A América do Sul está passando por uma renovação de governantes. Os casos mais recentes são a ascensão de Keiko Fujimori no Peru e a de Alberto de la Espriella na Colômbia. Triunfo da extrema direita? Vejamos.
Na Argentina, Milei se aproxima das eleições do próximo ano em queda nas pesquisas, especialmente entre o eleitorado jovem que lhe garantiu a vitória, com uma economia voltada para as matérias-primas (ou seja, centrada em commodities e alimentos) e uma população prejudicada em seu poder de compra devido aos cortes e às medidas de austeridade. No Peru, Keiko obteve 17% dos votos no primeiro turno e venceu no segundo por uma margem estreita graças aos “votos emprestados”. Sua proposta: “reorganizar” o país e recuperar o crescimento de outrora. A sombra do pai não se dissipa e, para governar, ela precisará que seu partido plebeu se alie à oligarquia de Lima.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático – ASEAN em Kuala Lampur, Malásia.
(Foto: Ricardo Stuckert / PR)
A Colômbia está politicamente dividida, mas é mais do que provável que o novo governo se reconcilie com Washington em termos políticos e militares. Ao lado, a cada dia que passa, o virtual protetorado venezuelano se consolida, enquanto María Corina sofre com o desdém imperial. Rodrigo Paz enfrenta o afastamento de Samuel Doria e, por outro lado, enfrenta a desconfiança dos movimentos sociais que outrora eram agrupados pelo MAS. O Paraguai persiste em seu regime de partido de Estado, e o Uruguai dá exemplo de tolerância, civilidade e alternância. O Equador manterá seu ritmo, agora apoiado por seus vizinhos.
O mais importante: Lula surge como favorito após a passagem de Milei, com seu rastro de insultos e intromissão no processo eleitoral brasileiro. Até aqui, alguém já ouviu falar do pêndulo? É verdade que a América do Sul está longe de drones e mísseis, mas seus efeitos políticos e econômicos a atingem.
Perspectivas
Diante desse quadro, restam duas questões políticas pendentes: as eleições parlamentares nos Estados Unidos e as presidenciais no Brasil. Uma derrota de Trump criaria um cenário difícil para aqueles governos que optaram por seguir cegamente o MAGA, e mais de um comentarista ou assessor aprenderá que, na política, às vezes os amores nem sempre são correspondidos. Acrescentemos que, no Brasil, o novo governo será mais do Lula do que do PT.
Para um pequeno país austral, aberto ao comércio mundial, a lição é que não adianta se apaixonar por ideias e é mais prático analisar a realidade, sair do provincialismo e assumir que, como diziam “Los Iracundos”, “o mundo está mudando”.
(*) Gabriel Gaspar é cientista político, ex-embaixador do Chile na Colômbia e em Cuba e ex-embaixador da Missão Especial pela Demanda Marítima boliviana na Corte Internacional de Haia. Foi vice-ministro da Defesa, Forças Armadas e Guerra. É analista político e colunista.



