O que dizer de um país onde a morte é celebrada como vitória? Onde uma operação policial que deixa 120 corpos no chão é tratada como um troféu político? No Brasil, isso não é apenas possível. É real. E foi aplaudido.
A recente operação no Rio de Janeiro, que resultou na morte de mais de uma centena de pessoas, foi apresentada como um feito de força e autoridade. O governador do estado, em vez de lamentar a tragédia, exibiu os números como um cartão de visitas, um selo de eficiência para recuperar sua popularidade em queda livre. E conseguiu. O saldo de sangue virou combustível para sua imagem pública. O que deveria ser um luto coletivo foi transformado em espetáculo.
O mais estarrecedor, porém, foi o cenário onde essa celebração ganhou aplausos: uma missa. Dentro de uma igreja cristã — espaço que deveria ser sagrado, de acolhimento e compaixão —, os fiéis aplaudiram a matança. Aplausos que não homenageavam a paz, mas a execução. Aplausos que ignoraram o desespero de 120 mães, cujos filhos foram enterrados sem direito à dúvida, à defesa, à dignidade.
Esses caixões empilhados não foram apenas o fim de vidas. Foram transformados em palanque. Em símbolo de uma política de segurança pública que não busca proteger, mas punir. Que não investiga, mas extermina. Que não se importa com a dor, desde que ela renda votos.
A lógica é perversa: quanto mais mortos, mais manchetes; quanto mais manchetes, mais aprovação. A morte virou métrica de sucesso. E se as mães choram, que engulam suas lágrimas — porque o que importa é o Ibope em alta. A vida humana, nesse jogo, é descartável. Um detalhe incômodo no caminho do poder.
Não se trata aqui de ignorar a violência real que assola o Rio de Janeiro. Mas de denunciar a resposta desumana, ineficaz e profundamente desigual que o Estado oferece. Porque os mortos têm CEP. Têm cor. Têm classe. E isso não é coincidência — é projeto.
A segurança pública foi sequestrada por uma lógica de guerra. Uma guerra que não é contra o crime, mas contra os pobres. Uma guerra que não se vence com inteligência, mas com espetáculo. E o espetáculo precisa de sangue.
Vivemos em um país onde a hipocrisia se traveste de moral, onde a mediocridade se disfarça de eficiência, onde a barbárie é vendida como solução. Um país onde a política se alimenta da morte — e a sociedade, anestesiada, aplaude.
Essa não é apenas uma tragédia. É um sintoma. De um Brasil que perdeu o rumo, a empatia e a vergonha.


