Em tempos de redes sociais, muitos prefeitos parecem ter esquecido que governar é servir — não se autopromover. O que se vê hoje é uma avalanche de perfis pessoais recheados de vídeos, fotos e frases de efeito, como se a gestão pública fosse uma extensão do ego do gestor. A obra pública vira “minha conquista”, o programa social vira “meu projeto”, e o eleitor é tratado como seguidor — não como cidadão.
A recente decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) veio como um freio necessário: prefeitos não podem usar redes sociais pessoais para divulgar ações da administração com fins promocionais. Isso fere a Constituição, viola os princípios da impessoalidade e moralidade, e pode configurar improbidade administrativa.
O caso que motivou o alerta foi o do ex-prefeito João Doria, acusado de promover o programa “Asfalto Novo” em suas redes pessoais, com imagens pagas com dinheiro público. O STJ entendeu que houve uso da máquina pública para autopromoção — e isso não é só antiético, é ilegal.
Mais grave ainda é quando servidores públicos são mobilizados para alimentar esse conteúdo, ou quando agências contratadas com verba institucional produzem vídeos e posts para perfis pessoais. A fronteira entre o público e o privado desaparece, e o que sobra é um gestor que confunde o indivíduo com o cargo, a persona com o homo publicus.
O recado do STJ é cristalino: rede social pessoal não é gabinete, não é diário oficial, e muito menos palanque eleitoral. Comunicação pública deve informar, orientar e educar — nunca exaltar o gestor como se fosse um salvador da pátria.
É hora de lembrar que o cargo é transitório, mas o respeito à democracia é permanente. E que o eleitor não é plateia de espetáculo político — é protagonista da cidadania.


