A cada gestão municipal em Marília, o roteiro se repete: grandes empreendimentos imobiliários são celebrados como símbolos de progresso, enquanto milhares de moradores das favelas seguem esquecidos, sem políticas públicas efetivas de inclusão e dignidade.
O retrato do abandono
Em 2010, Marília contabilizava 23 favelas. Passados 15 anos, apenas quatro foram removidas (Jânio Quadros, Vila Altaneira, Linhão e Jardim Universitário). Persistem 19 assentamentos subnormais, somando 1.253 moradias — número que, na prática, já ultrapassa 10 mil pessoas vivendo em áreas precárias.
Vila Barros (292 unidades)
Argolo Ferrão (208 unidades)
Jardim Eldorado (Bronks e Bugrinho)
Padre Nóbrega (dividido em três núcleos)
Entre outros, todos em condições de risco e sem infraestrutura básica.
Nove desses assentamentos estão em áreas de proteção ambiental permanente, revelando não apenas abandono social, mas também descaso ambiental.
O contraste cruel
Enquanto o povo pobre é deixado à margem, com dinheiro da Caixa Federal se erguem edifícios residenciais monumentais, que se tornam verdadeiros “palácios de concreto” para a elite.
A “Outorga Onerosa do Direito de Construir”, instrumento jurídico que deveria financiar o desenvolvimento urbano, não é revertida em políticas habitacionais.
Não existe lei específica que regulamente o conselho de habitação.
O resultado é claro: favela não é prioridade, é apenas voto.
A crítica necessária
O abandono das favelas em Marília não é fruto de incapacidade técnica, mas de escolha política.
Prefeitos e vereadores preferem investir em obras que rendem visibilidade e agradam ao setor imobiliário.
A população pobre é lembrada apenas em época de eleição, quando sua miséria se transforma em capital político.
A ausência de políticas públicas de habitação perpetua a desigualdade e reforça a segregação urbana.
Marília é hoje um exemplo de como o poder público pode ser cúmplice da exclusão. A cidade que ergue prédios luxuosos para poucos é a mesma que mantém milhares de famílias em barracos inseguros, sem saneamento, sem transporte decente e sem perspectiva de futuro. Favela não pode ser apenas voto. Favela é vida, é gente, é direito à cidade.


