ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x
Por Cleber Lourenço
Nikolas Ferreira se apresenta cada vez menos como parlamentar e cada vez mais como incendiário. Sua função, que deveria ser a de legislar em benefício da sociedade brasileira, foi substituída por uma rotina de discursos inflamados, campanhas de perseguição e incentivo à instabilidade. O que deveria ser trabalho em defesa da população virou um projeto pessoal de promoção nas redes, sustentado pelo caos e pelo confronto permanente. O mandato se converteu em palco, e o plenário em estúdio para performances que buscam engajamento, não soluções.
Com Bolsonaro condenado e preso, Nikolas perdeu o fiador político que lhe dava sustentação. A família Bolsonaro não disfarça o incômodo com sua tentativa de se projetar como sucessor. O herdeiro natural não é reconhecido pelos antigos aliados e, para piorar, carrega uma rejeição interna cada vez mais explícita.
Nesse ponto, a análise do analista de redes Pedro Barciela é precisa: “os dados mostram que esse movimento do bolsonarismo é muito mais uma reação de um cluster que busca reaglutinar a tropa do que uma ofensiva propositiva do cluster bolsonarista. Quando Nikolas Ferreira, o deputado com maior influência nas redes e do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro opta por, deliberadamente, não citá-lo nos quatro dias seguintes após a condenação mesmo tendo feito mais de 46 tweets, isso acende um sinal amarelo não apenas no núcleo duro bolsonarista, mas também na própria família Bolsonaro.
Se fizermos o exercício inverso, e pensarmos algo similar com Lula em 2018, de um ator central petista sequer se manifestar nos dias após o julgamento do TRF, isso seria inimaginável e desencadearia uma série de análises na imprensa sobre o abandono do ator condenado em questão. Soma-se isso ao fato de, anteriormente, já terem sido publicizados uma série de atritos entre familiares do ex-presidente e o próprio Nikolas Ferreira, acusado de negligenciar a defesa de Jair Bolsonaro.”
Sem apoio interno e sem a bandeira da anistia — inviável jurídica e politicamente — restou-lhe apenas o recurso da radicalização. Ele sabe que, se a anistia for aprovada, cairá no Supremo. Ainda assim, insiste no tema como se pudesse enganar sua base e manter viva a sensação de perseguição. É uma vitrine vazia, mas que serve de palanque, uma encenação que substitui substância por narrativa.
O episódio da portaria das fintechs mostrou o quanto esse caminho pode ser perigoso. Ao explorar a mentira de que haveria “imposto no Pix”, Nikolas ajudou a criar a pressão que derrubou a medida. O resultado foi abrir espaço para que facções como o PCC movimentassem bilhões por fora do sistema bancário. Em vez de contribuir para fechar brechas, o deputado ajudou a ampliá-las.
Um representante eleito, que deveria proteger a sociedade, terminou vinculado a um processo que fortaleceu o crime organizado. A imagem de quem se diz defensor da família brasileira foi corroída por sua própria irresponsabilidade, e cada operação da Polícia Federal que revela o alcance das facções reaviva a lembrança de sua participação nesse erro coletivo.
Como resposta, Nikolas decidiu dobrar a aposta. Ao comemorar os protestos violentos no Nepal e sugerir que aquele cenário deveria servir de exemplo para o Brasil, o deputado deixou de ser apenas crítico para se tornar propagandista da instabilidade. Transformou a tragédia de outro país em combustível para sua narrativa, como se a desordem alheia pudesse ser importada como projeto político doméstico. Aplaudiu mortos e feridos em nome de um ideal de ruptura, sem qualquer preocupação com o significado humano do que exaltava. Um parlamentar deveria buscar soluções, mas Nikolas prefere sonhar com o incêndio, como se a fumaça de ruas em chamas fosse o espetáculo ideal para suas redes.
A perseguição a brasileiros que se manifestaram nas redes completa o quadro. Ao expor nomes e pressionar empresários a demitir funcionários por opinião política, Nikolas assumiu papel inquisitorial, incompatível com o mandato. Usou a tragédia do assassinato de Charlie Kirk, nos Estados Unidos, para justificar sua cruzada, incentivando demissões e cancelamentos como se fossem política pública. O gesto não fortalece instituições nem contribui para o debate democrático; apenas alimenta o clima de medo. Tornou-se censor digital, delegado moral de uma cruzada pessoal que nada tem a ver com legislar ou representar o povo.
O que se vê é um deputado que renunciou à responsabilidade de legislar para assumir a função de agitador. Um parlamentar eleito deveria propor leis, fiscalizar o Executivo e pensar soluções para problemas concretos: saúde, educação, segurança pública e meio ambiente. Nikolas, ao contrário, prefere insuflar uma guerra cultural permanente, apostando que a conflagração lhe renderá mais likes do que qualquer projeto aprovado no plenário.
O Brasil não precisa de representantes que agem como influenciadores radicais, mas de políticos comprometidos com estabilidade, governabilidade e futuro. Cada minuto gasto em discursos de ódio é um minuto roubado do trabalho legislativo que deveria melhorar a vida de milhões de brasileiros.
Para o advogado André Mateus, especialista em liberdade de expressão e defensor de uma das vítimas da perseguição empreendida por Nikolas, o deputado tem utilizado o peso do mandato, o prestígio político e o alcance nas redes para fomentar perseguições de cunho ideológico, chegando a representar cerceamento da liberdade de expressão. Pessoas que ousaram criticar Donald Trump tornaram-se alvo de ataques, e o parlamentar teria inclusive encaminhado dados de cidadãos brasileiros a um governo estrangeiro, solicitando que fossem perseguidos. Essa postura, afirma, é incompatível com a função pública e ameaça corroer os limites da convivência plural.
A pesquisadora Letícia Oliveira, que monitora há mais de uma década a atividade de células neonazistas na internet, destaca que a atuação transnacional da extrema direita tem se manifestado em diferentes episódios, como as manifestações no Nepal, o assassinato da refugiada ucraniana Irina Zarutskaya nos Estados Unidos e o assassinato de Charlie Kirk.
Segundo ela, os grupos exploraram cada caso de acordo com sua conveniência: no primeiro, atacando a esquerda por supostamente proteger criminosos; no segundo, incentivando perseguições à esquerda e pedindo a revogação de vistos de críticos, em articulação internacional. Para Letícia, esse processo demonstra que a postura de Nikolas está inserida em um movimento mais amplo da extrema direita global, que utiliza tragédias como combustível para perseguições políticas e para disseminar intimidação nas redes.

A escolha de Nikolas é clara: trocar a função de servidor público pela de agitador digital. Sem compromisso com a sociedade e apoiado apenas na própria vaidade, ele decidiu arriscar tudo na instabilidade. Com Bolsonaro preso, a anistia inviabilizada e sua imagem fragilizada pelo episódio das fintechs e o elo com o PCC, Nikolas passou a depender do radicalismo para se manter em evidência. Para o país, isso significa riscos que nenhum parlamentar responsável deveria cogitar.
Hoje, aliados e adversários reconhecem que sua atuação se afasta do papel institucional de legislador e reforça a imagem de quem aposta no medo e na desordem, levantando questionamentos concretos sobre sua contribuição ao Parlamento e sobre os limites de sua representação política.
O sociólogo Orlando Calheiros destaca que a questão central em torno de Nikolas é a manutenção de sua relevância. Segundo ele, os demais perceberam que não conseguem avançar com suas próprias pautas, em grande parte devido ao próprio Bolsonaro, e estão sendo afetados pela imagem de extremista do ex-presidente. A anistia, por exemplo, já provoca desgaste até em parlamentares do centrão, obrigados a adotar um discurso ambíguo em público para evitar prejuízos.
Nesse contexto, Nikolas usa seu aparato midiático para se manter em evidência e tentar transferir a imagem de radicalismo tanto para a direita quanto para a esquerda. Mesmo que não obtenha pleno sucesso, a estratégia já cumpre o papel de corroer votos e manter sua figura em debate. Calheiros lembra ainda que há uma parcela conservadora, especialmente evangélica, que rejeita a violência política, razão pela qual nomes como Damares Alves e Michelle Bolsonaro eram usados para tentar suavizar a imagem do ex-presidente.
O deputado Rogério Correia, também de Minas Gerais, reforça a crítica: enquanto Nikolas persegue trabalhadores e adversários chamando-os de ‘extremistas’, é ele próprio quem flerta com o fascismo. Correia lembra que neonazistas elogiam suas falas e que o deputado utiliza símbolos apropriados por supremacistas brancos. A estratégia de usar o humor como isca, de disfarçar a incitação ao ódio e convocar seguidores para hostilizar adversários já teve consequências graves no Brasil, como atentados frustrados em aeroportos e episódios de violência inspirados em símbolos nacionalistas.
Para o parlamentar, Nikolas não exerce mandato para representar o povo, mas para transformar a política em espetáculo de ódio e instabilidade. Ao flertar com a retórica de ‘guerra civil’, deixa claro que busca confronto, não diálogo. O bolsonarismo que Nikolas encarna, conclui Correia, já deixou de ser uma corrente conservadora para se tornar uma vertente fascista que precisa ser contida pelas instituições democráticas e pela lei.
Fonte: ICL Notícias


