Coluna Te Explico Aqui| TEA: Entre o diagnóstico e o colo, por Dra. Thatyana Turassa

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O dia em que comecei a investigar o desenvolvimento da minha filha foi um dos mais difíceis da minha vida.

Quando nos formamos em pediatria, praticamente não aprendemos a reconhecer sinais de autismo.

Isso quase não aparece na faculdade. Também não aparece de forma consistente na residência. O desenvolvimento infantil é estudado, mas o autismo ainda é pouco abordado na formação médica.

O que eu sei hoje não veio da graduação.

Veio depois.

Veio da prática clínica, de estudar por conta própria, de conversar com colegas, de observar crianças, da Certificação Thiago Castro e da pós em Autismo da CBI of Miami. Principalmente, veio de ouvir famílias – como mãe atípica, participo de alguns grupos de mães de crianças neurodivergentes e aprendo DIARIAMENTE com este convívio. Foi assim que comecei a aprender a reconhecer alguns sinais e a compreender melhor o neurodesenvolvimento.

Ainda assim, nada prepara uma pediatra para quando a suspeita atravessa a porta da própria casa.

Dentro de mim conviviam duas mulheres.
A pediatra e a mãe.

A pediatra sabia que investigar cedo é importante. Que o diagnóstico abre portas. Que quanto antes entendermos uma criança, melhor conseguimos ajudá-la.

A mãe tinha muito medo. Medo do que viria depois. “E se ela sofrer?”

Queria acreditar que talvez fosse só uma fase. Que cada criança tem seu ritmo. Que talvez eu estivesse enxergando sinais demais.

O processo de avaliação foi atravessado por essa tensão silenciosa. A cada consulta, a cada observação, a cada relatório, eu sentia aquela mistura difícil de explicar entre esperança e medo.

Quando o diagnóstico finalmente chegou, ele não trouxe apenas respostas. Trouxe também um tipo de silêncio. Um silêncio parecido com o luto.

Não pelo filho que você tem, porque ele está ali, inteiro, presente, maravilhoso. Mas pelas expectativas que a gente constrói sem perceber.

A ideia de que certas coisas simplesmente aconteceriam:

Que aprender a andar de bicicleta viria naturalmente.
 Que escrever com firmeza seria fácil.
 Que algumas etapas do desenvolvimento seguiriam o roteiro que a gente aprendeu a esperar.

Só que a maternidade raramente segue roteiros.

E quando falamos de autismo nível de suporte 1, existe um outro desafio que aparece o tempo todo: o capacitismo.

Ele vem muitas vezes disfarçado de elogio:

“Mas ela é tão inteligente.”
 “Ela é tão esperta.”
 “Nem parece que tem autismo.”

Essas frases parecem gentis, mas elas também apagam dificuldades reais.

Porque o autismo nem sempre é visível para quem olha de fora.

No cotidiano, as diferenças aparecem em coisas pequenas. Pequenas para quem vê. Enormes para quem vive.

No choro quando há um barulho que incomoda.
 Na dificuldade para segurar talheres com segurança.
 No esforço enorme para aprender algo que parece simples para outras crianças, como andar de bicicleta ou tentar patinar.

Na rigidez cognitiva que transforma mudanças mínimas em crises intensas.

No perfeccionismo que paralisa antes mesmo da tentativa.

Estas dificuldades não aparecem em fotos. Não aparecem em conversas rápidas. Muitas vezes não aparecem nem na escola.

Mas elas fazem parte da rotina de muitas famílias.

Ser mãe atípica é aprender a enxergar essas nuances.

É aprender a celebrar conquistas que passam completamente despercebidas para o resto do mundo.

É entender que desenvolvimento não é uma corrida, e que cada criança tem um caminho próprio.

Esta experiência também mudou profundamente a pediatra que eu sou.

Hoje, quando uma mãe entra no consultório e diz, meio hesitante:
 “Doutora, eu acho que tem alguma coisa diferente com meu filho…”

Eu reconheço aquele lugar.

Eu reconheço o medo de estar certa.

Reconheço a culpa que aparece antes mesmo de existir qualquer diagnóstico.

Reconheço também a dúvida que paralisa muitas famílias: investigar ou esperar?

Se eu pudesse dizer algo para essas mães, diria uma coisa simples:

Vale a pena investigar!

Correr atrás de um diagnóstico não significa rotular uma criança. Significa compreender.

O diagnóstico organiza muitas peças que antes pareciam soltas. Ele ajuda a entender comportamentos, dificuldades, necessidades.

Ele abre portas para terapias adequadas. Para intervenções precoces. Para um apoio mais consistente.

Ele permite que pais e mães deixem de caminhar no escuro.

Hoje eu escrevo sobre isso porque sou pediatra.

Mas escrevo principalmente porque sou mãe.

Porque quando a ciência encontra a experiência, nasce algo muito poderoso: lugar de fala.

O meu lugar está exatamente nesse encontro entre o conhecimento médico e o colo de mãe.

Entre o diagnóstico e o amor.

E se existe algo que a maternidade atípica me ensinou é que entender uma criança não diminui quem ela é.

Pelo contrário.

É justamente o que nos permite finalmente enxergá-la por inteiro.

Dra. Thatyana Turassa é médica pediatra com atuação voltada ao desenvolvimento infantil e transtornos do neurodesenvolvimento. Possui formação em transtornos do neurodesenvolvimento pelo CBI of Miami e Certificação Thiago Castro. Dedica-se ao acompanhamento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras condições do desenvolvimento, orientando famílias com base em ciência, cuidado e acolhimento. Acredita que informação de qualidade é uma ferramenta essencial para fortalecer pais e cuidadores no processo de desenvolvimento de cada criança.

Dra Thatyana Turassa
CRMSP 150384 | RQE 77914
Pediatra • Autismo • Desenvolvimento
E-mail: thatyana@me.com

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