Advogado sequestrado pelo PCC relata ameaças após “tribunal do crime”

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Rafaell Roque, advogado criminalista que foi sequestrado por integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) na Baixada Santista, em São Paulo, relatou à CNN Brasil que recebeu novas ameaças mesmo após ter passado pelo chamado “tribunal do crime”.

Sequestrado por integrantes da facção em 11 de junho deste ano, Roque foi submetido a seis horas de cárcere privado, ameaças de morte e tortura psicológica em um cativeiro localizado na Vila Esperança, em Cubatão (SP).

Rafaell conta que dias depois do ocorrido, recebeu uma mensagem de um conhecido que dizia que ele corria risco de vida e que sua morte já havia sido decretada pela facção.

Após a denúncia do crime, o MPSP (Ministério Público de São Paulo), por meio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), em parceria com a Polícia Militar, deflagrou a Operação Patrocínio Fiel.

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A ação resultou na prisão de três envolvidos e na morte de um quarto suspeito em confronto armado. O caso também foi levado à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Advogado foi atraído para uma emboscada

A captura de Roque começou com um telefonema. Pouco antes de uma audiência relacionada a uma disputa empresarial, o advogado recebeu uma ligação de um homem conhecido como “Bel”, posteriormente identificado como William Nascimento Boaventura.

Ele teria dito que precisava de atendimento jurídico para uma pessoa detida e pediu que Roque fosse até um endereço.

Para dar credibilidade ao chamado, “Bel” teria citado outros advogados da região. Roque foi ao local e, ao chegar, percebeu que havia caído em uma emboscada. Ele foi levado para um cativeiro.

Antes de chegar ao local onde ficaria preso, o advogado passou por uma empresa, onde, segundo seu relato, ouviu criminosos conversando sobre um esquema de tráfico internacional de drogas. Depois, foi levado para um barraco de madeira na Vila Esperança, em Cubatão (SP).

Seis horas sob o “tribunal do crime”

No cativeiro, Roque encontrou uma estrutura que descreveu como um “tribunal do crime”. Segundo o advogado, cerca de 30 integrantes do PCC estavam presencialmente no local, enquanto outros 10 a 20 acompanhavam a situação por chamadas de vídeo.

O objetivo era obrigá-lo a revelar o endereço de um de seus clientes, acusado pela facção de ter furtado um integrante do grupo.

Roque se recusou a fornecer a informação. Segundo o relato, os criminosos passaram a ameaçá-lo de morte, tomaram seu celular, acessaram seus dados pessoais e o obrigaram a gravar um vídeo com informações retiradas do aparelho. O advogado afirmou que não sofreu agressões físicas diretas.

A agressão verbal foi muito pior do que a física. Seria melhor eu ter apanhado do que passar pelo que eu passei.


Rafaell Roque

A disputa que levou à intervenção do PCC, segundo ele, envolvia três quiosques de venda de peixe na praia das Astúrias, no Guarujá. O cliente de Roque discutia judicialmente a propriedade dos estabelecimentos e alegava ter direito à metade do negócio.

O conflito havia se agravado no fim de 2025, quando o cliente foi afastado dos negócios após uma promessa de pagamento de R$ 2 milhões que não teria sido cumprida.

Roque foi contratado para atuar juridicamente no caso e, posteriormente, entrou com uma ação cível contra a parte adversária.

Diante da recusa do advogado em revelar o paradeiro do cliente, os sequestradores passaram a pressioná-lo a abandonar formalmente a defesa e deixar o processo judicial, o que favoreceria a parte adversária na disputa pelos quiosques.

Advogado simulou mal-estar para conseguir escapar

Com o prolongamento do cárcere e temendo pela própria vida, Roque decidiu simular que estava passando mal para tentar convencer os sequestradores a libertá-lo.

Comecei a fazer um certo teatro, fingir que estava passando mal, para ver se eles teriam alguma dó de mim


Rafaell Roque

O cárcere começou por volta das 19h de 11 de junho e terminou à 1h da madrugada de 12 de junho, totalizando seis horas. O advogado foi deixado em via pública após prometer cumprir as exigências feitas pelo grupo.

Nos dias seguintes, criminosos identificados como “Pio”, “Geleia” e “Vá”, apontado como líder e ainda foragido, teriam continuado a enviar mensagens e fazer ligações exigindo documentos que comprovassem a saída do advogado do processo.

Roque decidiu manter contato para ganhar tempo e repassar as informações ao Gaeco. Em 14 de junho, três dias após o sequestro, um conhecido o alertou de que sua execução havia sido decretada pela facção.

Operação prendeu três suspeitos

Na Operação Patrocínio Fiel foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão e de prisão temporária, com alvos em São Vicente, Guarujá, Praia Grande, Cubatão e Florianópolis (SC).

Durante a ação, três suspeitos foram presos e um quarto suspeito morreu em confronto com os policiais.

Ainda foram apreendidos celulares, arma de fogo, munições e drogas. Os três presos passaram por exames de corpo de delito e tiveram as prisões temporárias homologadas pela Justiça.

OAB cobra proteção para o advogado

A Subseção de Cubatão da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) encaminhou um ofício à direção da OAB paulista e pediu providências junto às autoridades de segurança e ao Ministério Público.

A entidade afirmou que ameaças, sequestros e tentativas de coação contra advogados por causa de sua atuação profissional atingem a vítima, o direito de defesa e o funcionamento da Justiça.

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*Sob supervisão de Carolina Figueiredo



Fonte: CNN Brasil

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