Virgílio Arraes 18/08/2025
No começo do século 20, o presidente Ted Roosevelt, republicano, disseminou máxima de origem estrangeira, ao aplicá-la à política interna (Nova York) e depois à externa: falar suave e carregar um porrete (big stick).
Seria a base do Corolário Roosevelt, uma atualização da Doutrina Monroe, de dezembro de 1823. Em função dele, ocorreria o patrocínio diplomático da secessão do Panamá da Colômbia, com vistas à construção de canal, a ser administrado por norte-americanos entre 1914 e 1979, ao assegurar a ligação entre o Atlântico e o Pacífico – desejo do comércio internacional desde o século 16.
Como resposta à incisiva atuação da Alemanha junto à Venezuela, ao puni-la por não pagar seus empréstimos, o dirigente estadunidense em sua mensagem anual ao Congresso de 1906 anunciaria o direito de agir em ocasional imbroglio entre nações americanas e europeias, caso considerasse indevida a postura, e em desrespeito a direitos, na prática, interesses do país – https://www.presidency.ucsb.edu/documents/sixth-annual-message-4
Nos derradeiros momentos do primeiro mandato, Roosevelt observaria Japão e Rússia iniciar uma disputa pela primazia de parte da China, a Manchúria, e da Coreia. Preocupado com o equilíbrio de poder regional, ele ofertaria mediação, em decorrência dos objetivos da Casa Branca sobre as Filipinas. Reticentes de início, os dois beligerantes aceitariam em negociar sob os auspícios de terceiro, ao sentar-se em Portsmouth.
Ao fim e ao cabo, Moscou recuperaria parte das ilhas Sacalinas, ao passo que Tóquio obteria o reconhecimento de sua preponderância sobre a Coreia, país ao qual nenhum dos três interlocutores consultou sobre o futuro destino de intervenção. Por derradeiro, Pequim reaveria parcela da Manchúria. O acordo valeria a Roosevelt o Prêmio Nobel da Paz em 1906.
Nos últimos dias, veiculou-se nos meios de comunicação o suposto desejo de Donald Trump de ser galardoado com a mesma distinção de seu remoto antecessor por dedicar-se ao encerramento da guerra entre Rússia e Ucrânia – caso fosse concretizada a indevida aspiração, o mundo assistiria de queixo caído ao segundo dirigente republicano a obtê-la contra três democratas distinguidos – Woodrow Wilson em 1919, Jimmy Carter em 2002, o único fora da Casa Branca, e Barack Obama em 2009.
Parece incerto o controvertido governante recebê-lo, uma vez que o desfecho no curto prazo para o conflito reveste-se de impossibilidade, uma vez que nenhum dos dois contendores se dispõe a recuar de suas posições. Assim, não há perspectiva à vista para uma solução pacífica, ainda que temporária, e, saliente-se, justa para o lado agredido, o ucraniano.
O tratamento dispensado ao Brasil recordaria o distante posicionamento de Roosevelt, ao tratar da região de acordo com a vontade de Washington, não com os das populações afetadas. No entanto, não há consenso entre os historiadores sobre qual ou quais presidentes seriam a fonte de inspiração do atual.
É provável ser uma mescla, dado que a depender da situação política ou econômica aponta-se um ou outro. Na elaboração de barreiras alfandegárias severas, indica-se William Mckinley (1897-1901); na disputa de novo depois de perder uma eleição presidencial, Grover Cleveland (1893-1897) e Richard Nixon (1969-1974); nas negociações cortantes com governos relativas a fronteiras, James Polk (1845-1849) e, por último, na contenção do inimigo figadal – ou melhor, na sua supressão – Ronald Reagan (1981-1989).
Diante da petulância de Trump, é crível ele considerar-se como a baliza para os sucessores, não um inspirado nos predecessores.
FONTE: CORREIO DA CIDADANIA


