re­lan­ça­mento do Mais Mé­dicos, re­for­mu­lado, já che­gamos a 20 mil vagas de pro­vi­mento fe­deral efe­tivas nos mu­ni­cí­pios. São cinco mil vagas do Mé­dicos pelo Brasil, mais as vagas que tí­nhamos re­ma­nes­centes do pro­grama, os edi­tais que lan­çamos para a saúde in­dí­gena e o úl­timo edital do Mais Mé­dicos. Com todos esses edi­tais che­ga­remos a vinte mil vagas in­te­gral­mente fi­nan­ci­adas pelo Go­verno Fe­deral.

E qual a van­tagem do Mais Mé­dicos? O pro­fis­si­onal cumpre cinco dias de carga ho­rária, faz uma es­pe­ci­a­li­zação, tem um vín­culo de quatro anos, é es­ti­mu­lado a fazer uma prova de tí­tulo e tem uma re­mu­ne­ração média de 15 mil reais por mês, lí­quidos, o que é mais atra­tivo e acima do li­mite que os mu­ni­cí­pios podem pagar. Assim, neste de­senho o Pro­grama Mais Mé­dicos é uma so­lução na­ci­onal para um pro­blema local, seja da­queles 1.256 mu­ni­cí­pios com menos de cinco mil ha­bi­tantes, seja de grandes ca­pi­tais que pos­suem re­giões sem mé­dicos. Com o novo edital de co­par­ti­ci­pação do Mais Mé­dicos, que está vi­gente, nós já temos um grande su­cesso de adesão dos mu­ni­cí­pios a novas vagas da ex­pansão do pro­grama. Nós de­se­nhamos um pro­grama que che­garia no final deste ano com 28, 30 mil vagas. Talvez a gente se sur­pre­enda e tenha mais.

Por­tanto, já se pode falar num efe­tivo salto de qua­li­dade da atenção pri­mária nesses pri­meiros seis meses de go­verno?

As vagas abertas agora são de adesão dos mu­ni­cí­pios. Os mu­ni­cí­pios estão so­li­ci­tando mais vagas para o Mais Mé­dicos, in­clu­sive mu­ni­cí­pios que nunca par­ti­ci­param do pro­grama. Com essa ca­pa­ci­dade de ex­pansão do Mais Mé­dicos no re­cru­ta­mento, tais mu­ni­cí­pios vão trans­formar muitas Equipes de Saúde da Fa­mília de 20 ou 30 horas se­ma­nais em equipes es­tra­té­gicas da fa­mília de qua­renta horas. Terão con­di­ções de apro­veitar o en­fer­meiro, o téc­nico e o agente que já está no mu­ni­cípio e ex­pandir a Es­tra­tégia da Saúde da Fa­mília. Nós es­tamos cri­ando uma con­dição ob­je­tiva para que o mo­delo de atenção pri­mária com cui­dado in­te­gral possa ser ex­pan­dido ra­pi­da­mente no país.

Nas si­mu­la­ções que temos feito, junto com o or­ça­mento já dis­po­ni­bi­li­zado para a SAPS (Se­cre­taria de Atenção Pri­mária à Saúde), nós po­demos in­clu­sive ter um re­corde de ex­pansão de novas Equipes de Saúde da Fa­mília, nunca visto desde a cri­ação da PNAB. Isso ainda neste ano, em todo o país.

Para com­ple­mentar, pu­bli­camos a por­taria das equipes mul­ti­pro­fis­si­o­nais, que podem ser com­postas por até 23 pro­fis­sões da saúde, entre elas 11 es­pe­ci­a­li­dades mé­dicas, para que os mu­ni­cí­pios possam im­plantar essas equipes e ter um cui­dado es­pe­ci­a­li­zado no ter­ri­tório em apoio à saúde da fa­mília. É o res­gate do an­tigo NASF (Nú­cleo de Apoio à Saúde da Fa­mília). Nós já temos mais de 7.500 so­li­ci­ta­ções a essas equipes no Brasil. No auge do NASF che­gamos a 5.200 equipes. Nós, nos pri­meiros seis meses, já es­tamos com um grande mo­vi­mento de con­junto no Brasil, com a maior ex­pansão de um cui­dado mul­ti­pro­fis­si­onal já vi­vido na atenção bá­sica bra­si­leira. E isso é ex­tra­or­di­nário. O im­pacto que pode ter com a im­plan­tação das equipes no pri­meiro ano, ao longo de três anos, é ex­tra­or­di­nário.

Uma am­pli­ação prá­tica do SUS, como de­fen­dido por boa parte dos es­pe­ci­a­listas e mi­li­tantes da saúde du­rante a úl­tima cam­panha elei­toral?

Isso mesmo, porque in­cluímos, além dos que já es­tavam (fo­no­au­dió­logos, te­ra­peutas ocu­pa­ci­o­nais, fi­si­o­te­ra­peutas, as­sis­tentes so­ciais, psi­có­logos), os in­fec­to­lo­gistas, car­di­o­lo­gistas, en­do­cri­no­lo­gistas, os han­se­nó­logos para apoiar o pro­cesso de di­ag­nós­tico da han­se­níase no Brasil, os der­ma­to­lo­gistas, além das ou­tras es­pe­ci­a­li­dades que já po­diam, como a psi­qui­a­tria, ge­ri­a­tria, a pe­di­a­tria, gi­neco-obs­te­trícia. Cria-se um mo­vi­mento aonde po­de­remos, com fi­nan­ci­a­mento fe­deral, in­duzir um cui­dado mais am­pliado na APS. E também vamos ter atu­a­li­za­ções do nosso sis­tema com o E-SUS-APS, o nosso pron­tuário ele­trô­nico, que vai per­mitir um cui­dado com­par­ti­lhado mais ade­quado, in­te­gra­ções com di­versos bancos de dados e com ou­tras no­vi­dades que a mi­nistra ainda anun­ciará.

Por­tanto, esse pro­cesso de in­cor­po­ração di­gital se junta às equipes mul­ti­fun­ci­o­nais, com ex­pansão da atenção pri­mária e re­cursos ga­ran­tidos. Também entra nisso a pu­bli­cação da por­taria da SESB (Ser­viços Es­pe­ci­a­li­zados em Saúde Bucal), com pos­si­bi­li­dade de o mu­ni­cípio re­ceber 9 mil reais por mês para ter até 30 horas se­ma­nais de duas ou três es­pe­ci­a­li­dades odon­to­ló­gicas, ca­te­goria dis­po­ni­bi­li­zada para mu­ni­cí­pios com até 20 mil ha­bi­tantes. A SESB é de­se­nhada para o Brasil de pe­quenos mu­ni­cí­pios, onde se po­derá ter um odon­to­pe­di­atra, um en­do­don­tista, um buco-ma­xilo, con­tra­tado para ter dez horas, quinze horas se­ma­nais de acesso ao ser­viço lá no mu­ni­cípio.

Ima­gine-se, R$ 9.000 mil reais por trinta horas se­ma­nais, con­tra­tando dois es­pe­ci­a­listas com quinze horas cada um. Só como fi­nan­ci­a­mento es­tamos fa­lando de R$ 4.500 por quinze horas por es­pe­ci­a­lista. É um dos me­lhores fi­nan­ci­a­mentos já pu­bli­cados dentro do SUS até hoje, além de R$ 24.000 de au­xílio-im­plan­tação para a cri­ação dessas equipes.

Nós es­tamos fa­lando de seis meses de go­verno com essa car­teira de anún­cios e te­remos ou­tros ao longo dos pró­ximos dias.

Houve re­tro­cesso na atenção pri­mária nos úl­timos anos, en­quanto a po­pu­lação in­ten­si­ficou seu uso do SUS. O que isso co­loca aos or­ga­ni­za­dores de po­lí­ticas de saúde?

A pan­demia e também al­guns es­tudos re­centes estão re­ve­lando que al­gumas ge­ne­ra­li­za­ções que eram feitas não têm cor­re­lação com a re­a­li­dade. Al­gumas ge­ne­ra­li­za­ções le­vavam a dizer que o Brasil tinha 25% da po­pu­lação co­berta com planos de saúde. Um es­tudo re­cente apontou que, por exemplo, no Su­deste, es­pe­ci­al­mente em São Paulo, um de cada três usuá­rios de plano de saúde usa o SUS com frequência, não so­mente o SUS da vi­gi­lância sa­ni­tária, da va­cina, mas a UPA e a atenção bá­sica. Estão na fila de es­pera da atenção es­pe­ci­a­li­zada.

Há um mo­delo de saúde su­ple­mentar do Brasil que tem in­su­fi­ci­ên­cias tanto na questão da uni­ver­sa­li­dade do acesso, que não con­segue dar, quanto na in­te­gra­li­dade do cui­dado. E numa mo­de­lagem de co­par­ti­ci­pação, com planos que não co­brem todos os ser­viços que esses pa­ci­entes pre­cisam, acaba-se fa­zendo com que este pa­ci­ente migre para o Sis­tema Único de Saúde.

E aí nós temos a se­guinte re­a­li­dade: o SUS pre­cisa se pre­parar para atender todo mundo. Ele tem de ser um sis­tema de­se­nhado para atender 203 mi­lhões de bra­si­leiros, de acordo com o Censo do IBGE. Todos os bra­si­leiros e qual­quer ser hu­mano que pise o solo na­ci­onal.

Por­tanto, o sis­tema tem atri­butos e com­pe­tên­cias cons­ti­tu­ci­o­nais, grandes vir­tudes da sua his­tória, mas tem grandes in­su­fi­ci­ên­cias ainda. Essas in­su­fi­ci­ên­cias vão ser re­sol­vidas na me­dida em que a gente for­ta­lecer todos os ní­veis de atenção. Não dá para fazer um sis­tema fun­ci­onar sendo um sis­tema de uma nota só. Não pode ser só atenção hos­pi­talar, só atenção es­pe­ci­a­li­zada ou só atenção bá­sica. Ele pre­cisa dar conta de todas as di­men­sões do cui­dado.

E aí a pan­demia gerou o quê? Uma vi­si­bi­li­dade maior do grau de per­ten­ci­mento da so­ci­e­dade e das ins­ti­tui­ções com o SUS. Isso para nós é uma ja­nela de opor­tu­ni­dade porque hoje in­clu­sive par­tidos de di­reita, que de­fen­diam coisas como vou­cher da saúde, estão de­fen­dendo saúde pú­blica gra­tuita e uni­versal. Virou uma car­teira comum a muitos campos po­lí­ticos e temos um na­moro, um en­can­ta­mento, de di­versos se­tores com o sis­tema de saúde. No en­tanto, acre­dito que se nós não dermos re­sul­tados de me­lhor per­for­mance em dois ou três anos co­me­çamos a de­compor e a di­luir esta paixão, esse en­can­ta­mento com o sis­tema e ve­remos teses de re­visão, de pri­va­ti­zação res­sur­girem com força.

Por­tanto, pre­ci­samos en­tender a ja­nela de opor­tu­ni­dade de for­ta­le­ci­mento do Sis­tema Único de Saúde. E para isso nós temos uma mi­nistra sa­ni­ta­rista. Nós temos uma mi­nistra es­co­lhida pelo pre­si­dente Lula, na sua con­vicção pes­soal, capaz de unir ges­tores es­ta­duais, ges­tores mu­ni­ci­pais, di­a­logar de ma­neira muito re­pu­bli­cana com o Con­gresso Na­ci­onal e com uma atenção es­pe­cial ao con­trole so­cial. O con­trole so­cial com­posto por usuá­rios, tra­ba­lha­dores e ges­tores que de­fendem esse sis­tema de saúde, nos marcos da cons­ti­tuição. Assim, nós en­ten­demos que essa ja­nela pre­cisa ser apro­vei­tada es­pe­ci­al­mente no con­texto de um pre­si­dente com sen­si­bi­li­dade so­cial gi­gan­tesca e uma mi­nistra sa­ni­ta­rista com as ca­rac­te­rís­ticas da Nísia.

Nesse sen­tido, vemos que na saúde pri­vada as em­presas pa­recem buscar cada vez mais ins­pi­radas na po­lí­tica de atenção pri­mária con­ce­bida pelo SUS. Você vê algum risco para para atenção pri­meira pelo SUS caso elas per­cebem esse ca­minho da me­di­cina pre­ven­tiva?

Eu acho que esse setor de­morou para en­tender que não era sus­ten­tável o mo­delo Fee for Ser­vice. De­morou muito para en­tender que se a pessoa tem uma dor de bar­riga e vai no gastro, no he­pa­to­lo­gista, no uro­lo­gista, no clí­nico geral, quando tem um di­ag­nós­tico quer uma se­gunda opi­nião, uma ter­ceira opi­nião, essa ma­lu­quice toda não re­solve, não ga­rante qua­li­dade de vida ao cui­dado da po­pu­lação que tem plano de saúde.

O mundo já en­tendeu há anos que ter um mé­dico es­pe­ci­a­li­zado em gente com abor­dagem ho­lís­tica, um cui­dado in­te­gral, que faz exame fí­sico, que va­lo­riza a pro­pe­dêu­tica, que con­segue ori­entar bem a con­duta do pa­ci­ente e ter um cui­dado com o vín­culo ao longo da vida, um cui­dado lon­gi­tu­dinal, é muito me­lhor e mais efi­ci­ente. Tanto na sa­tis­fação do usuário quanto também nos des­fe­chos clí­nicos. Isso é apli­cável e re­pro­du­zível tanto no setor pú­blico quanto no setor pri­vado. E o mo­delo cons­ti­tu­ci­onal do Brasil é misto. Eu não brigo com a Cons­ti­tuição. Eu acre­dito que a re­pú­blica, o Go­verno Fe­deral, pre­cisa pre­parar con­di­ções para que o SUS seja forte e au­tos­su­fi­ci­ente e eu não pre­ciso brigar com os pro­fis­si­o­nais que pre­tendem ou de­sejam ter um vín­culo duplo.

Hoje no Brasil, por exemplo, 22% dos mé­dicos têm so­mente vín­culos pú­blicos; 50% têm vín­culos mistos e o res­tante vín­culo pri­vado. Isso quer dizer que 72% dos mé­dicos têm vín­culo pú­blico. Não tem pro­blema ne­nhum o Brasil, daqui a al­guns anos, ter 100 mil mé­dicos de Fa­mília e Co­mu­ni­dade ti­tu­lados e al­guns atu­arem na uni­ver­si­dade, no pú­blico-pri­vado, no SUS e em plano de saúde, ou bus­carem uma se­gunda es­pe­ci­a­li­zação. Isso não é ameaça. Ameaça é o Go­verno Fe­deral de­cidir não formar muitos es­pe­ci­a­listas com qua­li­dade e o pouco que tiver ficar só com o pri­vado. Mas se a União de­cidir, como nós já de­ci­dimos, trans­formar quase toda atenção bá­sica bra­si­leira num grande ser­viço-es­cola, nós vamos ter con­di­ções de, em dez anos, formar 100 mil mé­dicos de Fa­mília e Co­mu­ni­dade, a partir da va­lo­ri­zação da re­si­dência e do pró­prio Mais Mé­dicos.

Por­tanto, a questão aqui co­lo­cada não é um pro­blema. O setor pri­vado não é nosso ini­migo nessa di­mensão. O nosso ini­migo seria a in­ca­pa­ci­dade po­lí­tica da União de­cidir aquilo que de­veria ter de­ci­dido há muitos anos, que é apostar e muito na Me­di­cina de Fa­mília e Co­mu­ni­dade e em ou­tras áreas es­tra­té­gicas para o cui­dado es­pe­ci­a­li­zado no SUS.

A res­peito da di­gi­ta­li­zação do sis­tema, como anda o E-SUS? Quais con­tri­bui­ções po­derá aportar a essa di­na­mi­zação da atenção pri­mária?

O E-SUS foi uma das prin­ci­pais de­ci­sões to­madas no Mi­nis­tério da Saúde nos úl­timos dez anos. Hoje é uti­li­zado por 77% cento dos mu­ni­cí­pios bra­si­leiros, 69% dos mu­ni­cí­pios com mais de 100 mil ha­bi­tantes. Isso é uma ja­nela gi­gan­tesca de opor­tu­ni­dade de di­gi­ta­li­zação e ace­le­ração di­gital do nosso sis­tema de saúde. Tudo aquilo que in­cre­men­tarmos de novas fun­ci­o­na­li­dades amanhã es­tará dis­po­nível para 77% dos mu­ni­cí­pios do Brasil.

Em breve a mi­nistra e o pre­si­dente Lula farão anún­cios de novas fun­ci­o­na­li­dades que es­tarão dis­po­ní­veis e que sem dú­vida ne­nhuma po­derão levar a uma am­pli­ação da quan­ti­dade de mu­ni­cí­pios que uti­li­zarão o E-SUS-APS. Assim, acre­dito que vamos chegar no final do ano que vem com 90% dos mu­ni­cí­pios do Brasil usando tais re­cursos. In­clu­sive em uma mo­da­li­dade de ins­ta­lação que já existe há muitos anos, que é a versão mul­ti­mu­ni­cipal, que com­par­tilha o pron­tuário único entre todos os mu­ni­cí­pios no pró­prio E-SUS.

Temos ainda al­guns mu­ni­cí­pios e uni­dades de saúde que não pos­suem co­nexão, mas a ampla mai­oria já tem. Por­tanto, se temos uma so­lução tec­no­ló­gica para a ampla mai­oria, te­remos re­sul­tado na ampla mai­oria das si­tu­a­ções. E vamos ven­cendo os de­sa­fios vin­cu­lados à co­nec­ti­vi­dade, mo­bi­li­zação de hardware, de compra de equi­pa­mentos, para que todo mundo tenha.

Nós de­fen­demos a tese de di­nheiro pú­blico em software pú­blico. Nós de­fen­demos a tese de que a união po­deria ra­di­ca­lizar ainda mais uma opção mais ex­plí­cita pelo software livre no âm­bito da gestão pú­blica. E o E-SUS-APS é um passo nessa di­reção, um in­ves­ti­mento pú­blico fe­deral capaz de ser uma so­lução comum à ampla mai­oria das re­a­li­dades do país.

Esse re­sul­tado ve­remos através dessas in­for­ma­ções que são re­gis­tadas no con­junto de dados, é ex­tre­ma­mente im­por­tante.

Di­ante dessa ja­nela his­tó­rica de opor­tu­ni­dade e da questão do avanço na ideia do con­trole so­cial do SUS, como você ob­servou e vi­ven­ciou a 17a. Con­fe­rência Na­ci­onal de Saúde? O que ela re­pre­senta para o SUS?

O úl­timo pe­ríodo foi de muita tu­tela em muitos temas. O mo­vi­mento so­cial não vivia um mo­mento onde era ben­vindo, não havia li­ber­dade de ar­ti­cu­lação, mo­bi­li­zação, uma pos­tura ins­ti­tu­ci­onal que bus­casse en­ten­di­mento e a con­cer­tação. O mo­vi­mento so­cial teve de viver, es­pe­ci­al­mente no Sis­tema Único de Saúde, tempos de muita re­sis­tência. Porque in­fe­liz­mente teses ne­ga­ci­o­nistas, an­ti­va­cinas, an­ti­ci­ência, foram aco­lhidas no seio do exe­cu­tivo fe­deral. Coube a este campo do con­trole so­cial viver todo o ciclo pan­dê­mico or­ga­ni­zando e ar­ti­cu­lando re­sis­tência. E o país es­tava di­vi­dido, po­la­ri­zado. Com a vi­tória do pre­si­dente Lula, nós pas­samos a viver uma en­co­menda de uma agenda de “união e re­cons­trução”. Assim, uma Con­fe­rência que aponta a pers­pec­tiva de que “amanhã vai ser outro dia”, é uma con­fe­rência que tra­balha com a es­pe­rança, tra­balha com a pers­pec­tiva de que a gente con­siga viver um novo mo­mento.

E acho que a de­cisão do Go­verno Fe­deral de apoiar a re­a­li­zação da con­fe­rência com o ta­manho que ela teve, re­pre­senta, sem dú­vida ne­nhuma, uma opor­tu­ni­dade de re­a­firmar as con­quistas do sis­tema de saúde, re­a­firmar di­re­trizes, ban­deiras e fazer grandes sín­teses para o nosso pla­ne­ja­mento dos pró­ximos quatro anos.

O Plano Na­ci­onal de Saúde pre­cisa de grandes sín­teses e grandes re­sul­tados como con­clu­sões desta con­fe­rência. Por isso o Con­selho Na­ci­onal de Saúde, es­pe­ci­al­mente pela li­de­rança da Se­cre­taria Exe­cu­tiva, com o apoio da mi­nistra e dos de­mais se­cre­tá­rios, con­se­guiu ga­rantir as con­di­ções para re­a­li­zação da con­fe­rência. Vale des­tacar que em ja­neiro deste ano não havia ne­nhum pro­cesso de con­tra­tação, de mo­bi­li­zação e es­tru­tu­ração da con­fe­rência en­ca­mi­nhado ao mi­nis­tério da Saúde.

Assim, com todos os es­tados par­ti­ci­pando, com a di­ver­si­dade gi­gan­tesca de mo­vi­mentos so­ciais, com a par­ti­ci­pação muito sig­ni­fi­ca­tiva de ges­tores, sinto uma pre­sença maior neste mo­mento do que em ou­tras con­fe­rên­cias das quais eu par­ti­cipei. E a pró­pria pre­sença da mi­nistra Nísia na cena e da forma como foi aco­lhida na aber­tura e no en­cer­ra­mento, que ainda teve a pre­sença do pre­si­dente Lula, re­pre­senta sem dú­vida ne­nhuma um mo­mento novo da par­ti­ci­pação so­cial no SUS.

Ge­ral­mente, co­loca-se a 8a Con­fe­rência, em 1986, como um di­visor de águas, pois ali se es­ta­be­le­ceram as bases de fun­dação do SUS, além da pró­pria re­de­mo­cra­ti­zação do país. Porém, eram de­bates mais res­tritos aos es­pe­ci­a­listas, ges­tores e pes­qui­sa­dores da área da saúde. A pre­sença mas­siva de se­tores po­pu­lares na con­fe­rência, re­fle­tida nas de­le­ga­ções e eixos te­má­ticos, re­ve­laria que o de­bate em torno do SUS e sua afir­mação está apro­priado por se­tores da po­pu­lação muito além da área da saúde em si?

A 16a Con­fe­rência, da qual eu par­ti­cipei da re­la­toria, tinha mais ex­pres­sões de mo­vi­mentos or­ga­ni­zados de corte con­ser­vador. Eram mais in­tensos os de­bates com pautas da­quele mo­mento que se vivia. Sinto que neste ano a con­fe­rência foi mais ho­mo­gênea no sen­tido de mo­vi­mentos mais pro­gres­sistas de di­versas ma­trizes, que par­ti­ci­param com força. Mas ainda en­tendo que o perfil ma­jo­ri­tário dos que par­ti­cipam é o campo mais clás­sico da luta po­pular, de seg­mentos pro­gres­sistas, mais avan­çados da so­ci­e­dade. Ainda temos um de­safio gi­gan­tesco no con­trole so­cial de ex­pandir para ou­tras di­men­sões, ou­tras formas de or­ga­ni­zação da so­ci­e­dade, que ainda não par­ti­cipam de ma­neira ativa da ex­pe­ri­ência ge­ne­ra­li­zada do con­trole.

Eu acho que a ini­ci­a­tiva que a di­reção atual do Con­selho Na­ci­onal de Saúde adotou, de or­ga­nizar um grande pro­grama na­ci­onal de es­tí­mulo à cri­ação de con­se­lhos lo­cais de saúde nas uni­dades bá­sicas do Brasil, pode gerar um outro pa­tamar de qua­li­dade e en­ga­ja­mento de se­tores mais di­ver­si­fi­cados dentro do con­trole so­cial, para além desses se­tores mais clás­sicos que sempre par­ti­ci­param.

Nós ainda temos uma co­luna dorsal de al­guns mo­vi­mentos po­pu­lares, de bairros, de campo, da ci­dade, de jo­vens, de mu­lheres, partes sin­di­cais, par­ti­ci­pando da con­fe­rência como bloco ma­jo­ri­tário. Com o su­cesso da ini­ci­a­tiva do Con­selho Na­ci­onal de criar mais con­se­lhos lo­cais, talvez haja uma di­ver­si­dade maior. É uma con­fe­rência mais ampla, mas ainda somos nós com nós mesmos. O con­trole so­cial sempre es­teve aberto à par­ti­ci­pação de quem qui­sesse, qual­quer ex­pressão de mo­vi­mento local par­ti­cipa e é aco­lhido, entra na ro­tina, na curva de agendas que os con­se­lhos lo­cais, es­ta­duais e mu­ni­ci­pais, es­ta­be­lecem pelo con­trole so­cial. Mas ainda há uma he­ge­monia dos grupos que sempre es­ti­veram à frente do con­trole so­cial e o li­de­raram. Isso não é ruim, não é uma crí­tica, é um re­co­nhe­ci­mento. Apenas co­loco um de­safio de ir além, um de­safio de con­se­guir am­pliar ainda mais a par­ti­ci­pação.

Acre­dita que a Saúde se afirma como tema cen­tral da cons­trução da de­mo­cracia no país e in­ci­dirá em de­bates trans­ver­sais?

O SUS é uma das ex­pres­sões mais avan­çadas do mo­delo ci­vi­li­za­tório de­se­nhado na cons­ti­tuinte. É uma das mai­ores con­quistas do povo bra­si­leiro no pro­cesso de der­rotar a di­ta­dura e re­con­quistar um pe­ríodo de de­mo­cra­ti­zação do país. No en­tanto, ti­vemos a he­rança do INAMPS e a im­ple­men­tação do sis­tema uni­versal nos anos 90 em con­flito com o mo­delo ne­o­li­beral, que es­tava sendo im­ple­men­tado no país. A partir da eleição do pre­si­dente Lula, pas­samos a ter con­tornos mais bem con­so­li­dados da­quilo que era uma ex­pec­ta­tiva do SUS cons­ti­tu­ci­onal. No en­tanto, neste mo­mento onde o país que emerge de um ciclo de po­la­ri­zação, de di­visão, de muito ten­si­o­na­mento no seio da so­ci­e­dade, o Sis­tema Único de Saúde passa a se cons­ti­tuir num ponto de cons­trução de pontes e diá­logos em torno da união na­ci­onal.

O Con­gresso Na­ci­onal re­cen­te­mente, quando aprovou a Me­dida Pro­vi­sória do Mais Mé­dicos, além de aper­fei­çoar o texto do exe­cu­tivo, fez a MP ser apro­vada com o apoio de todos os campos po­lí­ticos, de todos os par­tidos po­lí­ticos pra­ti­ca­mente. Em torno da pró­pria va­ci­nação, do en­fren­ta­mento da mor­ta­li­dade ma­terna in­fantil, da ne­ces­si­dade de ex­pandir e va­lo­rizar atenção pri­mária, ga­rantir acesso à atenção es­pe­ci­a­li­zada, temos tó­picos que unem pra­ti­ca­mente todos os campos po­lí­ticos. Quando a mi­nistra lança um mo­vi­mento na­ci­onal pela va­ci­nação e chama a so­ci­e­dade civil, re­co­nhece que esse de­safio só será su­pe­rado se a gente con­se­guir mo­bi­lizar toda a so­ci­e­dade e os atores que são en­ga­jados em de­fender a vida. Nísia está jus­ta­mente trans­for­mando a va­ci­nação numa pauta de diá­logo na­ci­onal e de cons­trução de pontes.

O mesmo quando pode ser dito quando apre­sen­tamos uma es­tra­tégia de en­fren­ta­mento à mor­ta­li­dade ma­terna in­fantil e a di­versas ou­tras pautas que vão for­ta­lecer o SUS. De­pu­tados, se­na­dores, go­ver­na­dores de qual­quer campo po­lí­tico podem aportar junto à União mais re­cursos em saúde pú­blica. Por­tanto, a saúde, sem dú­vida ne­nhuma, pode re­pre­sentar um ponto de uni­dade na­ci­onal nessa cons­trução de um país que su­pere a po­la­ri­zação. Um país di­vi­dido não pros­pera. É uma con­dição ob­je­tiva ne­ces­sária ao de­sen­vol­vi­mento a pa­ci­fi­cação do país. É uma con­dição sub­je­tiva ne­ces­sária ao en­ten­di­mento de pro­jetos cen­trais e pri­o­ri­tá­rios a pa­ci­fi­cação do país. Nós vamos pre­cisar pre­servar todos os es­paços que são de uni­dade e sem dú­vida ne­nhuma o Sis­tema Único de Saúde é um deles.

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27/07/2023

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