Por Gabriel Gomes
Quando as sirenes tocarem na Marquês de Sapucaí, Sambódromo do Rio de Janeiro, às 22h deste domingo (15), a Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial, estará fazendo história: será a primeira escola de samba da folia carioca a homenagear um presidente da República em atividade no cargo. A escola levará para a avenida o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O enredo da Acadêmicos de Niterói foi alvo de críticas por parte da oposição ao governo Lula, que afirma que se trata de um desvio de finalidade para promover autoridades e uma suposta campanha eleitoral antecipada. Parlamentares questionaram o repasse de verbas públicas, que são destinadas para todas as escolas, mas o Tribunal de Contas da União (TCU) liberou os fundos após não constatar favorecimento. A senadora Damares Alves (Republicanos) protocolou uma denúncia no Ministério Público Eleitoral e o partido Novo entrou com uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Até o momento, todas as ações foram rejeitadas.

A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, desfilará em um carro alegórico no desfile. A atriz, cineasta e apresentadora do programa Precisamos Conversar, do canal ICL, Juliana Baroni vai representar a ex-primeira-dama Marisa Letícia. Juliana reviverá a personagem que interpretou no cinema em 2009.
O ICL Notícias conversou com o compositor Paulo César Feital, um dos autores do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói. O compositor deu detalhes da homenagem feita pela escola e rebateu as críticas or parte da oposição ao governo Lula. “Não é propaganda, é narrativa histórica”, definiu. Além de Feital, também participaram da composição do samba a cantora Teresa Cristina, André Diniz, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr.
“A reação já era esperada. Basta ouvir o samba. Não há propaganda em momento algum. Ele não pede voto, não exalta governo, não faz campanha. Ele conta uma história de vida. Quem diz o contrário ou não ouviu o samba, ou age de má-fé”, diz o compositor. “As reações já eram esperadas, e seguimos firmes. Quem acredita na democracia vai compreender a mensagem”, completa Paulo César Feital.
O compositor rebateu às críticas feitas pela senadora Damares Alves ao enredo da Acadêmicos da Niterói, com referência a um episódio em que a parlamente, que é pastora, durante uma pregação, disse que havia encontrado “Jesus em cima de um pé de goiaba”.
“É uma imbecilidade. Uma mulher que diz que viu Jesus na goiabeira, o que eu vou esperar?”, rebateu Paulo César Feital ao ICL Notícias.

Leia a entrevista com Paulo César Feital, um dos compositores do samba
ICL Notícias – Você é um dos autores do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói para 2026. Como foi o processo de criação desse samba e que mensagem ele pretende transmitir?
Paulo César Feital – Esse samba nasceu a partir de um convite da Acadêmicos de Niterói, o que já foi um prazer enorme, até porque o enredo tem tudo a ver comigo e com a minha trajetória. É um samba descritivo da vida de Luiz Inácio Lula da Silva, contado a partir da voz da mãe dele. E isso foi fundamental. Não é um samba de propaganda. É um samba narrativo, que fala da história de vida, da caminhada, das dificuldades e da formação dele como personagem histórico.
Acredito que deu muito certo porque é um samba que caiu na boca do povo. Ele é cantado, comunicativo, emocional, e isso é essencial em um samba-enredo.
O samba traz passagens que falam da luta contra a ditadura e cita personagens históricos. O que isso representa para você, pessoalmente, que lutou contra o regime militar?
Representa muito da minha própria vida. Eu participei ativamente da luta contra a ditadura, estive nas ruas, vivi esse período intensamente. O samba fala de ‘Zuzu Angel, Henfil e Wladimir’, eu pensei em colocar outros lutadores da época, mas não dá, senão ele ficaria enorme.
Minha vida sempre foi essa: a luta pelo Estado Democrático de Direito, não só no Brasil, mas no mundo. Por isso, eu acho que esse samba fala muito com o momento atual, de forma universal.
O samba recebeu elogios, mas houve críticas. Como você vê isso?
Isso era absolutamente esperado. Vivemos num país extremamente polarizado. Houve críticas muito boas do ponto de vista técnico e artístico, mas também ataques ideológicos, inclusive ofensivos. Eu até comentei: se fosse um enredo sobre Trump, Hitler ou qualquer outro personagem controverso, as contradições também apareceriam.
Esse samba tem tudo a ver comigo, com a nossa parceria, com a comunidade, com Niterói. Para mim, é uma honra enorme ter feito esse samba para a Acadêmcios de Niterói.
Vocês chegaram a se encontrar com o presidente Lula no Palácio da Alvorada. Como foi esse encontro e a reação dele ao samba?
Foi emocionante. O encontro estava previsto para 30 minutos e acabou durando quase duas horas. Quando o presidente começou a ouvir o samba, ele caiu em prantos, chorou muito. Virou uma verdadeira roda de samba no Palácio da Alvorada.
Ele se comoveu profundamente porque o samba é contado pela mãe dele. É uma história real: uma mulher que sai do Nordeste a pé, com os filhos, em busca de sobrevivência em São Paulo. Aquilo tocou muito ele — e a todos nós. Foi um momento muito bonito.
O refrão já caiu no gosto popular. O que vocês esperam da reação do público e também daqueles que são contrários ao presidente Lula?
Reação contrária sempre vai haver, isso é óbvio. O país está polarizado. Mas tecnicamente o samba é muito forte: é extremamente cantado, tanto na avenida quanto na arquibancada. Isso é incontestável.
O que a gente vê hoje é um confronto diário entre a luta pelo bem-estar social e a ignorância, entre democracia e autoritarismo. E o samba se posiciona claramente do lado da democracia.
Alguns críticos dizem que o samba seria uma peça de propaganda política. Como você responde a isso?
É uma imbecilidade. Uma mulher que diz que viu Jesus na goiabeira, o que eu vou esperar? A reação já era esperada. Basta ouvir o samba. Não há propaganda em momento algum. Ele não pede voto, não exalta governo, não faz campanha. Ele conta uma história de vida. Quem diz o contrário ou não ouviu o samba ou age de má-fé.
As reações já eram esperadas, e seguimos firmes. Quem acredita na democracia vai compreender a mensagem.
Quais são suas expectativas para o desfile?
Espero um desfile sério, bonito, alegre, feito com dignidade. Que a escola passe bem e consiga permanecer no Grupo Especial. Essa é a grande esperança. A Acadêmicos de Niterói tem mostrado muita força e união, e isso é fundamental.
Há algum trecho do samba que você considera especial?
Eu não tenho um trecho preferido. Acho o samba inteiro muito bonito. Ele é muito bem construído poeticamente, desde o início da trajetória, passando pelo sindicalismo, pelas lutas, pelas derrotas e vitórias. É um samba coeso, forte, e que cumpre o papel de emocionar.
Fonte: ICL Notícias


