Entre 10 de março e 10 de abril, exposição individual de Marcelo Bressanin, também reúne criações que transformam percepção e memória em experiência sensorial
O artista sonoro bauruense Marcelo Bressanin comemora dez anos de trajetória com a exposição individual “Tantas coisas que não escutamos”, em cartaz na Galeria Municipal Angelina W. Messenberg do Centro Cultural Carlos Fernandes Paiva, em Bauru (SP), entre 10 de março e 10 de abril. A mostra, sob curadoria de Regilene Sarzi-Ribeiro, professora da Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação (FAAC), da Unesp, apresenta ao público obras inéditas na cidade e três trabalhos criados especialmente para a ocasião, oferecendo uma rara oportunidade de imersão nas experimentações contemporâneas deste campo artístico.
O projeto reúne obras que retratam o percurso criativo do artista, revelando diferentes fases de sua produção. “Na exposição, o público é convidado a percorrer um conjunto de obras que nasce de um exercício em arte e tecnologia e que vai além da dimensão dos dispositivos. As criações estabelecem um diálogo com a corporeidade, a percepção e, sobretudo, com a interação que a arte sonora promove, retirando o som da invisibilidade cotidiana e traduzindo-o em presença significativa, carregada de sentido e marcada pela experiência sensorial vivida pelos visitantes”, ressalta a curadora.
Entre as obras que marcaram diferentes momentos da produção de Bressanin está “Ciclos” (2022), álbum com quatro peças sonoras desenvolvidas durante a residência “Organicidades”, no Museu de Arte Osório Cesar, em Franco da Rocha (SP), disponibilizado tanto em estação de escuta quanto em transmissão radiofônica naquela cidade. Já entre os trabalhos inéditos, destaca-se “Ornitofonias” (2022), instalação criada a partir do registro de sons de aves típicas de Bauru, que interagem com sensores digitais e respondem à presença do público, estabelecendo um diálogo direto entre a paisagem sonora local e os visitantes.
A dimensão memorial também se faz presente na mostra por meio da série “Playlists”, que revisita mídias utilizadas ao longo de décadas para compartilhar seleções musicais — da fita K7 ao iPhone. Em registro ainda mais íntimo, a obra “Agora, silêncio” homenageia o falecido ex-companheiro, o arquiteto Fabrício Aro, ao emoldurar um cartão de memória com os áudios das últimas conversas entre ambos, transformando memória pessoal em experiência poética.
Outro trabalho inédito que integra a exposição, que tem como produtor executivo Aubre da Silva Idesti, mais conhecido como DJ Ding, é “Dispositivo sonoro de uso recorrente para isolamento social”, que tensiona o uso cotidiano dos fones de ouvido como barreira de contato. Essas obras, apresentadas pela primeira vez, reforçam o caráter experimental e memorial da mostra, que reúne tanto criações já reconhecidas quanto peças concebidas especialmente para marcar esta década de atuação artística.
Outras obras em destaque
A exposição traz ainda “Tantas coisas que não escutamos” (2018), instalação sonora que dá título à mostra e é composta por 65 alto-falantes e amplificadores de áudio. Criada a partir de sons coletados nas superfícies do espaço CheLA, antiga fábrica de amianto em Buenos Aires, a obra sugere a dispersão das partículas pelo ar e evoca a presença da indústria na memória da comunidade e da capital argentina.
Outro destaque é “Deluxe 5: dispositivo composicional randômico” (2021), instalação sonora criada a partir de um antigo aparelho de rádio e TV portátil, equipada com microprocessador arduíno e amplificador de áudio. Desenvolvida durante a residência artística “Em residência: Bauru”, em 2020, e exibida apenas de forma virtual devido à pandemia de covid-19, a obra sintoniza aleatoriamente emissoras de rádio da região, compondo uma colagem sonora em constante transformação que dialoga com a memória radiofônica local.
Apresentada também em Franco da Rocha, a instalação sonora “Alerta para o horizonte: vestível para escuta e observação do céu” (2023) também integra a mostra. Composta por capacete, fones de ouvido, binóculo e adesivos, a obra foi criada durante a residência artística do projeto “Soy Loco por ti Juquery” e inspirada em uma pintura de João Rubens Neves Garcia, que retrata a iminência de um ataque aéreo. Impactado pelo caráter cinematográfico da tela e pela sugestão de sonoridades implícitas na imagem, Bressanin propôs, pela primeira vez em sua carreira, uma convergência entre som e imagem, convidando o público a observar o céu em diálogo com uma peça sonora derivada da obra de Garcia.
Workshop gratuito
Além de apresentar ao público de Bauru experimentações contemporâneas em arte sonora, o projeto inclui também a realização de um workshop gratuito conduzido pelo próprio artista. “A atividade tem como objetivo introduzir e aprofundar esse campo da criação artística, oferecendo aos interessados a oportunidade de conhecer suas práticas e possibilidades, como o uso de tecnologias digitais, a exploração de paisagens sonoras urbanas e naturais e a criação de experiências imersivas”, explica ele.
Sobre o artista
Marcelo Bressanin iniciou sua carreira como artista sonoro em 2015 com o projeto coletivo “Tempestade” e a residência internacional “Rural Scapes”. Desde então, participou de importantes programas de criação e residências artísticas no Brasil e em países da América Latina, como o Festival Tsonami de Arte Sonora, em Valparaíso, no Chile (2017), a residência “Toda la teoría del universo”, na região de Lota/Colcura, também no Chile (2018), e o programa “La ira de Dios”, no espaço CheLA, em Buenos Aires (2018), na Argentina. É também doutorando pelo programa de pós-graduação em Mídia e Tecnologia, da FAAC/Unesp, e produtor de projetos culturais — atua ainda nesta função no Wynara, espaço cultural independente, na Bela Vista, em Bauru.
SERVIÇO
Evento: “Tantas coisas que não escutamos”, exposição individual do artista sonoro Marcelo Bressanin
Abertura: Terça-feira, 10/03, 19h, seguido de encontro com artista e curadora, às 20h30, na Galeria Municipal Angelina W. Messenberg do Centro Cultural Carlos Fernandes Paiva
Workshop com o artista: Quinta-feira, 12/03, 19h, no Auditório do Centro Cultural Carlos Fernandes Paiva
Endereço: Av. Nações Unidas, Quadras 8-9, Centro, Bauru (SP)
Visitação: Entre 10/03 e 10/04, de terças a sextas-feiras, das 10h às 17h
IMPRENSA
Milton Rizzato | miltonrizzato68@gmail.com


