Marco Aurélio Zaparolli, jornalista decano na imprensa, 50 anos de profissão, formação em Direito, Política, Tecnologia e Gestão, observador do mundo.
Vivemos em uma era de abundância material e conexões virtuais instantâneas, mas experimentamos uma escassez alarmante de gratidão e paz interior. Basta olhar ao redor — ou para dentro de nós mesmos — para perceber um padrão sutil e destrutivo: a facilidade quase automática com que nos pegamos reclamando de tudo, achando cada detalhe da vida ruim, minimizando nossas vitórias e caindo na armadilha da autossabotagem. Por que insistimos tanto em alimentar esse ciclo amargo?
O ser humano moderno parece ter desenvolvido um vício na insatisfação. Conquistamos o diploma, a promoção, o teto, a saúde ou a superação de um momento difícil, mas o sabor da vitória dura poucos segundos. Logo em seguida, o olhar se desvia para o que falta, para o problema do vizinho, para a fila do trânsito ou para a imperfeição da rotina. Ao diminuir o valor do que já alcançamos, cometemos o erro trágico de viver no futuro ou na lamentação do passado, anulando o presente e anulando a nós mesmos.
Essa reclamação crônica nada mais é do que o sintoma de um esquecimento doloroso: esquecemos de nos amar. Passamos a vida buscando a aprovação do mundo, mas somos os nossos juízes mais cruéis. Incontáveis pessoas ao nosso redor nos oferecem afeto, respeito e admiração sincera, mas a nossa cegueira emocional nos impede de enxergar. Não nos acolhemos, não nos perdoamos pelas falhas do caminho e, em um ato inconsciente de autopunição, sabotamos nossa própria felicidade por não nos sentirmos merecedores dela.
Mais grave do que o desamor próprio é o distanciamento da fé. Na correria insana do cotidiano, esquecemos de Deus e da Sua presença constante. Esquecemos que o próprio sopro da vida, a oportunidade de recomeçar a cada amanhecer e a força para atravessar as tempestades são provas vivas de um cuidado divino imensurável. Quando tiramos o Criador do centro de nossa existência e deixamos de praticar a gratidão diária, a vida perde o brilho, o fardo torna-se pesado demais e tudo ao redor passa a parecer cinza e insustentável.
Mudar essa chave exige coragem e um exercício diário de desaceleração. É preciso interromper o murmúrio antes que ele saia pela boca e substituí-lo pelo reconhecimento sincero do que deu certo. Resgatar o amor-próprio não é um ato de egoísmo, mas o primeiro passo para conseguir amar o próximo e aceitar o carinho que nos é oferecido. Reconhecer a mão de Deus nas pequenas coisas e dar o devido valor a cada passo da nossa jornada é o único remédio capaz de cura para a alma e de nos devolver a paz que tanto procuramos.


