Em um cenário político cronicamente polarizado, o papel da imprensa como pilar da democracia é submetido a um escrutínio implacável. A recente experiência brasileira sob o governo de Jair Bolsonaro expôs, de forma dramática, as contradições que habitam as redações dos grandes conglomerados de mídia. Atacados e humilhados publicamente pelo poder palaciano, jornalistas e veículos de comunicação sofreram uma ofensiva sistemática. Contudo, a percepção de que essa mesma imprensa, por vezes, atua de maneira a favorecer agendas antidemocráticas e negacionistas levanta um questionamento fundamental: a quem, ou a que, serve a grande mídia no Brasil?
A resposta a essa indagação é complexa e multifacetada, mas um de seus eixos centrais reside na estrutura de financiamento e propriedade dos meios de comunicação. A forte dependência do capital privado e dos interesses de anunciantes cria um campo de tensão permanente entre o dever jornalístico de informar e a necessidade de garantir a sustentabilidade financeira. Essa dinâmica, embora não seja nova, tornou-se mais evidente diante de um governo que, ao mesmo tempo que atacava a liberdade de imprensa, promovia uma agenda econômica ultraliberal, alinhada aos interesses de parte significativa do mercado que financia esses veículos.
A imprensa é atacada porque ela faz parte justamente da infraestrutura da democracia. Portanto, quem está sob ataque não é apenas um jornal ou uma profissional: o que está sob ataque é a democracia.
— Jamil Chade, em audiência no Senado Federal [2]
Os ataques do governo Bolsonaro à imprensa não foram sutis. Pelo contrário, foram diretos, vulgares e constantes. Expressões como “vontade de encher tua boca com porrada” [1], dirigidas a um repórter que questionava o presidente sobre depósitos suspeitos na conta da primeira-dama, tornaram-se emblemáticas. A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e a organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) documentaram centenas de ataques, revelando um aumento drástico da violência e da hostilidade contra os profissionais da comunicação [2]. O Brasil despencou em rankings globais de liberdade de imprensa, e a profissão tornou-se uma atividade de alto risco.
| Ano | Posição do Brasil no Ranking da RSF | Variação em relação ao ano anterior |
| 2018 | 102º | N/A |
| 2019 | 105º | 🔻 3 posições |
| 2020 | 107º | 🔻 2 posições |
| 2021 | 111º | 🔻 4 posições |
| 2022 | 110º | ▲ 1 posição |
Fonte: Dados compilados de relatórios da Repórteres sem Fronteiras (RSF).
Essa hostilidade, no entanto, revela uma contradição profunda. Enquanto o jornalismo institucional era alvo, a agenda econômica do governo encontrava, muitas vezes, um eco favorável ou uma crítica branda nos editoriais e na cobertura econômica. A defesa da democracia, para alguns veículos, parecia se limitar à denúncia dos ataques diretos às instituições, mas não se estendia a uma crítica igualmente contundente ao desmonte de políticas sociais, aos ataques a direitos de minorias ou ao negacionismo científico — pautas que, embora antidemocráticas em sua essência, não colidiam diretamente com os interesses do grande capital.
O fenômeno da concentração midiática agrava esse quadro. No Brasil, poucos grupos familiares controlam a maior parte da audiência e da produção de conteúdo informativo. Esse oligopólio, por si só, já representa um entrave à pluralidade de vozes e perspectivas, essenciais a um debate público saudável. Quando a linha editorial desses poucos grupos converge com os interesses de uma elite econômica e política, o resultado é uma cobertura que, mesmo sob a aparência de objetividade, tende a reforçar o status quo e a marginalizar narrativas dissonantes.
A cobertura seletiva, a ênfase em determinadas pautas em detrimento de outras e a escolha de quais vozes serão amplificadas são ferramentas editoriais poderosas que moldam a percepção da realidade. A crítica legítima a um governo autoritário pode, paradoxalmente, coexistir com a promoção de uma ideologia econômica que, em última análise, mina as bases da coesão social e fortalece os mesmos setores que dão sustentação a projetos políticos antidemocráticos.
O desafio que se impõe à sociedade brasileira é o de fomentar e fortalecer um ecossistema de mídia verdadeiramente independente e plural. Isso passa pelo apoio ao jornalismo alternativo, pela discussão de novos modelos de financiamento — incluindo o financiamento público transparente e desvinculado de interesses governamentais — e, acima de tudo, por uma cobrança constante por parte do público por uma imprensa que honre seu compromisso não com seus anunciantes ou com uma agenda ideológica particular, mas com a verdade factual e com os princípios inegociáveis da democracia. A memória da “chibata palaciana” deveria servir não como um trauma paralisante, mas como um lembrete perpétuo de que, quando a imprensa se afasta de seu papel de cão de guarda da sociedade, a porta para o autoritarismo se abre.
Referências
[1] 9 ataques de Bolsonaro a jornalistas — e quais os temas que levaram presidente a perder a linha – BBC News Brasil [2] Jornalistas denunciam aumento de ataques à imprensa durante governo Bolsonaro — Senado Notícias


