Graças ao alívio nos preços dos alimentos, a prévia da inflação oficial, medida pelo IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15), encerrou 2025 com alta acumulada de 4,41%, segundo informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na terça-feira (23). O resultado representa um marco político e econômico: é a primeira vez na gestão Lula 3 que o índice fecha o ano dentro do intervalo de tolerância da meta estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), que é de 3% (centro), podendo oscilar entre 1,5% (piso) e 4,5% (teto).
O IPCA cheio será divulgado no início de janeiro de 2026. Só aí saberemos se a inflação ficou mesmo dentro do intervalo da meta. Mas a prévia sinaliza tendência nesse sentido.
Em novembro, o IPCA em 12 meses já tinha ficado nos limites dentro da nova regra da meta contínua (revisão mensal da meta, não apenas no mês de dezembro, como era feito anteriormente). Na variação anual, o IPCA-15 estourou o teto de 2021 a 2024.
Embora o Banco Central tenha mantido a taxa básica de juros, a Selic, em patamares restritivos (15% ao ano) para esfriar a economia, a análise técnica mostra que o resultado do indicador deveu-se, primordialmente, ao comportamento dos preços dos alimentos, que respondem por 18% da cesta de consumo que compõe o cálculo do IPCA.
O grupo Alimentação e Bebidas subiu 3,57% no ano, mas a “alimentação no domicílio” — os itens comprados em supermercados — teve alta de apenas 1,94%, o segundo melhor desempenho desde 2017.
Sem essa trégua no campo, o IPCA dificilmente ficaria dentro do limite, na avaliação de analistas. Isso porque a inflação de serviços, que é mais sensível ao nível de emprego e demanda interna, continua resiliente, refletindo uma economia ainda aquecida apesar do custo do crédito.
Por outro lado, o câmbio em baixa e as projeções de boa safra de alimentos reforçam que o IPCA cheio deve fechar abaixo do teto da meta perseguida pelo Banco Central, embora o presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, tenha reforçado sempre que o centro da meta — e não o teto de 4,5% — é o objetivo da autoridade monetária.
Fator sorte e trabalho da equipe econômica
De acordo com especialistas, o cenário de 2025 foi beneficiado por uma combinação de “sorte e gestão”:
- Clima: O regime de chuvas em 2025 foi favorável, permitindo safras abundantes.
- Câmbio: A queda do dólar barateou insumos agrícolas cotados na moeda americana, como soja e milho.
- Geopolítica: O protecionismo de Donald Trump nos EUA e barreiras sanitárias à carne brasileira acabaram represando produtos no mercado interno, aumentando a oferta e baixando os preços para o consumidor nacional.
O que esperar de 2026?
Enquanto o governo Lula comemora os bons números da economia em 2025, o mercado financeiro projeta um 2026 mais desafiador. Mas é importante lembrar que as projeções dos analistas são, em sua maioria, mais pessimistas. E, olhando pelo retrovisor, quase sempre erram feio.
Mas, sim, há fatores que podem pesar. Economistas alertam que o fenômeno La Niña pode prejudicar a produção agrícola no próximo ano. Além disso, a valorização do dólar em anos eleitorais e o aumento dos gastos públicos podem reacender as pressões inflacionárias.
Para o governo, manter o preço da comida sob controle é a principal estratégia de popularidade. Historicamente, a percepção do custo de vida nos supermercados é o fator que mais influencia a aprovação presidencial e o desempenho das urnas, como visto nas últimas eleições gerais.
Como funciona o IPCA
O IPCA é o indicador oficial da inflação no Brasil, calculado pelo IBGE. O índice mede a variação dos preços de 377 produtos e serviços consumidos por famílias com renda entre um e 40 salários mínimos.
Além disso, o índice abrange a evolução de preços em nove grandes grupos, que variam em itens das áreas de alimentação e bebidas, artigos residenciais, comunicação, despesas pessoais, educação, habitação, saúde e cuidados pessoais, transportes e vestuário.
O indicador serve como referência para a política econômica e para o controle da inflação pelo Banco Central. Ou seja, o IPCA tem papel central na economia, influenciando decisões do governo, mercado financeiro, investidores e consumidores.
Além de definir metas de inflação, o IPCA serve, por exemplo, para corrigir contratos e investimentos; reajustar salários, aluguéis e aposentadorias.
Por sua vez, o IPCA-15 é uma prévia do IPCA e tem a mesma metodologia de cálculo.
A principal diferença é o período de apuração: enquanto o IPCA mede a inflação do mês fechado, o IPCA-15 considera os preços coletados entre a metade do mês anterior e a metade do mês atual.
Fonte: ICL Notícias


