“Enquanto se distribuem bicicletas, o povo segue pedalando atrás de moradia digna”
Em Marília, ações pontuais de lazer são celebradas com pompa e publicidade. A doação de bicicletas para eventos familiares é apresentada como gesto de cuidado social. Mas a pergunta que ecoa nas periferias e cortiços da cidade é outra: onde está o investimento em moradia de qualidade para quem mais precisa?
Bicicletas são bem-vindas, mas não resolvem o déficit habitacional
A cidade precisa de muito mais do que lazer de fim de semana. Precisa de projetos sérios de desfavelamento, urbanização e habitação popular. Precisa de moradias com o mesmo capricho arquitetônico, acabamento e dignidade que se vê nos condomínios de luxo e nos arranha-céus interioranos — porque a Constituição diz que todos são iguais perante a lei, mas o concreto insiste em mostrar o contrário.
A desigualdade começa na planta baixa
Enquanto a elite desfruta de apartamentos com 100 m², varanda gourmet e área de lazer, os trabalhadores são empurrados para caixas de 20 a 40 m², sem ventilação, sem privacidade, sem dignidade. E o mais irônico: o dinheiro que financia tudo isso vem do mesmo lugar — o FGTS, fundo formado pelo suor do trabalhador.
O mercado usa o FGTS do trabalhador para emprestar a ele mesmo
É um ciclo perverso: o trabalhador contribui compulsoriamente para o FGTS, que é então usado para financiar empreendimentos imobiliários. Mas quando ele tenta acessar esse crédito, encontra preços inacessíveis, projetos excludentes e condições que o obrigam a pagar por toda a vida por uma moradia que não se compara àquela construída para os mais ricos — com o mesmo dinheiro.
Arquitetura da exclusão
Os projetos arquitetônicos destinados à classe alta são pensados com estética, conforto e funcionalidade. Já os destinados à base da pirâmide são mínimos, padronizados e desumanos. Não há justificativa técnica para essa diferença — apenas a lógica de um mercado que valoriza o lucro acima da equidade.
O povo não quer só pedalar — quer morar com dignidade
A doação de bicicletas pode até render manchetes e fotos bonitas. Mas enquanto isso, milhares de marilienses seguem pedalando contra a corrente da exclusão habitacional. O que se espera de quem tem poder e recursos é mais do que gestos simbólicos — é compromisso com justiça social, com moradia digna e com respeito ao trabalhador que financia tudo isso sem sequer ser lembrado.


