É cada vez mais comum ver prefeituras investindo cifras milionárias em publicidade institucional, campanhas de imagem e ações de marketing político — enquanto postos de saúde enfrentam falta de médicos, escolas operam com infraestrutura precária e programas sociais são deixados à míngua. A incoerência é gritante: gasta-se como se houvesse abundância, mas governa-se como se não houvesse recursos para o básico.
A justificativa oficial costuma ser a mesma: “transparência”, “prestação de contas”, “informar a população”. Mas o que se vê, na prática, é uma avalanche de anúncios, vídeos bem produzidos, outdoors e redes sociais recheadas de slogans — enquanto o cidadão comum enfrenta filas intermináveis por atendimento médico, salas de aula superlotadas e ausência de políticas públicas que realmente mudem sua realidade.
Em muitos municípios, os gastos com publicidade superam os investimentos em áreas como assistência social, cultura e até manutenção de unidades de saúde. E quando a população cobra melhorias, a resposta vem pronta: “A prefeitura está quebrada”. Quebrada para contratar pediatras, mas não para pagar agências de comunicação. Quebrada para reformar escolas, mas não para bancar campanhas de autopromoção.
Essa inversão de prioridades revela um modelo de gestão que privilegia a aparência em detrimento da essência. O foco está em construir narrativas, não em resolver problemas. E o resultado é uma população cada vez mais descrente, mais vulnerável e mais distante dos direitos que lhe são garantidos por lei.
É preciso que os órgãos de controle — como os Tribunais de Contas e o Ministério Público — fiscalizem com rigor esses gastos. E mais do que isso: é preciso que a sociedade esteja atenta, que questione, que cobre. Porque enquanto a publicidade brilha, o povo sofre em silêncio.


