A Última Palavra da Garota que Ensinou o Mundo a Dizer “Não”: O Legado Eterno de Gloria Steinem

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Nova York — O movimento feminista global perdeu em setembro de 2026 uma de suas fundadoras e bússolas morais mais lúcidas. A escritora, jornalista e ativista Gloria Steinem faleceu aos 92 anos, em sua residência em Nova York, cercada por entes queridos. Com sua partida, encerra-se um capítulo monumental da história dos direitos civis, mas permanece viva a arquitetura intelectual e afetiva de uma luta que ela ajudou a desenhar por mais de seis décadas.

Nascida em Toledo, Ohio, em 1934, Steinem carregava desde a infância nômade — passando longos períodos viajando em um trailer com seu pai vendedor de antiguidades — a recusa pelas amarras convencionais. Antes de se tornar o rosto incontestável da segunda onda do feminismo norte-americano, ela construiu uma carreira afiada no jornalismo investigativo.

O divisor de águas de sua projeção pública veio em 1963, quando se infiltrou como coelhinha no Playboy Club para relatar por dentro a exploração e a objetificação das mulheres. “A Bunny’s Tale” escancarou a dinâmica de poder corporativo e machista disfarçada de glamour, transformando-a instantaneamente em uma repórter de prestígio que recusava a neutralidade cínica diante da injustiça.

A Revolução nas Bancas e nos Púlpitos

Se a pena era sua arma, a articulação comunitária era seu território favorito. Em 1971, Steinem deu vida ao que viria a ser um dos veículos de maior impacto cultural do século XX: a revista Ms. Em uma época em que a imprensa voltada para o público feminino limitava-se a dicas de culinária, moda e submissão doméstica, a Ms. colocou em pauta o aborto, a violência doméstica, a disparidade salarial e a autonomia corporal.

Foi também no início dos anos 1970 que sua militância se cristalizou de vez, impulsionada por um ato de coragem pessoal. Após participar de um debate sobre o aborto em uma igreja em Nova York, Steinem tornou pública a sua própria vivência — ela havia feito um procedimento ilegal em Londres aos 22 anos. A partir daí, transformou a dor e o sigilho impostos às mulheres em matéria de debate político nacional, antecipando em anos a histórica decisão da Suprema Corte americana no caso Roe v. Wade.

A Política do Afeto e a Círculos de Escuta

Diferente de líderes dogmáticas, a força de Gloria residia na escuta atenta e na horizontalidade. Em seu icônico apartamento no bairro de Greenwich Village, em Nova York — que sua fundação agora planeja preservar como um centro vivo de ativismo —, ela manteve por décadas os chamados Talking Circles (Círculos de Conversa). Nesses encontros, ativistas veteranas e jovens lideranças de diversas pautas sentavam-se no chão para debater estratégias de resistência longe dos holofotes formais.

O lema cunhado por ela, “Estamos conectadas, não hierarquizadas” (“We are linked, not ranked”), sintetizava sua oposição feroz a qualquer forma de opressão estrutural, seja de gênero, raça ou classe. Essa premissa rendeu-lhe parcerias intergeracionais profundas, influenciando desde figuras de Hollywood até ativistas de direitos humanos ao redor do globo.

O Fim de uma Era, o Começo de um Eco

Até os seus últimos dias, Steinem manteve a agudeza mental e o humor irônico intactos. Trabalhava na finalização de um novo livro de memórias, com lançamento previsto para este outono, e colaborava com projetos literários voltados para o empoderamento de meninas e jovens líderes.

Ao longo da vida, Gloria desafiou preceitos tradicionais — casou-se pela primeira vez apenas aos 66 anos, com o ambientalista David Bale, sustentando que “as mulheres não serão iguais fora de casa até que os homens sejam iguais dentro dela”.

Com a confirmação de sua partida, líderes mundiais, artistas e defensoras de direitos humanos inundaram as redes sociais com tributos, lembrando que a liberdade de ir e vir, de escolher o próprio destino e de ocupar espaços públicos que as mulheres desfrutam hoje carrega, de forma incontornável, as digitais de Gloria Steinem. Ela se vai sem causa alardeada, mas deixa o mundo substancialmente mais livre do que o encontrou.

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