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ENTREVISTA: Isla Maciel, a Argentina que não vê perspectivas

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Vanessa Martina-Silva, de Buenos Aires, de Buenos Aires, ComunicaSul

15/01/2024

Desde que Ja­vier Milei venceu o pe­ro­nista Sergio Massa nas elei­ções pre­si­den­ciais na Ar­gen­tina, uma das per­guntas mais es­cu­tadas nos cír­culos pe­ro­nistas e pro­gres­sistas é: quanto tempo vai durar seu go­verno?

É fato que o man­da­tário não terá vida fácil. Afinal, é pra­ti­ca­mente im­pos­sível go­vernar o país sem o apoio do pe­ro­nismo, re­petem todos os ana­listas. O único pre­si­dente não pe­ro­nista que con­se­guiu ter­minar seu man­dato foi Mau­ricio Macri (PRO), que go­vernou de 2015 a 2019.

Mas é jus­ta­mente Macri quem está afi­an­çando a gestão Milei. Ainda du­rante a cam­panha, o po­lí­tico não só de­clarou apoio ao ex­tre­mista, como ga­rantiu que seria ele quem iria dar as con­di­ções de go­ver­na­bi­li­dade ao na­nico par­tido A Li­ber­dade Avança.

Para além das pro­messas de cam­panha, como a do­la­ri­zação, a ex­plosão do Banco Cen­tral, os planos de mo­tos­serra, da venda de ór­gãos e de cri­anças e de ou­tras po­lê­micas que Milei im­plantou na Ar­gen­tina, pra não falar do de­cre­taço com o qual ini­ciou seu go­verno, um fator bem ob­je­tivo pre­o­cupa os que lidam com a po­pu­lação menos fa­vo­re­cida do país: du­rante o go­verno Macri, a po­breza au­mentou e as con­di­ções de vida pi­o­raram con­si­de­ra­vel­mente.

Para com­pre­ender o ce­nário atual no qual vivem essas pes­soas e pro­jetar os riscos que correm du­rante os pró­ximos anos, a re­por­tagem da Co­mu­ni­caSul foi até Ilha Ma­ciel, fa­vela mais pobre da ci­dade de Avel­la­neda, na pro­víncia de Bu­enos Aires, en­tre­vistar o padre Fran­cisco Oli­veira, co­nhe­cido como Paco.

Padre Paco é uma das vozes da Igreja Ca­tó­lica mais ativas na Ar­gen­tina na de­fesa dos mais po­bres, dos di­reitos hu­manos e de con­di­ções dignas de mo­radia e vida. Nas­cido na Es­panha, ele chegou no país vi­zinho em 1987 e logo se apro­ximou da cor­rente pro­gres­sista do ca­to­li­cismo.

Quando en­tendeu a di­nâ­mica da so­ci­e­dade ar­gen­tina, se po­si­ci­onou como pe­ro­nista “por ser um veí­culo do so­ci­a­lismo” no país. Mi­lita dentro e fora da igreja e faz de suas obras so­ciais sua pro­fissão de fé. Atua junto aos de­mais Pa­dres da Opção Pelos Po­bres, grupo in­de­pen­dente e com po­si­ções pouco co­muns dentro do cris­ti­a­nismo, como a de­fesa do ca­sa­mento igua­li­tário, do aborto e da le­ga­li­zação das drogas.

A en­tre­vista com o cura foi re­a­li­zada antes das elei­ções. Por isso, ele gen­til­mente aceitou res­ponder três breves ques­ti­o­na­mentos via áudio, no What­sApp, para atu­a­lizar suas im­pres­sões sobre o novo pre­si­dente do país.

Co­mu­ni­caSul: Ouço todo o tempo que a ad­mi­nis­tração de Milei será um go­verno Macri 2. O se­nhor me disse que o ma­crismo foi duro com os mais des­fa­vo­re­cidos. Assim, quais são as pers­pec­tivas para esse grupo, es­pe­ci­al­mente para os mais jo­vens, nos pró­ximos quatro anos?

Padre Paco: Sim, Macri tomou o go­verno de Milei. Mas também co­locou fun­ci­o­ná­rios da época [dos ex-pre­si­dentes Carlos] Menem e de [Fer­nando de] la Rúa. Por­tanto, temos re­al­mente o pior go­verno dos úl­timos 50 anos.

E as pers­pec­tivas são ter­rí­veis, não apenas para os jo­vens, mas para os tra­ba­lha­dores em geral. Além disso, desta vez ele [Milei] disse o que iria fazer e as pes­soas vo­taram nele. Macri mentiu. Por isso, agora é uma questão com­pli­cada. Muitos dos que vo­taram nele também vão acabar saindo às ruas porque serão pre­ju­di­cados.

Você acha que a re­lu­tância de al­guns se­tores em de­fender o voto em Massa pode ter im­pac­tado o re­sul­tado final muito mais do que o es­pe­rado em favor de Milei?

Eu acre­dito que re­al­mente houve uma mo­bi­li­zação por Massa por parte de todos, todos os se­tores pe­ro­nistas. Não por con­vicção em sua pessoa, mas pelo que es­tava em jogo. Di­gamos que não era pos­sível ter meios-termos. Mesmo assim, não serviu de nada, não serviu para nada.

A Ar­gen­tina é co­nhe­cida por seus mo­vi­mentos de rua e forte mo­bi­li­zação po­lí­tica. Como vê os pró­ximos quatro anos, do ponto de vista das fa­velas, co­mu­ni­dades, onde você mora e tra­balha?

Para os mais po­bres, para as fa­velas, os as­sen­ta­mentos, a si­tu­ação vai ser muito, muito di­fícil. Já nos úl­timos dias, com a che­gada do livre mer­cado, os preços dos pro­dutos bá­sicos foram au­men­tados de forma exa­ge­rada.

E vai ser muito di­fícil. As pes­soas vão acabar indo para as ruas. Talvez, quem sabe, seja como em 2001, quando os po­bres sa­que­aram as lojas, os co­mér­cios e a classe média bateu às portas dos bancos. Não vejo algo muito di­fe­rente. Não acre­dito que dure quatro anos, acre­dito que sairá antes.

Um (des)en­contro

Logo no pri­meiro con­tato com esta re­pórter, Padre Paco foi muito so­lí­cito e se mos­trou dis­po­nível para re­a­li­zarmos a en­tre­vista pes­so­al­mente. Porém, como ele es­tava muito ocu­pado às vés­peras da eleição e como re­side dis­tante da ca­pital, em um novo as­sen­ta­mento na ci­dade de Merlo, na pro­víncia de Bu­enos Aires, com­bi­namos de con­versar quando ele fosse para a Ilha Ma­ciel, onde di­rige uma fun­dação.

O en­contro es­tava mar­cado para as 11h. Por con­si­derar que os ta­xistas talvez não qui­sessem en­trar na ilha – per­cepção pos­te­ri­or­mente com­pro­vada pelos mo­ra­dores – de­cidi ir de trans­porte pú­blico. A ilha fica ime­di­a­ta­mente após o tu­rís­tico e fa­moso bairro da Boca e para chegar é pre­ciso atra­vessar a ponte sobre o rio Ri­a­chuelo. A lo­ca­li­dade não per­tence à ca­pital e sim à ci­dade de Avel­la­neda, na pro­víncia de Bu­enos Aires.

Com a an­te­ce­dência ne­ces­sária, co­lo­quei a lo­ca­li­zação no Go­ogle Maps e ini­ciei e jor­nada com um metrô e um trem. Já pró­ximo da hora com­bi­nada, re­solvi en­viar uma men­sagem para dizer que me atra­saria al­guns mi­nutos. Ao abrir o mapa para con­ferir o quão dis­tante eu es­tava, per­cebo que, ao invés de estar indo em di­reção ao rio, me dis­tan­ciava, pro­víncia adentro. Pâ­nico geral.

Re­solvo ligar para o Padre Paco e ex­plicar a si­tu­ação. “Ah… tudo bem! Eu também estou atra­sado”, diz. Mas quando en­tende que eu es­tava indo de trans­porte, ele emite um alerta: era me­lhor en­trarmos juntos na ilha, po­deria ser pe­ri­goso eu chegar lá so­zinha.

Ex­plico onde eu estou e… para a sur­presa de ambos, ele também havia co­lo­cado a lo­ca­li­zação no Go­ogle e es­tava se di­ri­gindo para um lugar que nada tinha a ver com o des­tino. “Me es­pera aí na es­tação em que você está. Em 20 mi­nutos eu te pego e vamos juntos”.

Desta forma, nossa en­tre­vista co­meça em seu carro, uma Toyota ver­melha an­tiga, em­po­ei­rada, com caixas e ou­tros ob­jetos para do­ação e que conta um pouco, por si só, como é a vida desse padre, que leva a vida de­di­cado aos po­bres.

Co­mu­ni­caSul: Quando tra­tamos da po­breza, uma das mai­ores ví­timas são os jo­vens. Como des­cre­veria a si­tu­ação dessa par­cela da po­pu­lação nessas co­mu­ni­dades mais vul­ne­rá­veis?

Padre Paco: A mai­oria dos nossos jo­vens não es­tuda nem tra­balha. Eles não es­tudam porque aban­do­naram o En­sino Médio, que na Ar­gen­tina é obri­ga­tório, mas a re­a­li­dade é que muitas vezes eles não têm in­te­resse ou pers­pec­tiva de fu­turo e a mai­oria deixa a es­cola.

Con­se­guir tra­balho já é muito com­pli­cado para uma pessoa com ex­pe­ri­ência, ainda mais para um jovem…

Mas es­tamos fa­lando de co­mu­ni­dades onde não há muita opor­tu­ni­dade de tra­balho. Como eles con­se­guem ga­rantir a sub­sis­tência sem ser se­du­zidos pelo nar­co­trá­fico, pelo crime, que é o que muitas vezes acon­tece nessas si­tu­a­ções?

Muitos desses jo­vens têm pro­blemas re­la­ci­o­nados ao con­sumo de drogas. Muitos. O uso de drogas está por toda parte. Quem quiser, en­contra fa­cil­mente. Na ver­dade, pes­so­al­mente, por exemplo, acre­dito que a ma­conha de­veria ser le­ga­li­zada. Es­ta­ríamos ti­rando o poder de um grupo de cri­mi­nosos e pas­sando para o con­trole do Es­tado.

Agora, é certo que o pro­blema das drogas é di­fe­rente para os jo­vens que não es­tudam, que não tra­ba­lham, em com­pa­ração com pes­soas que têm um pro­jeto de vida, onde muitas vezes o uso de ma­conha é apenas re­cre­a­tivo. Nossos jo­vens muitas vezes co­meçam com ma­conha e acabam em qual­quer lugar. E também temos a droga das drogas para os po­bres, aqui cha­mada de paco [crack].

Nas elei­ções se dis­cutiu muito o papel do Es­tado. Se de­veria ser um Es­tado de bem-estar so­cial ou um Es­tado zero, como de­fendeu Milei. Mas, antes de mais nada, gos­taria de en­tender como o Es­tado chega a essas pes­soas, se é que chega?

Bem, ele chega com al­gumas po­lí­ticas uni­ver­sais, na­ci­o­nais. Por exemplo, quase todas as pes­soas em nossos bairros re­cebem a Asig­na­ción Uni­versal por Hijo [Bolsa Fa­mília ar­gen­tino], que é uma ajuda fi­nan­ceira mensal dada pelo Es­tado di­re­ta­mente para a mãe ou o pai, caso não te­nham em­prego formal.

Também temos o cartão ali­men­tação, um valor en­tregue di­re­ta­mente à fa­mília com a fi­na­li­dade prin­cipal de compra de ali­mentos. Com esse cartão, eles vão ao co­mércio e só podem com­prar co­mida ou pro­dutos bá­sicos. Não podem, por exemplo, com­prar be­bidas al­coó­licas.

Existem po­lí­ticas na Ar­gen­tina para que todas as pes­soas, ho­mens ou mu­lheres, que não con­se­guiram con­tri­buir com todos os anos ne­ces­sá­rios para se apo­sentar. Elas podem re­ceber a apo­sen­ta­doria com o des­conto dos anos não con­tri­buídos.

E temos os pro­gramas, que são muito ata­cados pela di­reita. Por exemplo, há o pro­grama Po­ten­ciar Tra­bajo [Ca­pa­ci­tação para o Tra­balho], onde o Es­tado paga a ela apro­xi­ma­da­mente 60 mil pesos men­sais [R$ 320 pelo câmbio da Wes­tern Union] e como con­tra­par­tida, ela deve tra­ba­lhar 16 horas por se­mana com or­ga­ni­za­ções so­ciais ou re­li­gi­osas, mu­ni­ci­pais ou ONGs.

De­pois, há ou­tros pro­gramas pro­vin­ciais [es­ta­duais], como o Bairros Bo­na­e­renses, da pro­víncia de Bu­enos Aires, que paga um valor menor e também exige uma con­tra­par­tida ho­rária. Agora, isso é mais para o in­di­víduo…

E em termos es­tru­tu­rais?

A ver­dade é que temos bairros onde pra­ti­ca­mente não há pre­sença do Es­tado. No bairro onde eu moro desde maio, por exemplo, só agora, de­pois de muita luta, con­se­guimos a ins­ta­lação dos me­di­dores de luz por parte da em­presa, que é pri­vada.

É um ser­viço pú­blico, mas foi pri­va­ti­zado na época do [Carlos] Menem. Eles não que­riam ins­talar os me­di­dores mesmo sendo para que pu­dés­semos pagar a luz. A minha vi­zinha me for­necia energia elé­trica ile­gal­mente. A energia pas­sava pela casa dela e che­gava até mim. Ela quase in­cen­diou a casa dela, que era de ma­deira, de­vido ao alto con­sumo!

Bem, só agora o fi­zeram e porque fi­zemos muita con­fusão e eu – que tenho um certo peso, vi­si­bi­li­dade – fui morar no bairro. Só agora temos co­leta de lixo. Só agora co­me­çaram a con­sertar as ruas, não as­faltar, mas passar má­quinas que ni­velam um pouco o ter­reno e co­locam cas­calho, pedra solta, en­tulho de cons­trução. Antes, era im­pos­sível en­trar e sair do bairro. Não há ônibus…

Isso gera muita raiva nas pes­soas. Porque, além disso, com o nível de in­flação que temos, prin­ci­pal­mente a in­flação nos ali­mentos, as pes­soas não têm di­nheiro para chegar ao fim do mês. Nos bairros, não digo que passam fome, mas passam ne­ces­si­dades.

Por­tanto, existe uma bronca porque o di­nheiro que re­cebem não é su­fi­ci­ente, mesmo com as po­lí­ticas de as­sis­tência e os pro­gramas so­ciais. E há co­mu­ni­dades que estão to­tal­mente aban­do­nadas, nas mãos de Deus e da Virgem Maria. Isso gera muita re­volta.

Eu vejo isso cla­ra­mente: nas co­mu­ni­dades onde o Es­tado está pre­sente e há mi­li­tância, quase não houve voto para Milei. Mas onde o Es­tado não está pre­sente e não há bases e or­ga­ni­za­ções po­lí­ticas que mi­litem no ter­ri­tório, no final, muitos vo­taram em Milei.

Porque o Es­tado não serve para essas pes­soas… talvez nem te­nham muita cons­ci­ência de sua uti­li­dade…

To­tal­mente. E há uma ideia de que as coisas pre­cisam ser feitas antes das elei­ções ou então terão que es­perar mais quatro anos. Antes das elei­ções, flo­rescem Uni­dades Bá­sicas. De­pois, mur­cham, são fe­chadas…

O que são Uni­dades Bá­sicas?

São os lo­cais de for­mação po­lí­tica do Mo­vi­mento Jus­ti­ci­a­lista, o pe­ro­nismo, nos bairros, co­mu­ni­dades. Também são lo­cais onde são pres­tados ser­viços, como ad­vo­gados que vão até esses lo­cais para ori­entar ques­tões ju­di­ciais, seja no âm­bito penal ou fa­mi­liar.

As pes­soas acabam se sen­tindo um pouco usadas, porque quando convém, eles vêm até elas, mas de­pois as aban­donam…

Desde 2009 eu venho com certa frequência a Bu­enos Aires. De fato, agora eu vejo uma quan­ti­dade muito maior de pes­soas em si­tu­ação de rua ou tra­ba­lhando como co­le­tores. Gos­taria de en­tender um pouco me­lhor essa si­tu­ação porque os dados ofi­ciais falam que há 40% de ci­da­dãos na po­breza, mas se com­pa­rarmos com a re­a­li­dade de São Paulo, por exemplo, é muito pouca a quan­ti­dade de gente nessa si­tu­ação aqui…

Sim, en­tendo sua per­gunta. Veja, em pri­meiro lugar. Eu sempre vivo e tra­balho com uma po­pu­lação que nunca deixou de ser pobre.

Então essa é a minha po­pu­lação, com a qual estou sempre. Seja 25% de po­bres, 40%, 50% ou 10%, estou com essa po­pu­lação. O man­dato de Cris­tina Fer­nández de Kir­chner ter­minou com 23%, 25% de po­bres. A po­breza di­mi­nuiu muito entre [os go­vernos de] Néstor [Kir­chner] e Cris­tina. O mesmo ocorreu em toda a Amé­rica La­tina.

De­pois, ti­vemos quatro anos de ma­crismo, quando todos os ín­dices foram para o in­ferno. As pe­quenas e mé­dias em­presas fe­charam, as pes­soas fi­caram de­sem­pre­gadas e os pro­gramas so­ciais não ti­veram au­mento de acordo com a in­flação. Eles ti­raram muitos be­ne­fí­cios das pes­soas e ainda en­di­vi­daram o país em 45 bi­lhões de dó­lares, que se­quer foram in­ves­tidos dentro do país.

Chegou Al­berto Fer­nández, mas ti­vemos uma seca no meio do ca­minho e ti­vemos a pan­demia. E o go­verno dele foi muito fraco, muito fraco para en­frentar os po­de­rosos. Não foi um go­verno de di­reita, mas esse homem vai em­bora ab­so­lu­ta­mente sem glória ou com mais tris­teza do que glória, não vai como Cris­tina que, quando ter­minou seu man­dato, teve o aplauso de uma Praça de Maio cheia.

O tra­balho cresceu muito no go­verno Fer­nández, mas prin­ci­pal­mente o tra­balho in­formal ou tra­balho por conta pró­pria. É ver­dade que muitas pe­quenas e mé­dias em­presas abriram no­va­mente, mas hoje o pro­blema que temos é que pes­soas em­pre­gadas não con­se­guem chegar ao fim do mês com o sa­lário que re­cebem.

Cris­tina falou sobre isso… que hoje na Ar­gen­tina há po­bres que tra­ba­lham… e essa é uma si­tu­ação muito com­plexa porque os po­bres já não são aqueles que estão de­sem­pre­gados…

Exa­ta­mente. Nos se­tores po­pu­lares, hoje, você não pode com­prar nada. Você não vai pensar em com­prar um fogão, por exemplo. Os tênis, nós com­pramos par­ce­lados. Não é que você compra uma casa a pres­tação, você compra tênis dessa ma­neira. Não há nada que as pes­soas possam com­prar porque o sa­lário não al­cança.

Mas também não quero ser tão ne­ga­tivo. Este go­verno não teve nada a ver com o go­verno Macri.

Você me disse que Fer­nández foi fraco para en­frentar o in­te­resse dos po­de­rosos. Eu ouvi de umas ga­rotas de 20 e poucos anos, que não im­porta quem ga­nhasse a eleição, a si­tu­ação delas não mu­daria. São jo­vens que não veem fu­turo para a Ar­gen­tina. Como che­gamos a isso?

A ver­dade é que vi­vemos em de­mo­cra­cias muito frá­geis em toda a Amé­rica La­tina e eu diria a nível global. Hoje em dia há pes­soas que têm todo o di­nheiro de, sei lá, três países juntos. Então, nossas de­mo­cra­cias não res­pondem e nunca vão res­ponder a todas as ne­ces­si­dades de nosso povo.

Olha, [o ex-pre­si­dente] Raúl Al­fonsín dizia que com a de­mo­cracia se come, se educa e se cura. Isso foi há 40 anos. A re­a­li­dade é que hoje, com a nossa de­mo­cracia, 40% da po­pu­lação não come, não se educa, não se cura. Mesmo assim, temos edu­cação gra­tuita até a uni­ver­si­dade pú­blica e temos saúde pú­blica.

Na época de Néstor, Cris­tina e também de Al­berto, foram abertas muitas uni­ver­si­dades na grande Bu­enos Aires e em ou­tros lu­gares do in­te­rior do país, o que per­mite que haja pes­soas que pela pri­meira vez possam ir para uma uni­ver­si­dade.

Bem, todas essas coisas estão em jogo e em risco agora com Milei. Ou seja, por um lado, há muitas coisas ruins, mas por outro lado, há muitas coisas boas. O que acon­tece é que nós já es­tamos muito acos­tu­mados. Você diz a um chi­leno que Milei propôs ofe­recer vou­cher para a edu­cação ou que quer acabar com a uni­ver­si­dade pú­blica e eles querem morrer porque estão so­frendo há muito tempo com isso.

Isla Ma­ciel

“Veja, aí em­baixo está a Isla Ma­ciel. Ali é a Boca e este é o rio Ri­a­chuelo e ali está o rio da Prata”. Fi­nal­mente che­gamos ao bairro. Ex­ceto por suas cons­tru­ções pe­cu­li­ares, os cha­mados con­ven­tillos, que mes­clam ti­jolo com latão, a re­gião é pa­re­cida com di­versas pe­ri­fe­rias bra­si­leiras.

Con­ven­tillo em Isla Ma­ciel Foto: Va­nessa Mar­tina-Silva

Em pouco tempo che­gamos à Fun­dação Vila Ma­ciel. Lo­ca­li­zada em uma Praça bo­nita, limpa e re­no­vada, com pouca gente na rua (talvez de­vido ao calor in­tenso que fazia na­quele dia) nada in­di­cava se tratar de um local pe­ri­goso. Es­ta­be­le­cidos na bi­bli­o­teca da fun­dação, se­guimos com a en­tre­vista.

Co­mu­ni­caSul: Como as pes­soas têm in­ter­pre­tado as pro­postas po­lí­ticas de Milei? Porque com al­gumas pes­soas com as quais con­versei e que votam nele dis­seram “mas ele não vai fazer isso”. Isso também acon­teceu no Brasil, com Bol­so­naro. Nós di­zíamos: “ouça o que ele disse” e muitos res­pon­diam que era “da boca para fora”. Ou seja, nós ti­vemos uma grande di­fi­cul­dade de ex­pli­citar que aquilo era sério e que a si­tu­ação po­deria pi­orar muito. Por fim, ele venceu e ficou quatro anos. Então como é isso aqui?

Padre Paco: Não apenas Bol­so­naro ga­nhou, como de­pois Lula venceu por muito pouco. Isso é o que me an­gustia na Amé­rica La­tina em geral e no mundo. Há um avanço real da di­reita.

A vi­tória de Bol­so­naro ine­ga­vel­mente im­pul­si­onou a di­reita no Brasil. Dá para dizer o mesmo com Milei?

Bem, pri­meiro eu acre­dito que isso vem de longa data, quando [o ex-pre­si­dente Do­mingos] Perón ga­nhou aqui com quase 60% dos votos, houve 35% que não votou nele, que era an­ti­pe­ro­nista por na­tu­reza.

Esses dis­cursos de que a culpa é dos po­bres, que se gasta muito com os po­bres e sei lá… sempre exis­tiram e não é de agora com Milei. Era o dis­curso de Macri, só que ele dizia de outra forma, dizia que não ia tirar di­reitos, mas ia me­lhorar as coisas.

No final das contas, as pes­soas acabam vo­tando com o bolso. Perón dizia que a vís­cera mais sen­sível do ser hu­mano é o bolso. Às vezes é uma questão muito egoísta, de “eu quero estar me­lhor e pouco me im­porta o resto”. E ou­tras vezes é porque estão pas­sando mal. Nesse sen­tido, en­tendo o que Cris­tina disse re­cen­te­mente no lan­ça­mento de um livro: não é que nossa so­ci­e­dade está se tor­nando mais de di­reita, é que nossa so­ci­e­dade está pas­sando mal.

Mas as pes­soas que vo­taram em Milei podem ser mais ra­di­cais, não?

Es­tamos re­ce­bendo ame­aças de morte, es­tamos so­frendo ata­ques. Nas uni­ver­si­dades pú­blicas havia pi­cha­ções di­zendo “es­quer­distas de merda, vocês acabam em 10 de de­zembro”.

Es­tamos em um mo­mento mun­dial em que as de­mo­cra­cias se mos­traram in­su­fi­ci­entes para en­tregar o que pro­me­teram às pes­soas. Nos Es­tados Unidos, na Ar­gen­tina, é a di­reita que chega com a ra­di­ca­li­dade, di­zendo que vai “ex­plodir tudo”, que vai mudar… E a es­querda propõe manter tudo como está, fa­zendo acordos e se de­fen­dendo… não propõe mu­danças ou re­vo­lu­ções. As coisas não estão ao con­trário?

Eu nunca ima­ginei que mi­li­taria por Massa. Aliás, eu mi­li­tava pela Cris­tina. Agora, acre­dito que se Cris­tina se can­di­da­tasse, per­de­ríamos as elei­ções. Porque essa é a questão. Uma coisa é o que de­se­jamos, mas outra é como se chega ao poder. Mas se Lula não se unisse até mesmo com al­guém que o per­se­guia, o que também acon­teceu com Cris­tina, não che­ga­riam ao poder. As op­ções mais ra­di­ca­li­zadas da es­querda, que talvez com­par­ti­lhemos, não chegam ao poder. Assim, acre­dito que também a po­lí­tica é a arte do pos­sível.

E por outro lado, para en­tender um pouco a Ar­gen­tina, é pre­ciso com­pre­ender que aqui não há es­querda. A es­querda é o pe­ro­nismo. Ou seja, quem con­cedeu di­reitos à so­ci­e­dade ar­gen­tina foi o pe­ro­nismo. E o povo sabe disso.

Agora, o pe­ro­nismo é um mo­vi­mento e dentro desse mo­vi­mento. É como na Igreja, tem a ex­trema-di­reita e a ex­trema-es­querda. Temos uma ponta e temos a outra. Isso é di­fícil de en­tender es­tando de fora. Mas aqui não há es­querda. As ban­deiras da es­querda são do pe­ro­nismo.

A his­tória da hu­ma­ni­dade não é muito di­fe­rente. Sempre foi mais ou menos assim. Veja, aquele que eu sigo, Jesus Cristo, foi um fra­casso total. Acabou sendo cru­ci­fi­cado e dizia: “Oh, o reino de Deus está che­gando, a fra­ter­ni­dade está co­migo”. Ter­minou em uma cruz. É pre­ciso con­ti­nuar aju­dando os po­bres da cruz, os novos cru­ci­fi­cados da his­tória. Não há outra opção.

Va­nessa Mar­tina-Silva é jor­na­lista do Co­mu­ni­caSul.

A Agência Co­mu­ni­caSul está co­brindo as elei­ções de 2023 na Ar­gen­tina graças ao apoio das se­guintes en­ti­dades: jornal Hora do Povo, Diá­logos do Sul, Barão de Ita­raré, Re­vista Fórum, Portal Ver­melho, Cor­reio da Ci­da­dania, Agência Saiba Mais, Agência Sin­dical, Vi­o­mundo, Fórum 21, Ins­ti­tuto Cul­tiva, Aso­ci­a­ción Ju­di­cial Bo­na­e­rense, Unión de Per­sonal Su­pe­rior y Pro­fe­si­onal de Em­presas Ae­ro­co­mer­ci­ales (UPSA), Sol y Sombra Bar, Fe­de­ração dos Tra­ba­lha­dores em Ins­ti­tui­ções Fi­nan­ceiras do RS (Fe­trafi-RS); Sin­di­cato Na­ci­onal dos Ser­vi­dores Fe­de­rais da Edu­cação Bá­sica, Pro­fis­si­onal e Tec­no­ló­gica (Si­na­sefe-RS); Sin­di­cato dos Me­ta­lúr­gicos de Gua­ru­lhos; Fe­de­ração dos Co­mer­ciá­rios de Santa Ca­ta­rina; Con­fe­de­ração Equa­to­riana de Or­ga­ni­za­ções Sin­di­cais Li­vres (CEOSL); Sin­di­cato dos Co­mer­ciá­rios do Es­pí­rito Santo; Sin­di­cato dos Ho­te­leiros do Ama­zonas; Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores das Áreas de As­ses­so­ra­mento, Pe­rí­cias, In­for­ma­ções e Pes­quisa, e de Fun­da­ções Pú­blicas do Rio Grande do Sul (Se­mapi-RS); Fe­de­ração dos Em­pre­gados e Em­pre­gadas no Co­mércio e Ser­viços do Es­tado do Ceará (Fe­trace); Fe­de­ração dos Tra­ba­lha­dores no Co­mércio e Ser­viços da CUT Rio Grande do Sul (Fe­tracs-RS); In­ter­sin­dical, Cen­tral dos Tra­ba­lha­dores e Tra­ba­lha­doras do Brasil (CTB), Cen­tral Única dos Tra­ba­lha­dores do Pa­raná (CUT-PR); As­so­ci­ação dos As­sis­tentes So­ciais e Psi­có­logos do Tri­bunal de Jus­tiça do Es­tado de São Paulo (AASPTJ-SP), Fe­de­ração dos/as Tra­ba­lha­dores/as em Em­presas de Cré­dito do Pa­raná (FETEC-PR), Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores em Água, Re­sí­duos e Meio Am­bi­ente do Es­tado de São Paulo (Sin­taema-SP); Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores em Água, Re­sí­duos e Meio Am­bi­ente do Es­tado de Santa Ca­ta­rina  (Sin­taema-SC), Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores nas In­dús­trias da Cons­trução Pe­sada no Es­tado do Pa­raná (Sin­trapav-PR), Sin­di­cato dos Pro­fes­sores do En­sino Ofi­cial do Es­tado de São Paulo (Ape­oesp Su­deste-Centro), Sin­di­cato dos Es­cri­tores no Es­tado de São Paulo, Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores no Poder Ju­di­ciário Fe­deral de Santa Ca­ta­rina (Sin­tra­jusc-SC); Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores no Poder Ju­di­ciário do Es­tado de Santa Ca­ta­rina (Sin­jusc-SC), Sin­di­cato dos Tra­ba­lha­dores do Poder Ju­di­ciário Fe­deral em Per­nam­buco (Sin­trajuf-PE), man­datos po­pu­lares do ve­re­ador Werner Rempel (PCdoB/Santa Maria-RS) e da de­pu­tada fe­deral Ju­liana Car­doso (PT-SP) e de­zenas de con­tri­bui­ções in­di­vi­duais.

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