[ARTIGO] Em El Salvador se aprofunda o autoritarismo

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Elaine Tavares 18/08/2025

Em El Salvador se aprofunda o autoritarismo
Cár­ceres em El Sal­vador – Foto: The New York Times

El Sal­vador, país da Amé­rica Cen­tral que vem sendo ci­tado por vá­rios pre­si­dentes la­tino-ame­ri­canos como um mo­delo no que­sito se­gu­rança, vai mos­trando que a paz por lá é mesmo a de ce­mi­tério. Tudo pa­rece estar bem porque a mão que go­verna é dura. Nayib Bu­kele, que está no seu se­gundo man­dato, de­cidiu en­car­cerar um grande nú­mero de pes­soas na missão de acabar com a ação das “maras”, grupos de de­lin­quentes que as­so­lavam o país.

Du­rante seu pri­meiro man­dato cons­truiu pri­sões e jogou na ca­deia mi­lhares de pes­soas su­pos­ta­mente li­gadas ao crime. A po­pu­lação re­agiu agra­de­cida, pois era bas­tante di­fícil viver com a ação dos bandos cri­mi­nosos. Mas, com o passar do tempo foram pi­po­cando de­nún­cias de que não apenas os jo­vens li­gados às maras esta¬vam indo parar na prisão. De­sa­fetos, jor­na­listas, de­fen­sores dos di­reitos hu­manos e opo­si­tores também co­me­çaram a ser presos de ma­neira au­to­ri­tária. Não bas­tasse isso, o go­verno ainda ofe­receu seus cár­ceres para re­ceber pri­si­o­neiros es­ta­du­ni­denses, vi­rando assim um ne­go­ci­ante de pes­soas.

Mi­grantes ve­ne­zu­e­lanos en­vi­ados para El Sal­vador desde os Es­tados Unidos, ao serem li­ber­tados pelo go­verno da Ve­ne­zuela, em ne­go­ci­ação di­reta com os EUA, de­nun­ci­aram as hor­rí­veis tor­turas que vi­veram en­quanto es­ti­veram nos cár­ceres sal­va­do­re­nhos. Ainda assim, o mundo faz vista grossa e se­guem che­gando levas de gente que são presas nos Es­tados Unidos pelo sim­ples fato de serem mi­grantes. Bu­kele se faz cúm­plice, então, da re­pug­nante cam­panha de Do­nald Trump contra os mi­grantes la­tinos, de­por­tados aos mi­lhares.

Agora, no úl­timo dia do mês de julho, con­se­guiu aprovar na As­sem­bleia Na­ci­onal, que é com­ple­ta­mente do­mi­nada por seus apoi­a­dores, uma mu­dança cons­ti­tu­ci­onal que ga­rante re­e­leição in­de­fi­nida, au­menta para seis anos o man­dato pre­si­den­cial e sim­ples­mente acaba com o se­gundo turno nas elei­ções. Se­gundo ele, é uma mo­der­ni­zação ne­ces­sária no sis­tema po­lí­tico. Até aí seria o jogo de­mo­crá­tico não fosse o fato de que a re­forma cons­ti­tu­ci­onal aprovou e ra­ti­ficou as mu­danças em um único dia, sem que o tema pas­sasse por qual­quer dis­cussão in­terna ou pú­blica.

En­ti­dades li­gadas aos di­reitos hu­manos tem feito a de­núncia sobre o rumo au­to­ri­tário que o go­verno tomou e que vem se apro­fun­dando já que a mo­di­fi­cação das re­gras pa­rece só be­ne­fi­ciar ao pró­prio pre­si­dente. A Corte In­te­ra­me­ri­cana de Di­reitos Hu­manos cri­tica a re­e­leição in­de­fi­nida ale­gando que viola o prin­cípio da al­ter­nância de poder.

Na ver­dade, esse é o menor dos pro­blemas, afinal, um go­ver­nante pode ter a apro­vação po­pular por longos anos. Já vimos isso acon­tecer em países como França e Ale­manha. O que torna a coisa au­to­ri­tária é a forma como o pro­cesso de mu­dança acon­teceu, sem qual­quer dis­cussão pú­blica. Opo­si­tores de Bu­kele afirmam que seu de­sejo de per­ma­necer no poder tem a ver com os acordos es­pú­rios que tem feito, evi­tando assim fu­turas in­ves­ti­ga­ções.

O par­tido de Bu­kele, Nu­evas Ideas, que tem o apoio do PCN e PDC, deu como jus­ti­fi­ca­tiva para aprovar o fim do se­gundo turno o fato de que o pro­cesso em dois turnos é muito caro. Mas, para a opo­sição, o mo­tivo é outro. A in­tenção é ga­rantir que se re­baixe ainda mais o nú­mero de votos ne­ces­sá­rios para eleger al­guém. A pro­posta apro­vada reduz o pe­ríodo pre­si­den­cial ini­ciado em 2024, que iria até 2029.

Será feita uma nova eleição, an­te­ci­pada, em pri­meiro de junho de 2027 – na me­tade do se­gundo man­dato – para uni­ficar com as de­mais elei­ções ge­rais, de as­sem­bleístas na­ci­o­nais e con­se­lheiros mu­ni­ci­pais. Como já es­tará va­lendo o turno único, quem fizer o maior nú­mero de votos, leva.

O fato é que o au­to­ri­ta­rismo de Bu­kele só cresce, desde a to­mada da As­sem­bleia co­man­dada por ele e o Exér­cito em 2020. Na­quele então foi fe­chada a Sala Cons­ti­tu­ci­onal e de­posto o fiscal geral da Re­pú­blica. O ro­teiro per­feito do ma­nual do di­tador. Mas, para a opi­nião pú­blica o dis­curso pas­sado é outro.

O jornal El Faro, de El Sal­vador, mostra como se dá esse “con­senso na­ci­onal” com a avas­sa­la­dora pre­sença do pre­si­dente nos meios de co­mu­ni­cação, sempre com men­sa­gens po­si­tivas por parte da im­prensa. Uma jor­na­lista acom­pa­nhou as no­tí­cias na te­le­visão du­rante cinco dias e o que viu foi um país em trans­for­mação: ruas as­fal­tadas, es­colas re­mo­de­ladas, ban­didos cap­tu­rados e ci­da­dãos agra­de­cidos. No centro de tudo, Bu­kele. “En­con­tramos 782 re­fe­rên­cias a ele. Numa só edição no­turna ele foi men­ci­o­nado 168 vezes du­rante uma trans­missão de duas horas. Isso equi­vale a uma menção de Bu­kele a cada 43 se­gundos”.

Nesse ce­nário, fica bem di­fícil para a opo­sição en­frentar o go­verno nas elei­ções de 2027.

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