Revisão do texto pode alterar critérios legais e impactar quem pretende ingressar com pedido de nacionalidade em Portugal
A recente decisão do Tribunal Constitucional de Portugal sobre a Lei da Nacionalidade devolveu o texto ao Parlamento e acendeu um alerta para milhares de brasileiros que planejam obter a cidadania europeia. Embora o tribunal não tenha invalidado todo o projeto, ele apontou falhas em pontos específicos que ferem princípios de segurança jurídica. O impasse gera uma janela de incerteza, já que a nova redação pode trazer critérios mais rigorosos, como o aumento do tempo mínimo de residência legal para o reconhecimento do direito, endurecendo os requisitos em comparação ao que vigora hoje.
Para a advogada Rafaela Campos Abrahão, mestre em Ciências Jurídico Políticas e sócia do escritório Abrahão Advogados, o momento exige cautela e agilidade. “A revisão legislativa tende a ser mais benéfica apenas se comparada à última versão do projeto, mas não necessariamente em relação à lei que temos hoje, que é mais previsível e estável. Há uma sinalização clara de endurecimento em alguns critérios objetivos. Por isso, a orientação estratégica é ingressar com os pedidos agora, garantindo a aplicação das regras atuais antes que qualquer mudança restritiva entre em vigor”, explica.
Um dos temas mais sensíveis é o aproveitamento do tempo de manifestação de interesse, o período em que o imigrante aguarda a regularização, para completar os cinco anos necessários para a nacionalidade. O Tribunal Constitucional reconheceu que a demora nesse processo é uma falha do Estado e não do cidadão. “O tribunal abriu um caminho jurídico importante ao entender que punir o imigrante pela ineficiência administrativa de Portugal viola a proporcionalidade. No entanto, como essa contagem ainda depende de uma definição política do Congresso, o cenário futuro permanece incerto”, pontua a especialista.
O debate também atinge os netos de portugueses e as famílias que tiveram filhos em solo luso. Enquanto se discute a redução do tempo de residência dos pais para que o bebê tenha nacionalidade imediata, o que favorece o planejamento de quem se mudou recentemente, existe a pressão política para retomar critérios subjetivos de vínculos com a comunidade. Segundo a especialista, o Judiciário português tem resistido a conceitos vagos que geram insegurança. Hoje, para brasileiros, o domínio do idioma costuma ser o principal critério de ligação, e qualquer retrocesso nesse sentido deve enfrentar forte resistência jurídica.
Outro ponto de modernização que preocupa os candidatos é o uso de inteligência artificial na análise dos processos para acelerar as filas. De acordo com a análise do escritório Abrahão Advogados, a tecnologia é bem-vinda, mas não pode ser absoluta. “Nenhuma decisão negativa pode ser tomada exclusivamente por um algoritmo. A lei exige supervisão humana, fundamentação clara e o direito de defesa. Se um processo for indeferido apenas por robôs, sem uma análise concreta, ele é passível de questionamento judicial imediato”, alerta a advogada.
Atualmente, o volume de pedidos de nacionalidade em Portugal segue em alta, e a recomendação técnica é não esperar pelo desfecho das discussões parlamentares. Como os processos protocolados antes da nova lei seguem as regras do momento do envio, a antecipação funciona como uma blindagem jurídica. “Aguardar uma lei que ‘pode’ ser melhor é um risco alto. O tempo em Portugal é um ativo valioso; garantir o protocolo sob critérios conhecidos é o caminho mais seguro para evitar surpresas no meio do caminho”, conclui Rafaela.
Fonte: Rafaela Campos Abrahão — Empresária e advogada no escritório Abrahão Advogados | Mestre em Ciências Jurídico Políticas | MBA em Gestão de Negócios.


