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Valter Pomar
12/06/2023

Wla­dimir Pomar – Re­pro­dução

O Cor­reio da Ci­da­dania la­menta pro­fun­da­mente o fa­le­ci­mento de Wla­dimir Pomar, nome his­tó­rico da luta pelo so­ci­a­lismo no Brasil. Pomar foi co­lu­nista do Cor­reio desde a fun­dação do jornal, em 1996, onde pu­blicou mi­lhares de ar­tigos.

Sua obra li­te­rária é das mais vastas da ci­ência po­lí­tica na­ci­onal, ainda que Pomar ja­mais tenha sido um pro­fis­si­onal com tal for­mação aca­dê­mica.

Entre os vá­rios li­vros que pu­blicou, in­ter­pretou e ana­lisou as lutas his­tó­ricas pelo so­ci­a­lismo, a for­mação so­cial e econô­mica bra­si­leira, a luta ar­mada e a re­sis­tência à di­ta­dura, as lutas da es­querda bra­si­leira no con­texto da de­mo­cracia li­beral e a as­censão da China como po­tência global, as­sunto no qual acabou re­co­nhe­cido como um dos in­tér­pretes pi­o­neiros no país.

Sua de­di­cação às causas justas, entre elas a cons­trução de uma co­mu­ni­cação a seu ser­viço, será guar­dada no co­ração de todos aqueles que fi­zeram o Cor­reio da Ci­da­dania chegar até aqui.

En­vi­amos à fa­mília nossas sau­da­ções e gra­tidão por tudo.

A Re­dação

Abaixo, fi­quem com a ho­me­nagem es­crita pelo seu filho Valter, mo­mentos de­pois de sua pas­sagem.

9 de junho de 2023, 2h02 da manhã.

Wla­dimir Pomar com­ple­taria 87 anos no dia 14 de julho de 2023.

Havia planos de fes­tejar a oca­sião, cha­mando amigos, ca­ma­radas e a “grande fa­mília”: 4 bis­netos e 3 bis­netas, 7 netos e 4 netas, 3 fi­lhos e sua es­posa Ra­chel.

As com­pli­ca­ções re­sul­tantes de uma dis­plasia im­pe­diram isso e o fi­zeram ter um fim de vida ter­ri­vel­mente so­frido, to­tal­mente di­fe­rente do que ele às vezes disse querer ter e par­ti­cu­lar­mente in­justo para com um ca­ma­rada tão gentil, para citar um termo de Es­pi­nosa, não o fi­ló­sofo, mas aquele mi­li­tante bem alto, tantas vezes visto ao lado de Lula, es­pe­ci­al­mente a partir da cam­panha pre­si­den­cial de 1989, que Wla­dimir ajudou a co­or­denar.

Wla­dimir Ven­tura Torres Pomar nasceu em Belém do Pará, no ano de 1936, filho de Ca­ta­rina Torres e Pedro Pomar, mi­li­tante co­mu­nista então per­se­guido pela di­ta­dura Vargas.
Em 1949, aos 13 anos, Wla­dimir também se tornou mi­li­tante do Par­tido Co­mu­nista. Nos anos 1950, atuou no mo­vi­mento es­tu­dantil e no mo­vi­mento sin­dical me­ta­lúr­gico. Em 1962, par­ti­cipou do grupo que “re­or­ga­nizou” o Par­tido Co­mu­nista do Brasil.

Preso em 1964, por re­sistir ao golpe mi­litar, Wla­dimir viveu na clan­des­ti­ni­dade até 1976, sendo no­va­mente preso no cha­mado Mas­sacre da Lapa, quando per­deram a vida Ân­gelo Ar­royo, João Ba­tista Franco Drum­mond e seu pai, Pedro Pomar.

Wla­dimir saiu da ca­deia em 1979, pouco antes da Anistia. Algum tempo de­pois, in­gressou no Par­tido dos Tra­ba­lha­dores, in­te­grando a partir de 1984 a sua exe­cu­tiva na­ci­onal, como se­cre­tário de for­mação po­lí­tica. Neste pe­ríodo, foi um dos co­or­de­na­dores do Ins­ti­tuto Ca­jamar, par­ti­cipou da co­or­de­nação da cam­panha de Lula a de­pu­tado fe­deral cons­ti­tuinte e, em 1989, foi co­or­de­nador-geral da cam­panha Lula pre­si­dente.

Em 1990, Wla­dimir en­cerrou seu man­dato no Di­re­tório Na­ci­onal do PT e, desde então, não voltou a ocupar ne­nhum cargo na es­tru­tura par­ti­dária. Tam­pouco foi par­la­mentar, nem fez parte de ne­nhum go­verno pe­tista, com ex­ceção de uma me­teó­rica pas­sagem como as­sessor na pre­fei­tura de Angra dos Reis (RJ).

En­tre­tanto, mesmo sem cargos for­mais, Wla­dimir con­ti­nuou co­la­bo­rando de forma mi­li­tante com o PT, por exemplo na Fun­dação Perseu Abramo e em ati­vi­dades de for­mação, além de as­sumir al­gumas ta­refas de in­te­li­gência na cam­panha pre­si­den­cial de 1994.

Ex­ceto pelo curto pe­ríodo em que foi pro­fis­si­o­na­li­zado pelo Par­tido, Wla­dimir ga­nhou a vida tra­ba­lhando nas mais di­versas ati­vi­dades, como por exemplo a agro­pe­cuária, o ar­te­sa­nato, a ma­nu­tenção de má­quinas pe­sadas e lo­co­mo­tivas, como li­no­ti­pista, re­pórter, re­dator, di­retor edi­to­rial, tra­dutor, con­sultor e pro­fessor. Nou­tras pa­la­vras, Wla­dimir era um “re­vo­lu­ci­o­nário pro­fis­si­onal”, não um po­lí­tico pro­fis­si­onal.

Vale dizer, também, que Wla­dimir não teve for­mação aca­dê­mica; muitas vezes disse que seu di­ploma uni­ver­si­tário “fora ob­tido na ca­deia”. Brin­ca­deiras à parte, é pro­vável que a au­sência de vida aca­dê­mica tenha con­tri­buído para manter grande parte de sua obra numa es­pécie de se­mi­clan­des­ti­ni­dade, isso apesar de ter sido – entre ou­tras coisas – um dos pri­meiros bra­si­leiros a de­ci­frar cor­re­ta­mente o “enigma chinês”.

Entre as obras de Wla­dimir, uma ver­tente abordou a di­a­lé­tica mar­xista (A di­a­lé­tica da his­tória, em quatro vo­lumes). Outra ver­tente abordou temas da his­tória do Brasil e da es­querda bra­si­leira. É o caso de Ara­guaia, o par­tido e a guer­rilha e de Pedro Pomar: uma vida em ver­melho; Quase lá, Lula e o susto das elites; Um mundo a ga­nhar; Brasil, crise in­ter­na­ci­onal e pro­jeto de so­ci­e­dade; O Brasil em 1990 e Era Vargas: a mo­der­ni­zação con­ser­va­dora; Cartas do Pas­sado; é o caso, também, da au­to­bi­o­grafia in­ti­tu­lada O nome da vida.

A ter­ceira ver­tente de­dicou-se ao de­bate sobre o so­ci­a­lismo. Wla­dimir Pomar es­creveu di­versos es­tudos e li­vros sobre a China, entre os quais O enigma chinês: ca­pi­ta­lismo ou so­ci­a­lismo; China, o dragão do sé­culo XXI; A re­vo­lução chi­nesa (Unesp); China: des­fa­zendo mitos. Es­creveu, ainda, uma tri­logia sobre a te­oria e a prá­tica das ten­ta­tivas de cons­trução do so­ci­a­lismo, ao longo do sé­culo 20: Ras­gando a cor­tina, Mi­ragem do mer­cado e A ilusão dos ino­centes.

Wla­dimir es­creveu muito e parte segue iné­dita, a co­meçar por uma carta es­crita em 2005, na qual Wla­dimir fez alertas e crí­ticas duras contra a con­duta de certos di­ri­gentes e fi­li­ados.

Ateu, mar­xista, co­mu­nista e pe­tista, Wla­dimir Pomar foi re­cen­te­mente con­vi­dado por seu amigo Be­luce Bel­lucci a es­crever uma apre­sen­tação à bi­o­grafia de Apolônio de Car­valho, recém-pu­bli­cada na França.

En­tregue em março de 2023, este foi o úl­timo texto pu­bli­cado de Wla­dimir. Lá está dito o se­guinte: “Eu tinha uns 10 anos de idade quando co­nheci Apolônio, logo de­pois do final da se­gunda guerra mun­dial nos anos 1940. Ele re­tor­nara da França e foi re­cep­ci­o­nado pela di­reção e por muitos mi­li­tantes do então Par­tido Co­mu­nista do Brasil, (PCB), do qual meus pais fa­ziam parte. Na oca­sião, mais do que a áurea de herói da guerra de re­sis­tência contra as tropas na­zistas que ocu­pavam a França, me im­pres­si­onou a de­li­ca­deza com que tra­tava a todos, in­cluindo as cri­anças que, como eu, ha­viam sido le­vadas para co­nhecê-lo”.

“Pos­te­ri­or­mente, en­quanto o PCB teve vida legal, meu pai e Apolônio tra­ba­lharam em sua sede cen­tral, perto da Lapa, no Dis­trito Fe­deral do Rio de Ja­neiro. E eu me tornei um vi­si­tante cons­tante do local, a pre­texto de ver meu pai, mas prin­ci­pal­mente para ouvir os re­latos de Apolônio sobre a guerra e a re­sis­tência guer­ri­lheira contra as tropas na­zistas. Prá­tica que foi in­ter­rom­pida quando o Par­tido Co­mu­nista do Brasil teve sua vida legal proi­bida e seus mem­bros ti­veram que passar a re­a­lizar suas ati­vi­dades da mesma forma clan­des­tina que uti­li­zaram du­rante a di­ta­dura Vargas”.

“Nessas con­di­ções, só re­tomei os con­tatos com Apolônio al­guns anos de­pois. Na oca­sião, eu já cur­sava o gi­násio e havia in­gres­sado na União da Ju­ven­tude Co­mu­nista – UJC, também clan­des­tina, e já en­volta em di­ver­gên­cias sobre as po­lí­ticas que os co­mu­nistas de­ve­riam adotar para mo­di­ficar o sis­tema po­lí­tico e re­cu­perar a vida de­mo­crá­tica. Na oca­sião, Apolônio era um dos di­ri­gentes do PCB que davam ‘as­sis­tência’ à UJC e, em vir­tude da­quelas di­ver­gên­cias, achou ne­ces­sário con­versar co­migo a res­peito”.

“Man­ti­vemos con­tatos cons­tantes du­rante cerca de um ano. Em­bora nossas di­ver­gên­cias teó­ricas e prá­ticas te­nham se mos­trado va­ri­adas e, em al­guns casos, pro­fundas, Apolônio ja­mais tentou se impor como ‘di­ri­gente su­pe­rior’. Tra­tava as di­ver­gên­cias como algo na­tural do tra­balho po­lí­tico prá­tico, e in­te­res­sava-se prin­ci­pal­mente pelos re­sul­tados das ações prá­ticas ado­tadas para am­pliar a in­fluência po­lí­tica entre a ju­ven­tude”.

“Em vá­rios casos, ti­vemos con­cor­dân­cias que só se tor­naram evi­dentes anos de­pois, quando o PCB se dis­solveu em vá­rias cor­rentes po­lí­ticas, após o golpe mi­litar fas­cista de 1964. Nas novas con­di­ções cri­adas pela di­ta­dura mi­litar, só voltei a re­en­con­trar Apolônio no final dos anos 1980, quando a di­ta­dura se viu obri­gada a re­a­lizar uma re­ti­rada es­tra­té­gica e os co­mu­nistas pu­deram voltar à vida ‘normal’, em­bora dis­se­mi­nados, então, em vá­rios par­tidos e or­ga­ni­za­ções po­lí­ticas. E em que muitos de nós, in­cluindo ele e eu, ado­taram o PT como prin­cipal centro de ati­vi­dade po­lí­tica”.

“A partir de então, tive a opor­tu­ni­dade de vê-lo no­va­mente em di­fe­rentes oca­siões. Guardo na lem­brança sua pre­sença so­li­dária no tras­lado dos restos mor­tais de meu pai, as­sas­si­nado por agentes da di­ta­dura. E sempre me lembro de haver con­vi­vido com ele em inú­meras ati­vi­dades pe­tistas. Isso, em­bora con­cor­dás­semos que, àquela al­tura da vida, nossas idades já não per­mi­tiam en­ga­ja­mentos como os vi­vidos no pas­sado. E que de­ve­ríamos, prin­ci­pal­mente, en­con­trar ca­mi­nhos que con­tri­buíssem para que os novos com­ba­tentes com­pre­en­dessem as li­ções do pas­sado”.

“Ainda man­ti­vemos con­tatos es­parsos, ele no Rio de Ja­neiro e eu em São Paulo. E o que mais me im­pres­si­o­nava é que ele con­ti­nuava man­tendo o mesmo es­pí­rito de mo­déstia e de luta, es­pí­rito que é des­ta­cado na obra do francês Alain Vi­guier”.

As pa­la­vras com que Wla­dimir Pomar re­sumiu Apolônio de Car­valho sin­te­tizam, também, a ati­tude do pró­prio Wla­dimir e de tantos ou­tros he­róis mais ou menos anô­nimos do povo bra­si­leiro: mo­déstia e luta.

Há mais de qua­renta anos, no dia 11 de abril de 1980, por oca­sião do trans­lado dos restos mor­tais de seu pai, Wla­dimir disse o se­guinte: “Há, fi­nal­mente, quem diga que Pomar deixou uma he­rança. É ver­dade. Ele nos deixou o exemplo de sua vida, um le­gado de mo­déstia, de re­tidão de ca­ráter, de de­di­cação à classe ope­rária, ao povo e a seu par­tido, de amor en­tra­nhado à ver­dade, de aversão à vai­dade e de cons­tante alerta e com­bate aos pró­prios erros. Há quem queira ser dono desse le­gado. Essa pre­tensão é uma afronta a meu pai, que sempre se bateu contra o ex­clu­si­vismo e o es­pí­rito de seita. A he­rança de Pomar, uma he­rança digna dos me­lhores re­vo­lu­ci­o­ná­rios, não é pa­trimônio da fa­mília ou de qual­quer grupo. Ela per­tence a todo o seu par­tido, per­tence a todos os re­vo­lu­ci­o­ná­rios, à classe ope­rária e ao povo ex­plo­rado e opri­mido. Eu a en­trego a vós”.

Wla­dimir Pomar pre­sente, agora e sempre!

Acesse aqui todo o acervo de co­lunas de Wla­dimir Pomar no Cor­reio da Ci­da­dania.

Valter Pomar é filho de Wla­dimir Pomar e mi­li­tante do PT. Doutor em His­tória Econô­mica, Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP) e pro­fessor de eco­nomia po­lí­tica in­ter­na­ci­onal na UFABC.

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