Guerra no Oriente Médio pode encarecer alimentos no Brasil nos próximos meses

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O confronto envolvendo Irã e Estados Unidos, que se espalha pelo Oriente Médio, pode ter reflexos diretos no bolso do consumidor brasileiro. Economistas alertam que a escalada do conflito já começou a pressionar custos importantes da produção agrícola — e parte desse aumento pode chegar aos preços dos alimentos nos próximos meses.

Em menos de uma semana desde o início da crise, alguns insumos essenciais para o agronegócio já registraram alta, especialmente fertilizantes e custos logísticos.

Fertilizantes mais caros pressionam produção de alimentos

Um dos principais fatores de preocupação está no mercado de fertilizantes. O Brasil depende fortemente de adubos importados e parte relevante das matérias-primas vem de países do Oriente Médio.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a região aparece entre os maiores fornecedores de fertilizantes químicos ao Brasil. Apesar de não liderar o ranking — dominado por países da Europa e da Ásia — o Oriente Médio tem grande peso no mercado global.

Individualmente, países como Arábia Saudita, Israel, Omã, Catar e o próprio Irã aparecem entre os exportadores relevantes.

Mesmo não sendo os principais vendedores para o Brasil, esses países têm forte presença no comércio internacional. A região responde por cerca de 40% das exportações globais de ureia e 28% das vendas externas de amônia, o que faz qualquer instabilidade afetar rapidamente os preços.

O impacto foi quase imediato. De acordo com analistas do mercado, as cotações dos fertilizantes chegaram a subir entre 10% e 12% em apenas um dia após a escalada do conflito.

Além disso, o mercado já vinha pressionado por fatores como:

  • preparação do plantio de grãos nos Estados Unidos e na China
  • forte demanda da Índia
  • paralisações industriais no Irã por falta de gás natural

Com o agravamento da guerra, produtores da região suspenderam temporariamente vendas para entender melhor o cenário e avaliar preços, enquanto algumas fábricas reduziram a produção por receio de dificuldades no escoamento.

Impacto pode aparecer apenas na próxima safra

Apesar da alta nos preços, os produtores brasileiros não devem sentir imediatamente os efeitos no campo. Isso ocorre porque grande parte dos fertilizantes usados atualmente já foi comprada antecipadamente.

Especialistas indicam que o impacto tende a atingir principalmente as safras plantadas a partir do segundo semestre.

No Brasil, a compra de fertilizantes para o plantio de soja costuma ocorrer entre maio e julho. Já os fertilizantes nitrogenados — como a ureia — são adquiridos mais tarde, normalmente entre novembro e janeiro, para a safra de milho.

Mesmo que o país consiga buscar novos fornecedores, como o Canadá, analistas afirmam que os preços globais tendem a permanecer elevados.

Fechamento do Estreito de Ormuz encarece transporte

Outro fator que pressiona custos é a logística internacional. O Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do planeta, foi fechado pelo Irã durante o conflito.

Esse corredor liga grandes produtores de petróleo do Golfo — como Arábia Saudita, Irã, Iraque e Emirados Árabes Unidos — ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico.

A interrupção da rota não significa que o comércio será totalmente paralisado, mas força navios a utilizarem trajetos mais longos, elevando custos de transporte, seguros e fretes.

Esse aumento acaba impactando o preço de commodities e mercadorias em escala global.

Diesel mais caro aumenta custo no campo

O Oriente Médio também é uma região estratégica na produção de petróleo. Com o conflito, o preço do diesel pode subir — o que afeta diretamente o agronegócio.

O combustível é essencial para:

  • operação de tratores e máquinas agrícolas
  • transporte da produção até armazéns e portos
  • logística de exportação

A colheita da soja no Brasil, por exemplo, ocorre desde janeiro e parte da produção ainda está sendo transportada para exportação, o que pode elevar os custos logísticos.

Ainda assim, analistas destacam que a situação atual difere da crise energética provocada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, quando havia escassez global de petróleo. No cenário atual, o mercado trabalha com maior oferta, o que pode ajudar a amortecer parte das oscilações.

Exportações brasileiras também podem ser afetadas

Além de impactar os custos de produção, o conflito pode prejudicar as exportações do agronegócio brasileiro para o Oriente Médio.

Países da região são importantes compradores de produtos como carne de frango, carne bovina, açúcar e milho.

Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal, já existem cargas de carne em trânsito que precisaram ser redirecionadas para novas rotas.

Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita estão entre os principais compradores de frango do Brasil, junto com o Japão.

Com a mudança das rotas marítimas, as viagens podem ficar mais longas e caras. Empresas de transporte marítimo já começaram a aplicar uma chamada “taxa de guerra”, destinada a cobrir custos extras de seguro e armazenamento — especialmente importante para cargas refrigeradas.

Além disso, novas reservas de navios foram temporariamente suspensas por algumas companhias de transporte.

Consumidor pode sentir impacto mais adiante

Embora os efeitos para produtores e exportadores já estejam sendo percebidos, especialistas apontam que o impacto no preço dos alimentos para o consumidor tende a aparecer com atraso.

Isso ocorre porque os custos adicionais precisam primeiro se refletir na produção e na logística antes de chegar ao varejo.

Mesmo assim, alguns fatores ainda podem ajudar a conter a inflação alimentar no Brasil, como a queda recente do dólar e condições climáticas favoráveis para a produção agrícola.





Fonte: ICL Notícias

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