EDITORIAL | Aporofobia no Gabinete: A Pobreza não é um “Meme”, Senhor Vereador

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O episódio protagonizado pelo vereador André Rodini (Novo), de Ribeirão Preto, ao ironizar a população de baixa renda com a expressão “pobre fazendo pobrice”, não é apenas um deslize de linguagem ou uma “brincadeira de internet”. É a manifestação nua e crua da aporofobia — a aversão e o desprezo pelo pobre. Quando um representante do povo utiliza o canal oficial de seu gabinete para desdenhar daqueles que, em sua visão elitista, “pegam bolo com balde”, ele não está apenas compartilhando um meme; ele está cuspindo na face de uma realidade que ele, do alto de seus rendimentos e estabilidade, parece ter desaprendido a enxergar.

A Esculpa do “Meme” e a Falência da Empatia

A defesa do vereador, ao alegar que a frase foi “tirada de contexto” e que se tratava de uma brincadeira interna, é uma afronta à inteligência do cidadão. A pobreza não é uma brincadeira. Para os milhares de ribeirão-pretanos que lutam diariamente contra a insegurança alimentar, a falta de saneamento e a precariedade do transporte público, não há nada de engraçado na escassez.

O que o vereador chama de “pobrice” é, na verdade, a sobrevivência. Se alguém leva um balde para uma festa pública para garantir um pedaço de bolo, é porque a mesa em sua casa, ao contrário da mesa fartada dos palácios legislativos, conhece o vazio. O deboche de Rodini revela uma petulância perigosa: a de quem se sente tão superior que acredita que o sofrimento alheio pode servir de entretenimento para o seu círculo de assessores.

O Abismo entre o Gabinete e a Calçada

É fácil fazer “piadas” quando se tem o prato cheio e o plano de saúde garantido. O problema é que a aporofobia de gabinete gera políticas de exclusão. Como pode um parlamentar que nutre tamanho desprezo pelos hábitos da classe trabalhadora legislar com justiça para essa mesma classe? A resposta é clara: não pode.

O vereador parece ignorar que ele é um empregado do povo — inclusive daquele “pobre” que ele ironiza. Cada centavo que financia seu luxo, suas assessoras e sua estrutura de poder vem do suor dos cidadãos que ele agora estigmatiza. A hipocrisia é completa quando o “novo” na política repete o mais arcaico e podre preconceito das elites pedantes: o de que a pobreza é um traço de caráter, e não uma falha sistêmica do Estado que ele deveria representar.

O Conselho de Ética e o Julgamento das Urnas

A Câmara Municipal de Ribeirão Preto tem agora um encontro marcado com a sua própria decência. O Conselho de Ética não pode se omitir sob a desculpa de “brincadeira de WhatsApp”. Quebra de decoro parlamentar é, acima de tudo, o desrespeito ao representado. E o povo de Ribeirão Preto — o povo humilde, o povo que trabalha, o povo que busca no Mercadão o sustento — merece respeito.


Senhor vereador, as pessoas hipossuficientes de sua cidade não são personagens de seus vídeos engraçados. São seres humanos dotados de dignidade, que esperam de um parlamentar soluções, não escárnio. Que o peso da punição, que o senhor mesmo evocou em suas redes sobre outros temas, chegue agora para quem confunde mandato com licença para humilhar. A “brincadeira” acabou. O que resta é a conta política e ética de quem se mostrou indigno de representar o povo.

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