Se os grandes estúdios de cinema de Los Angeles decidissem rodar um suspense político sobre a evasão de líderes públicos, nenhum roteirista seria audacioso o suficiente para criar o enredo que o Brasil assiste na vida real. A viagem do senador Flávio Bolsonaro rumo a Miami, cruzando os céus das Américas a bordo de um luxuoso jato executivo Gulfstream G400, carrega todos os elementos de uma superprodução de suspense: escalas estratégicas na Argentina e no Equador, permissões de sobrevoo internacionais e uma logística que desafia a normalidade institucional. Contudo, longe do glamour das telas de cinema, a obra real não concorre à estatueta dourada do cinema, mas sim ao inédito “Oscar da Vergonha” da história política nacional.
A analogia com a ficção torna-se inevitável quando se analisa a complexidade da trama. No cinema, fugas cinematográficas exigem uma intrincada rede de apoio e a conivência silenciosa de diferentes fronteiras para que o protagonista alcance seu destino. Na realidade de Brasília e das Américas, o trânsito do parlamentar por múltiplos espaços aéreos e jurisdições estrangeiras expõe uma engenharia de suporte econômico e político altamente eficaz. O paradoxo mais gritante, digno de uma comédia dramática, é que enquanto o roteiro se desenrola em hotéis e aeroportos internacionais, a conta de produção continua sendo enviada ao cidadão brasileiro. O Estado permanece arcando com os custos e subsídios inerentes ao exercício de um mandato parlamentar cujo titular optou pela distância geográfica.
Ao final, a “premiere” desse espetáculo político deixa a plateia nacional em um misto de estupefação e indignação. Na vida real, não há aplausos ao final dos créditos. A imagem de um representante eleito desembarcando em solo norte-americano, distante das atribuições de seu cargo no Senado, encerra o filme com uma sensação de profundo desamparo para as bases eleitorais e de flagrante distorção ética para as instituições de controle. Hollywood pode até entender de entretenimento, mas o cenário político brasileiro provou que, quando o assunto é encenar o esvaziamento da representação pública com recursos do erário, a realidade supera qualquer ficção.



