Às vésperas da COP30, CNDH recomenda ao governo decreto de calamidade indígena

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Por Daniel Camargos – Repórter Brasil 

O CNDH (Conselho Nacional dos Direitos Humanos) pediu que o governo Lula (PT) decrete estado de calamidade pública diante da escalada de violência contra povos indígenas. A recomendação, aprovada na sexta-feira (7), é mais uma pressão sobre o Brasil, anfitrião da COP30, a Cúpula do Clima da ONU, iniciada nesta segunda-feira (10).

“Há uma negligência do Estado brasileiro com povos indígenas, mesmo sendo sede da COP”, afirmou Lara Estevão, conselheira do CNDH e advogada popular da CPT (Comissão Pastoral da Terra).

No pedido, o conselho descreve um quadro de agravamento da violência, com assassinatos, ameaças, despejos e invasões de territórios indígenas, além de falhas persistentes nos serviços de saúde e educação. As conclusões se baseiam em missões de campo e audiências públicas realizadas desde 2024.

Relatórios citados pelo CNDH apontam também impactos de iniciativas climáticas mal planejadas. Em missão à Terra Indígena Enawenê Nawê, no Mato Grosso, o conselho identificou violações em projetos de créditos de carbono implantados sem consulta prévia, com risco de restringir o uso do território e afetar modos de vida. O CNDH afirma que políticas climáticas não podem violar direitos territoriais.

Segundo Lara, a recomendação seria feita, mesmo se não houvesse a conferência das Nações Unidas, mas o conselho escolheu divulgar o documento antes do início da COP30, avaliando que o evento daria mais visibilidade política e internacional às denúncias.

O CNDH é um órgão federal autônomo que monitora e propõe ações de defesa dos direitos humanos no país. É formado por 18 representantes do governo e da sociedade civil e pode emitir recomendações, acompanhar casos de violações e propor medidas ao poder público. Criado em 2014, funciona de forma independente, embora seja vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos.

O documento afirma ainda que há violações sistemáticas de direitos e omissão do Estado na proteção de comunidades e lideranças ameaçadas. Também dirige pedidos específicos ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso Nacional. O prazo para as respostas é de um mês.

Violência contra indígenas aumentou após aprovação do ‘marco temporal’, diz conselho

Entre os pedidos estão a suspensão dos efeitos da Lei 14.701/2023, que instituiu o marco temporal, e a rejeição de qualquer tentativa de incluir a tese na Constituição. O conselho também recomenda barrar iniciativas que regulamentem mineração em terras indígenas sem salvaguardas e reforçar o direito à consulta prévia, livre e informada, previsto na Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

“A lei do marco temporal vem sendo utilizada como um muro para não avançar”, disse Lara. Para o conselho, a soma de omissões administrativas, decisões judiciais controversas e ações policiais sem controle ampliou o risco às comunidades, o que justifica o reconhecimento da calamidade e o uso de medidas emergenciais.

A tese do marco temporal restringe o direito à demarcação de terras indígenas somente para os povos que ocupavam o território — ou o disputavam na Justiça — em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.

Em setembro de 2023, o STF considerou a tese inconstitucional ao julgar o caso do povo Xokleng, de Santa Catarina. Mesmo assim, o Congresso aprovou a Lei 14.701, reintroduzindo o marco temporal.

Em 2024, o ministro Gilmar Mendes criou uma câmara de conciliação sobre a norma. A Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) se retirou do processo, alegando que os direitos indígenas são inegociáveis.

Às vésperas da COP30, CNDH recomenda ao governo decreto de calamidade indígena
Protesto pela demarcação de terras indígenas e contra avanço de pautas antiambientais no Congresso durante o Acampamento Terra Livre, em abril de 2022 (Foto: Mídia Ninja)

Os relatórios citados pelo CNDH apontam que a violência aumentou depois da aprovação do marco temporal. Segundo o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), 208 indígenas foram assassinados em 2023, o que representou um crescimento de 15,5% em relação ao ano anterior, quando houve 180 mortes. No mesmo período, os homicídios no país caíram 3,4%, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O CNDH também registrou 54 denúncias de violações neste ano, das quais 15 envolveram diretamente comunidades indígenas, e concluiu que a nova lei agravou os conflitos territoriais e estimulou ataques em diferentes regiões.

“Desde a aprovação do marco temporal, observamos um aumento exponencial de denúncias. É como se houvesse um aval para atacar”, disse Lara, que coordena a Comissão Permanente dos Direitos dos Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais da CNDH.

Às vésperas da COP30, CNDH recomenda ao governo decreto de calamidade indígena
Anciã recolhe cápsulas de balas e recipientes de bombas de gás que foram disparadas pela Polícia Militar contra os Guarani-Kaiowá em 16 de outubro (Foto: Lídia Farias/Cimi/Divulgação)

No Paraná, o CNDH registrou ameaças, perseguições e tentativas de homicídio contra o povo Avá-Guarani. Pouco depois de uma visita do conselho, um indígena foi encontrado decapitado.

No Mato Grosso do Sul, relatórios apontam ataques recorrentes a comunidades Guarani e Kaiowá, com despejos violentos e uso de força policial. O conselho relata a atuação conjunta de agentes públicos e grupos privados em ações de repressão às retomadas.

A Repórter Brasil mostrou que, em outubro, a tropa de choque da Polícia Militar escoltou tratores de fazendeiros e usou balas de borracha e gás lacrimogêneo contra indígenas da retomada de Guyraroká, em Caarapó (MS). O conflito levou o governo federal a enviar uma missão de emergência ao território, após relatos de desespero coletivo e ameaças de suicídio entre os Guarani e Kaiowá.

No sul da Bahia, a recomendação reúne informações da missão que acompanhou a Operação Pacificar nas Terras Indígenas Barra Velha do Monte Pascoal e Comexatibá, do povo Pataxó. O CNDH relata prisões em massa, intimidação de famílias e destruição de bens, e pede responsabilização das autoridades envolvidas. Para o conselho, há criminalização das retomadas e militarização dos conflitos fundiários.





Fonte: ICL Notícias

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