Quebra de Ueno Bank, banco digital ligado ao presidente do Paraguai, provoca protestos e derruba chefe do BC; entenda a crise

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A quebra do banco digital Ueno Bank mergulhou o Paraguai em uma crise financeira e política. Em dois dias, o colapso levou centenas de pessoas às ruas da capital, Assunção, derrubou o presidente do Banco Central do Paraguai (BCP), deixou grandes redes varejistas praticamente sem vendas e fez o Congresso correr para mudar a lei e acelerar a devolução do dinheiro bloqueado dos clientes.

O Ueno tem 2,9 milhões de clientes, cerca de 40% da população paraguaia, e processa perto de 3 milhões de transações por dia. Por ele passam dois terços dos pagamentos eletrônicos das grandes redes de varejo, e a Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) já alerta para uma semiparalisação do mercado.

Os manifestantes reivindicam a devolução integral dos depósitos, incluindo os recursos do Instituto de Previdência Social (IPS) e das caixas de aposentadoria aplicados no banco. Os protestos também cobram responsabilidades do presidente Santiago Peña, que foi acionista do grupo controlador do banco até 2025.

Manifestantes pedem impeachment do presidente do Paraguai, Santiago Peña
Manifestantes pedem impeachment do presidente do Paraguai, Santiago Peña | Crédito: Daniel Duarte/AFP

O BCP decidiu, por unanimidade, iniciar o processo de resolução do Ueno Bank, aplicado quando uma instituição não tem mais condições seguras de operar. Segundo o Ministério Público, o banco enfrentava insolvência severa, com capital abaixo da metade do mínimo exigido.

Laços com o Palácio

A crise expôs as relações do governo com o grupo dono do banco. Peña foi acionista da Ueno Holding e, segundo a imprensa paraguaia, vendeu sua participação em abril de 2025. Em outubro de 2024, quando ele ainda era sócio do grupo, o IPS comprou títulos do Ueno no valor de 250 bilhões de guaranis, cerca de US$ 32 milhões à época. O presidente classificou como campanha midiática as reportagens que apontavam conflito de interesses.

Outro elo é o agora ex-presidente do BCP, Carlos Carvallo. Antes de ser nomeado por Peña para comandar a autoridade monetária em 2023, ele dirigia a Financeira Ueno, que depois se transformou no Ueno Bank. Carvallo deixou o cargo na terça-feira (3) a pedido do próprio presidente, em meio a críticas à fiscalização exercida sobre o banco.

O vice-presidente Pedro Alliana também confirmou ter um certificado de depósito de 4 bilhões de guaranis aplicado na instituição.

Peña, que cancelou a ida à Cúpula Ibero-Americana em Madri por causa da crise, havia tratado o caso como pontual. Depois de quase um dia sem se manifestar, divulgou, nesta quarta-feira (4), um vídeo nas redes sociais em que pediu calma aos poupadores e afirmou que o país enfrentará a crise unido.

“O Paraguai precisa de instituições que deem respostas e protejam os recursos da nossa população. É isso que estamos fazendo a partir do Poder Executivo, para que cada paraguaio afetado tenha uma resposta e, acima de tudo, tenha a proteção de suas economias garantida”, ressaltou.

Pedido de julgamento político

Na Câmara dos Deputados, a oposição vai pedir uma sessão extraordinária na quinta-feira (5) para analisar o pedido de julgamento político contra Peña e Alliana. A deputada Rocío Vallejo, do Patria Querida, anunciou a iniciativa. São necessários 53 votos para aprovar a abertura do processo, e até agora os apoiadores somam 23, segundo o portal paraguaio Ultima Hora.

Deputados levaram ao plenário cartazes com a pergunta que se espalhou pelas ruas: “Onde está o dinheiro?”.

O bloco dissidente do Partido Colorado, sigla de Peña, decidiu apoiar o processo contra o presidente, mas não contra o vice. “Hoje não temos que pensar nas cores partidárias, e sim na pátria, nos cidadãos”, defendeu o líder do grupo, Daniel Centurión. Para ele, a responsabilidade jurídica é da direção do BCP, mas a política recai sobre o chefe do Executivo. “Lamentavelmente, ele é o responsável político”, avaliou.

Até o ex-presidente Horacio Cartes, que comanda o Partido Colorado e é padrinho político de Peña, enviou uma carta pública ao presidente cobrando urgência e firmeza para proteger os poupadores e levar os responsáveis à Justiça.

Diretores presos

Oito diretores do banco foram presos, entre eles o presidente do conselho, Juan Manuel Gustale, e o vice-presidente, Miguel Vázquez. A Justiça determinou o bloqueio de US$ 70 milhões em bens de dirigentes do Ueno e do Grupo Vázquez, e a Promotoria analisa pedir cooperação de Luxemburgo e dos Estados Unidos para rastrear patrimônio no exterior.

Questionado, nesta quarta, se Peña também pode ser investigado, o procurador-geral do Estado, Emiliano Rolón, não descartou a possibilidade. “Não há pessoas excluíveis no nosso direito. Todas as pessoas com participação criminal devem ser investigadas se houver elementos de suspeita”, respondeu.





Fonte: Brasil de Fato

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