Uma nova pesquisa científica indica que bactérias presentes no intestino podem influenciar diretamente a força e o desempenho muscular. O estudo, ainda preliminar, identificou que microrganismos da microbiota intestinal estão associados a melhor contração muscular, resistência e capacidade física, abrindo caminho para novas abordagens no combate à fraqueza muscular, especialmente em idosos.
Entenda
- Relação entre intestino e músculos: o estudo reforça a existência do chamado “eixo intestino-músculo”, em que bactérias intestinais produzem substâncias capazes de impactar o metabolismo e a função muscular.
- Bactéria em destaque: entre os microrganismos analisados, a Roseburia inulinivorans apresentou a associação mais consistente com maior força muscular em humanos e camundongos.
- Impacto na saúde: a perda de massa muscular está ligada a riscos como quedas, fragilidade e redução da mobilidade, principalmente na população idosa.
- Potencial terapêutico (com cautela): apesar dos resultados promissores, ainda são necessários mais estudos para confirmar a segurança e a eficácia do uso da bactéria como tratamento.
Detalhes do estudo
A investigação foi conduzida por pesquisadores europeus e analisou dados de 123 pessoas, entre jovens e idosos. Borja Martinez-Tellez, investigador principal da Universidade de Almería, na Espanha, e responsável pelo novo estudo realizado durante seu pós-doutorado no Centro Médico da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, explica que o interesse por bactérias intestinais para melhorar o desempenho muscular foi impulsionado por volta de 2018.
No estudo em questão, a presença de bactérias do gênero Roseburia foi comparada a diferentes indicadores de força muscular. Os resultados mostraram que indivíduos com maior abundância dessas bactérias apresentaram melhor desempenho físico.
Entre os idosos, a presença da R. inulinivorans esteve relacionada a maior força de preensão manual. Já entre os mais jovens, a bactéria foi associada a melhor desempenho em exercícios como supino e leg press.
Os cientistas também realizaram testes em camundongos. Após terem a microbiota reduzida por antibióticos, os animais foram divididos em grupos e suplementados com diferentes bactérias. Aqueles que receberam R. inulinivorans apresentaram aumento de até 30% na força, reforçando os achados observados em humanos.
Segundo os pesquisadores, uma das explicações para esse efeito está na capacidade dessas bactérias de produzir metabólitos que aumentam a produção de energia e estimulam o crescimento das fibras musculares.
Apesar dos resultados, os próprios autores destacam que ainda não é possível transformar a descoberta em tratamento. São necessárias novas etapas para avaliar segurança, possíveis efeitos colaterais e a eficácia em humanos em larga escala.
Além disso, o estudo reforça que o exercício físico continua sendo a principal estratégia para ganho de força muscular.
Relação entre intestino e desempenho físico
Na prática clínica, especialistas já observam essa conexão entre intestino e desempenho físico. O coloproctologista Danilo Munhóz explica que o conceito de intestino como centro regulador do organismo vem ganhando força na ciência.
“O intestino não é apenas um órgão digestivo, ele funciona como um verdadeiro centro de regulação do organismo. Pacientes com intestino desregulado frequentemente relatam fadiga, menor disposição e pior rendimento físico”, afirma.
Segundo ele, uma microbiota equilibrada contribui para melhores respostas metabólicas e inflamatórias, refletindo diretamente na energia e no desempenho do corpo.
Munhóz destaca ainda que cuidados simples podem influenciar esse equilíbrio. “Quando orientamos uma alimentação rica em fibras, consumo adequado de água e uso estratégico de prebióticos, não estamos cuidando apenas da evacuação, mas modulando um ecossistema que impacta todo o corpo”, explica.
Para o especialista, o estudo reforça um conceito já consolidado: “Um intestino saudável influencia energia, imunidade, inflamação e agora também a função muscular, mostrando que saúde intestinal é, de fato, saúde sistêmica”.
Fonte: Metrópoles
















