Medida amplia renda disponível de cerca de 15 milhões de contribuintes e tende a favorecer o consumo
fonte: ICL NOTICIAS

A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, além de descontos para rendas de até R$ 7.350, deve gerar um impulso relevante ao varejo em 2026. A expectativa é que o efeito já apareça nos balanços das empresas listadas na Bolsa brasileira a partir do primeiro trimestre.
A chamada Reforma da Renda deve alcançar entre 15 milhões e 18 milhões de declarações adicionais. Embora o valor individual liberado seja relativamente modesto — cerca de R$ 312 por mês para quem ganha até R$ 5 mil —, o alcance da medida amplia significativamente seu impacto agregado.
Em pronunciamento feito em cadeias de rádio e televisão em novembro passado, o presidente Lula (PT) afirmou que a isenção do IR deve injetar R$ 28 bilhões na economia. Ele disse, ainda, que a medida derruba o “vergonhoso” privilégio de a elite pagar proporcionalmente menos tributos.
“O Brasil mudou nessa última semana. Pela primeira vez, mais de cem anos após o início do Imposto de Renda, privilégios de uma pequena elite financeira deram lugar a conquistas para a maioria do povo brasileiro”, afirmou o presidente ao abrir o pronunciamento.
Estimativas do mercado apontam que a renda real disponível das famílias deve crescer 4,5% em 2026. Desse total, cerca de 0,6 ponto percentual decorre diretamente da isenção e dos descontos no IR, o que indica que a mudança tributária terá papel relevante no dinamismo do consumo.
Propensão ao consumo amplia efeito no varejo
A contrapartida da ampliação da isenção é o aumento da tributação sobre contribuintes de alta renda. Entre as medidas estão a retenção de 10% sobre dividendos pagos a pessoas físicas que recebem mais de R$ 50 mil por mês, a aplicação da mesma alíquota para dividendos enviados ao exterior e a criação de um imposto mínimo efetivo para rendas anuais superiores a R$ 600 mil, limitado a 10%.
Essas mudanças devem reduzir a renda disponível de um grupo estimado entre 140 mil e 150 mil pessoas. No entanto, a avaliação predominante é de que a perda nesse segmento não compensa, do ponto de vista do consumo agregado, o ganho nas faixas de renda mais baixas.
A explicação está na chamada propensão marginal a consumir. Entre famílias de baixa e média renda, esse indicador gira em torno de 70% — ou seja, de cada R$ 100 adicionais, R$ 70 tendem a ser direcionados ao consumo. Já entre indivíduos de alta renda, a propensão é muito menor, estimada em cerca de 5%.
Na prática, isso significa que a transferência líquida de renda favorece o varejo: a cada R$ 100 disponibilizados às faixas beneficiadas, R$ 70 devem retornar à economia via consumo, enquanto a retirada de R$ 100 dos mais ricos tende a reduzir apenas R$ 5 em gastos.
Injeção bilionária na economia
O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) estima que o alívio no Imposto de Renda deve injetar R$ 26,2 bilhões na economia. Desse montante, R$ 20,9 bilhões devem ser direcionados a trabalhadores do setor formal e R$ 5,3 bilhões a servidores públicos.
No curto prazo, a expectativa é de efeito líquido positivo e relevante sobre o consumo, com impacto perceptível ainda no primeiro semestre de 2026.
E o mercado imobiliário?
O setor de incorporação imobiliária costuma ser apontado como potencial beneficiário do aumento de renda, sob o argumento de que parte do recurso extra poderia ser direcionada a financiamentos habitacionais. No entanto, especialistas avaliam que o impacto tende a ser moderado.
No caso do programa Minha Casa, Minha Vida, há espaço para algum efeito nas faixas de renda intermediária, especialmente onde as prestações são tradicionalmente mais baixas. Ainda assim, o consenso é de que a demanda por imóveis depende de múltiplos fatores, como oferta de crédito, nível das taxas de juros e disponibilidade de subsídios públicos.
A avaliação predominante é que, embora o aumento de renda possa contribuir marginalmente para o setor, o varejo deve ser o principal beneficiado da mudança tributária, ao menos no curto prazo.


