“Bibi” e “louco”: como relação de Trump com líderes influi em guerras

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desde que assumiu o seu segundo mandato, tem se projetado como o principal mediador dos maiores conflitos armados que o mundo enfrenta atualmente: a guerra entre Rússia e Ucrânia, o conflito entre Israel e Hamas e entre Irã e Israel. No entanto, os sucessos de Trump nas negociações por paz estão ligados às relações de proximidade que ele desenvolve com alguns líderes.

Com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por exemplo, Trump tem uma relação longa de proximidade. O republicano chegou a apelidá-lo de “Bibi Netanyahu”, o que, para o internacionalista e doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Gustavo Glodes, transparece a intenção de Trump de demonstrar “uma proximidade grande com Netanyahu”.


O que está acontecendo?

  • Donald Trump se colocou como o principal mediador do cessar-fogo entre Ucrânia e Rússia, que mesmo com seis encontros não avança.
  • Junto com mediadores egípcios e do Catar, os Estados Unidos também participaram do cessar-fogo entre Israel e Hamas, que entrou em vigor no dia 19 de janeiro. Mesmo antes de assumir o cargo, Donald Trump esteve envolvido no acordo.
  • Com o rompimento do cessar-fogo após os ataques israelenses no dia 18 de março, a Casa Branca confirmou que autorizou a retomada dos ataques em Gaza, levantando dúvidas sobre se Trump atua como mediador ou, de fato, incentivador.
  • No dia 23 de junho, Trump anunciou o cessar-fogo no conflito entre Israel e Irã, iniciado no dia 12 de junho.

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Zelensky e Trump discutem na Casa Branca

Andrew Harnik/Getty Images

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Donald Trump e Volodymyr Zelensky

Andrew Harnik/Getty Images

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Trump e Putin

Chris McGrath/Getty Images

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Trump e Putin

Mikhail Svetlov/Getty Images

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Trump e Netanyahu

Sarah Silbiger/Getty Images

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Netanyahu e Trump

Kyle Mazza/Anadolu via Getty Images

O professor de Direito Internacional da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), João Amorim, explica que a relação entre Netanyahu e Trump sempre foi muito próxima. Desde o primeiro mandato de Donald Trump, isso ficou evidente. O professor ainda destaca que Israel tem uma boa relação com os EUA, no geral.

“Não apenas Trump. George W. Bush, Barack Obama e Joe Biden também sempre apoiaram Israel aberta e incondicionalmente”, destaca o professor. Ele lembra, no entanto, que,”apesar das críticas a governos anteriores, Trump elevou a relação umbilical entre EUA e Israel, sobretudo nas questões militares e nas relações com os demais países do Oriente Médio, a um patamar completamente inédito”.

O professor aponta que a diferença, no caso de Trump, talvez seja o fato de o atual presidente dos EUA, em virtude da personalidade peculiar, manifestar apoio incondicional a Israel dentro de uma “lógica personalista e egóica”, decidindo tudo individualmente, sem consultar assessores ou se preocupar com as repercussões de seus atos.

“Netanyahu, por seu lado, aproveita essas características para levar a cabo sua agenda beligerante e expansionista e a dos partidos de extrema-direita que o sustentam no cargo”, afirma João.

Trump e Netanyahu no Oriente Médio

Em 12 de junho, Israel lançou o que chamou de “ataque preventivo” contra o Irã, desencadeando uma operação nomeada “Leão Ascendente”, com foco no programa nuclear iraniano. O ataque ocorreu 60 dias após Donald Trump tentar um acordo nuclear com o Irã.

Em meio a incertezas sobre propostas e acusações mútuas, Trump anunciou, por meio da rede Truth Social, um cessar-fogo entre Israel e Irã no dia 23 de junho, mesmo sem a confirmação dos países envolvidos. De acordo com ele, durante o cessar-fogo, cada lado envolvido permaneceria pacífico e respeitoso.

A estratégia de impor um trégua, mesmo sem a confirmação dos países envolvidos, e até diante da negação, como ocorreu com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Aragachi, que afirmou não ter concordado, inicialmente, levanta um questionamento: qual será a intenção de Trump de impor um cessar-fogo aos países, sem a confirmação deles?

Gustavo Glodes, da Unicamp, acredita que a possibilidade de Israel e Irã voltarem a se atacar existe, “mas a probabilidade diminuiu muito”. “Um retorno aos ataques pode significar o retorno ao maior medo que havia durante a semana e meia de conflitos: a possibilidade do conflito passar a envolver cada vez mais países, cada vez mais interesses e fazer se misturarem dinâmicas que não dizem só respeito a Irã e Israel”, contextualiza.

 

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Explosão após ataque israelense ao depósito de petróleo de Shahran, em 15 de junho de 2025, em Teerã, Irã

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Israel utiliza Domo de Ferro para tentar anular sequência de mísseis disparados pelo Irã

Wisam Hashlamoun/Anadolu via Getty Images

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Míssel cruza o céu de Hebron

Wisam Hashlamoun/Anadolu via Getty Images

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Tel Aviv, em Israel, é atacada pelo Irã

Mostafa Alkharouf/Anadolu via Getty Images

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Mísseis disparados pelo Irã cruzam o céu de Hebron, em Israel

Wisam Hashlamoun/Anadolu via Getty Images

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Mísses disparados por Irã iluminam céu de Hebron

Wisam Hashlamoun/Anadolu via Getty Images

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Teerã, capital do Irã

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Um escavador remove os escombros de um prédio residencial que foi destruído no ataque realizado por Israel, em Teerã, no dia 13 de junho de 2025

Majid Saeedi/Getty Images

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Explosão após ataque israelense a um prédio usado pela Rede de Notícias da República Islâmica do Irã

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Equipes de resgate e segurança israelenses inspecionam e limpam os prédios e a área atingida por um foguete iraniano no centro de Tel Aviv, Israel

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Ataques do Irã com mísseis balísticos contra Israel são vistos de Ramallah

Issam Rimawi/Anadolu via Getty Images

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Moradores são retirados de um prédio danificado depois que mísseis balísticos foram disparados do Irã atingiram Petah Tikva, Israel

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Defesa civil israelense e equipes de emergência realizam operações noturnas de busca e resgate entre prédios danificados após um ataque de míssil do Irã

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Pessoas observam explosão após ataque israelense ao depósito de petróleo em Shahran

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Equipes israelenses realizam operações de busca e salvamento entre prédios

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Bombeiros israelenses e equipes de defesa civil realizam uma operação noturna de busca e resgate dentro de um prédio residencial

Mostafa Alkharouf/Anadolu via Getty Images

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Ataque a aeroporto de Mashhad no Irã. Israel alega ter atingido avião-tanque.

Redes sociais

Faixa de Gaza

Antes mesmo de tomar posse no início deste ano, Trump já articulava nos bastidores o cessar-fogo entre Israel e Hamas, na Faixa de Gaza. A mesma estratégia de anunciar trégua, diante da negativa ou ausência de resposta de uma das partes, como no caso recente do Irã, foi adotada pelo republicano nos anúncios envolvendo Hamas e Israel, tanto no acordo de 19 de janeiro quanto nas negociações do início deste mês.

O morador de Israel, mestre em História, assessor do Instituto Brasil-Israel e membro do podcast Do Lado Esquerdo do Muro, João Miragaya, avalia que as propostas de acordo de cessar-fogo de Trump possuem um componente capaz de convencer o Hamas, que são “as garantias que os Estados Unidos podem dar de que a guerra vai terminar”.

“Se Trump quiser, mesmo assim, ele consegue decretar o fim da guerra, ele consegue dizer para o Netanyahu que essa guerra vai acabar agora: ‘você é obrigado, eu vou determinar que você vai terminar essa guerra, e acabou’”, afirma Miragaya.

João Amorim, da Unifesp, aponta que o conflito mantido na Faixa de Gaza também é reflexto do “apoio incondicional de Trump, que garante” a continuidade de um “genocídio e limpeza étnica”. “Se for pela relação entre Trump e Netanyahu, Gaza e sua população que ali ainda resiste estão condenados definitivamente”, diz o professor.

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Pessoas vasculham os destroços de uma casa após um ataque israelense na Cidade de Gaza em 18 de março de 2025.

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Exército israelense

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Bebê é resgatada sob escombros em Gaza; família morre em ataque aéreo

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Um dos reféns israelenses beijando cabeça de membro do Hamas

Reprodução/X

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Hamas devolverá a Israel corpos de 4 reféns mortos em cativeiro

Dawoud Abo Alkas/Anadolu via Getty Images

Rússa, Ucrânia e o “louco” Putin, segundo Trump

A guerra da Ucrânia, iniciada no dia 24 de fevereiro de 2022, deixou o território ucraniano arrasado, além de centenas de milhares de pessoas mortas. O líder norte-americano elaborou um plano de cessar-fogo imediato por 30 dias, já aceito pelos ucranianos.

Apesar da Ucrânia ter aceitado a proposta e se mostrar mais disposta a um cessar-fogo, o cenário russo não é o mesmo. Após três chamadas de mais de três horas, em que Trump buscava convencer o presidente russo, Vladimir Putin, a aceitar a proposta, o máximo que o republicano obteve foi uma demonstração de interesse russo.

Trump sempre diz ter uma relação próxima com Putin, mas diante do insucesso nas negociações, já chegou a chamar o líder russo de “louco” e “responsável por milhões de mortes”.

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Ucrânia pede reação dos aliados após ataque russo com mais de 400 drones e 40 mísseis

Kostiantyn Liberov/Libkos/Getty Images

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Ucrânia atacou cidades russas com uso de drones

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Carros atingidos por ataque de drones em Moscou, em março de 2025

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Imagens mostram apartamentos atingidos por mísseis ucranianos

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Prédio atingido por míssil lançado por drones da Ucrânia

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Ataque a um prédio residencial na Ucrânia deixa mortos e feridos

Ministério do Interior da Ucrânia

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Rússia e Ucrânia estão em guerra desde 2022

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Drones deixaram dois mortos

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Este foi o maior ataque de drones ucranianos à Rússia desde o início do conflito

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Ucrânia faz contra-ataque na região russa de Kursk

Reprodução/DW

 

O doutorando em Relações Internacionais Tito Lívio Barcellos Pereira avalia que uma das bandeiras de Trump, durante a campanha, era que ele iria negociar o fim da Guerra da Ucrânia por uma via política e uma via diplomática.

“Embora seja cedo para nós avaliarmos a efetividade das políticas de Trump, você tem uma relação praticamente de chantagem e coerção com seus próprios aliados, visto a intimidação que Trump fez em cima do Zelensky no Salão Oval da Casa Branca”, lembra o especialista.

Tito destaca que a negativa russa em aceitar um cessar-fogo total, após chamadas telefônicas de Putin com Trump, se dá pelo fato de a concessão territoral não ser o principal motivador russo para o conflito.

“Muitos analistas e opinião pública em geral estão se apoiando na ideia de que os russos vão se satisfazer apenas com as concessões territoriais, ou seja, a Ucrânia abdicar dos territórios anexados em 2014 e em 2022, mas o motivo principal da guerra não é esse. Não é uma anexação ou um apetite imperial. A questão da Rússia é criar um novo regime de segurança, e esse regime de segurança não contempla a Ucrânia na Otan”, explica Tito.



Fonte: Metrópoles

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