Pressão e ingerência: o que os EUA de Trump querem para o Brasil

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Desde que Donald Trump voltou ao poder, em 2025, nos Estados Unidos, paira sobre a América Latina um medo conhecido de outros tempos: de que Washington volte a se convencer de que os países latinos não passam de uma espécie de extensão estadunidense, e de que praticamente qualquer intervenção seria justificada aos olhos dos EUA. 

Entender o que os Estados Unidos de Trump e de Marco Rubio, seu secretário de Estado, querem para a América Latina é coisa especialmente complexa, tanto pelas transformações estruturais e conceituais da ordem internacional vigente, com os EUA em descendência aberta, quanto pela própria personalidade de Trump. Se o primeiro mandato do republicano (2017-2021) pode ter servido como ensaio, o segundo, até agora, vem sendo a própria confirmação, aos olhos das principais lideranças globais, de como Trump é afeito a um modo de exercício de poder mais marcado pela intimidação e pela ameaça explícita do que pela liderança, a influência e a diplomacia tradicional. Inclusive, contra o Brasil.

Em conversa com o Brasil de Fato, a professora Ana Carolina Marson, doutora em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), explica que, no jogo geopolítico, há duas forças divergentes. De um lado, a vontade estadunidense de se impor. De outro, a postura do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não aceitar qualquer violação à soberania brasileira, cuja integridade contribui para que as ações brasileiras no sistema internacional sejam vistas com legitimidade.

Eis o caso da classificação de organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). O governo Lula defende ações coordenadas de combate às atuações dos grupos, mas os EUA querem dar um passo além: classificaram os grupos como terroristas, em uma manobra retórica que abre brecha para que as forças estadunidenses atuem diretamente contra as organizações, o que põe em risco a soberania nacional.

“Um dos elementos principais na reedição dessa estratégia tem sido o de, por um lado, utilizar o conceito de narcoterrorismo como um dos principais eixos de atuação dos Estados Unidos na região. Em segundo lugar, ter uma postura mais coercitiva com relação aos estados recalcitrantes que se neguem a cooperar com os Estados Unidos, seja na área de política de segurança, seja em outras áreas. Inclusive, a própria National Security Strategy é bem enfática em dizer que os Estados que não cooperarem com os Estados Unidos irão sofrer consequências”, diz, ao Brasil de Fato, o professor João Estevam dos Santos Filho, da Universidade Anhembi Morumbi e pesquisador do INCT-INEU.

Para ele, as ações de Washington obedecem à estratégia de criar um enquadramento regional do Brasil e envolvem eixos como a regulação das plataformas das big techs pelo Judiciário Brasileiro, o estímulo às redes internacionais de extrema direita e a própria interferência no processo eleitoral.

O Brasil resiste: recusou-se a integrar o Escudo das Américas e a tratar facções do crime organizado como grupos terroristas, além de manter a cooperação com China e Rússia, que a estratégia estadunidense vê como “inimigos e intrusos no hemisfério ocidental”, segundo Estevam.

Por que os EUA agem como agem? A incerteza como regra de conduta

Os Estados Unidos sabem bem o que é conseguir fazer com que outras nações cedam. Ao longo da história, essas conquistas, a depender se feitas por republicanos ou democratas, podem ter uma diferença de método, mas os fins, geralmente, são os mesmos. No caso de Trump, o verniz diplomático parece coisa do passado, e a noção de que “eu mando, eu posso” não se esconde. 

“Trump é uma pessoa que gosta de negociar a partir de uma relação de desigualdade, o que não é uma negociação, porque o próprio conceito de negociação indica ceder alguma coisa. Ao invés de negociar, o que Trump quer mesmo é apontar o que quer e ser atendido”, explica a professora Ana Carolina Marson. 

Exemplo maior dessa prática, no caso brasileiro, tem a ver com as tarifas. Não foi pequena a mobilização do corpo diplomático brasileiro, assim como de parte do setor produtivo do país, a fim de convencer Washington de algo elementar: que os EUA não são deficitários no comércio com o Brasil e que, se o saldo da balança comercial for mesmo o fio condutor das tarifas de importação, o Brasil não deveria ser prejudicado. Com idas e vindas, o argumento praticamente não prosperou. No mês passado, Washington confirmou duas novas tarifas sobre produtos brasileiros, resultando em uma alíquota total de 37,5%. Depois de ir a Washington e tentar negociar por todas as vias diplomáticas desde o ano passado, Lula decidiu retaliar

A diferença fundamental é que Brasil e Estados Unidos têm visões diferentes sobre parcerias comerciais. Para o Brasil, a China é a fonte principal de um comércio cuja corrente de negócios alcançou US$ 113,99 bilhões de janeiro a julho deste ano, com um superávit (para o lado brasileiro) de US$ 24,06 bilhões. Além disso, o Brasil vem sendo o principal destino dos investimentos chineses, segundo levantamento publicado no início do ano pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Pese-se, ainda, as tantas parcerias no marco do Brics e os projetos compartilhados de infraestrutura.

Já para Washington, a China não é menos que a maior ameaça à prosperidade estadunidense no século 21, segundo diagnóstico feito por Rubio, um habitual crítico de Pequim, poucos dias antes de assumir a cadeira principal da diplomacia dos EUA. “Se não mudarmos de rumo, viveremos num mundo em que muito do que é importante para nós diariamente, desde a nossa segurança até a nossa saúde, dependerá de os chineses nos permitirem tê-lo ou não”, afirmou.

Ali, já se escancarava a ideia de que o novo governo Trump teria como missão número um conter a China. Algo, reconheça-se, já feito por governos democratas. Vale lembrar que o ex-presidente Joe Biden foi o primeiro em anos a não visitar Pequim. Mas levando a um outro patamar por Trump 2. A lógica pode parecer precária, mas prevalece: a China, para Washington, deve se afastar da América Latina e, em especial, do Brasil. 

Quanto à América Latina, o próprio Trump reverbera a tese de que os países da região devem (se necessário, à força) ser guiados pela batuta de Washington. Há poucos dias, o perfil oficial do governo do republicano publicou nas redes sociais um vídeo em que defende a ideia de que “a dominância das Américas nunca será questionada de novo”.

Que os Estados Unidos aplicaram por muito tempo uma orientação estratégica conhecida como Doutrina Monroe, que funcionava como uma espécie de recado às potências europeias sobre o tamanho da influência estadunidense sobre os países latinos, não é nenhuma surpresa. Nem que foi o Washington o principal responsável pelo estímulo aos golpes militares de direita promovidos na segunda metade do século 20, sob o argumento explícito de que queria mesmo era conter os anseios da antiga União Soviética. Agora, o potencial “inimigo” (como os EUA tratam) é a China, que, continuamente, se consolida como a principal parceira comercial de vários países da região, incluindo o Brasil.

O Brasil funciona como o rei nesse jogo de xadrez. Trata-se do país mais rico da América Latina e aquele que possui recursos minerais de alto valor no contexto da disputa tecnológica entre Washington e Pequim. Há, ainda, um componente político determinante: o governo Lula (PT), ao contrário de governos de lideranças como Javier Milei (Argentina), Abelardo de la Espriella (Colômbia), Santiago Peña (Paraguai) e outros, passa longe de atuar como uma espécie de filial de primeira ordem dos Estados Unidos.

Se esses motivos já são suficientes para que o Brasil seja alvo preferencial, o imbróglio ganha ainda mais força pelo fato de que o principal candidato de oposição ao petista, o senador Flávio Bolsonaro (PL), já deu todas as mostras de que, caso eleito, estará pronto para atuar ao melhor gosto estadunidense, ainda que a soberania nacional fique em segundo plano.

Eleições 2026: quem decide está de fora?

A eleição presidencial deste ano, já em curso, há um tempo vem sendo tratada como o evento mais importante nesse emaranhado geopolítico. Formalmente, os EUA dizem que respeitarão qualquer que seja o candidato vencedor, mas o apoio à plataforma política de Flávio Bolsonaro é mais que conhecido.

Nesse tema, as dúvidas prevalecem sobre as certezas. Qual seria a real capacidade dos EUA de influenciar diretamente no pleito brasileiro? Toda essa carga de tensão seria suficiente, no final das contas, para condicionar o voto do eleitorado brasileiro? As respostas, quaisquer que sejam, são provisórias.

Até agora, algumas das principais pesquisas de intenção de voto mostram que Trump, aos atropelos, tem servido como uma espécie de cabo eleitoral simbólico de Lula. Segundo um levantamento da Quaest divulgado em junho, 47% dos entrevistados concordavam com Lula quando o petista dizia que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) agiu para que o Brasil fosse tarifado pelos EUA, enquanto 35% concordam com a visão do senador, que tem dito que solicitou a Trump que não aplicasse novas tarifas sobre produtos brasileiros. 

No entanto, à medida que o tempo passa, os efeitos da resposta de Lula à guerra comercial imposta por Trump diminui sobre o eleitorado. No início de agosto, a AtlasIntel/Bloomberg mostrou que 49,2% dos eleitores não veem ameaça à soberania nacional por conta das tarifas, enquanto 47,7% veem. Além disso, 43% dos eleitores avaliam mal a resposta de Lula às ações de Trump, contra 36% registrados em maio pelo mesmo instituto.

A professora Ana Carolina Marson lembra que “ainda existe no imaginário popular essa noção de que os Estados Unidos sejam o líder do mundo livre, o que nunca foi verdadeiro”. Como o voto brasileiro tem sido bastante cristalizado nos últimos anos, pode existir uma tendência de que os indecisos e aqueles que pretendem votar em branco/nulo acabem decidindo a eleição deste ano. São eles, segundo Marson, os mais sensíveis ao desgaste da relação com os EUA. Lula, aliás, incorporou o embate à campanha, ao chamar Rubio de “latino-americano frustrado”. Para a professora, o risco dessa estratégia é o prejuízo à imagem do pré-candidato petista. 

Para João Estevam, o pêndulo na relação Brasil-EUA até tem sua importância no debate público, mas dificilmente será determinante nas eleições deste ano. “Eu entendo que é um fator secundário, que pode ter um certo peso para alguns vetores, alguns nichos do eleitorado brasileiro. É possível que seja uma preocupação por parte de algum nicho, particularmente aquele mais conservador ou que trabalhe na área de relações Brasil-EUA, com comércio, investimento e finanças”, assevera Estevam.

Diante de uma eleição que caminha para ser decidida em margem estreita de voto, além do fato de que as decisões de Washington, no campo geopolítico, não costumam ser precedidas por avisos, a incerteza deve permanecer. Essa dúvida também já aponta para o médio prazo: qual poderá vir a ser a relação de Trump com o próximo governo brasileiro, seja Lula, Flávio Bolsonaro ou outro candidato? Não é de pouca importância também o fato de que o próprio Trump estará envolvido, neste segundo semestre, nas eleições de meio de mandato nos EUA, que poderão fazer o seu governo perder maioria em, pelo menos, uma das Casas do Legislativo. Com tudo isso em conta, a previsibilidade em relação aos EUA deve demorar para voltar a ser uma realidade.





Fonte: Brasil de Fato

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