As empresas de saneamento básico de Joinville e Itajaí, em Santa Catarina, anunciaram neste mês que cortaram a fluoretação da água que distribuem à população. Blumenau, por sua vez, informou que tem estoque para 25 dias.
O motivo dos cortes é a escassez de flúor ou fluoreto, substância importante para a prevenção da cárie. Isso porque falta enxofre, matéria-prima do produto e derivado do petróleo, cujos preços foram afetados pela guerra provocada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã.
O preço do produto chegou a aumentar 300% no mercado e o atraso do recebimento chega a três meses. Outras empresas do Ceará, São Paulo e Espírito Santo também têm alertado as autoridades sobre estoques para poucas semanas. A Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento) tem sinalizado ao governo a necessidade de uma redução do flúor na água.
“Estamos em uma fase de emergência sanitária”, aponta o professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), Paulo Frazão, lembrando que o Brasil é uma referência internacional no combate à cárie, por causa do uso maciço do flúor.
Em nota, o Ministério da Saúde informou que acompanha a questão e “mantém diálogo permanente com entidades do setor para avaliar o cenário e orientar as medidas necessárias” e que faz “o mapeamento e contato com fornecedores nacionais e internacionais capazes de viabilizar aquisições emergenciais do insumo”.
A Sabesp informou que vem atuando de forma preventiva e em articulação com as autoridades para buscar alternativas que garantam a continuidade do fornecimento do insumo e que dispõe de estoque para manter a operação.
Gargalo e necessidade de autossuficiência
Com a obrigação legal do uso de fluoreto na distribuição de água desde 1974, o Brasil tornou-se referência por ter conseguido controlar a cárie dentária. Nos anos de 1950, havia onze cáries em média entre a população até os 12 anos de idade. Em 1986, a média caiu para seis ou sete cáries para o mesmo grupo. Hoje, são menos de dois dentes atacados entre as crianças.
Atualmente, cerca de 70% da população tem acesso à água fluoretada. Para as empresas, segundo Frazão, o flúor representa menos de 1% das despesas totais para tratamento da água. A cada real investido na fluoretação, as famílias economizam cerca de R$ 150 por ano, com gastos que teriam se a doença não fosse evitada.
A crise atual aponta para a necessidade de uma ampliação da cadeia produtiva nacional de produtos como fertilizantes que garantam o enxofre. Além disso, as empresas de saneamento dependem de apenas uma companhia fornecedora do produto no país, dependendo de importação.
“Tem toda uma logística aí que precisa ser recuperada, que precisa ser olhada. Você precisa retomar essa cadeia produtiva, precisa buscar fontes alternativas para poder manter a proteção da dentição”, aponta Frazão.
Fonte: Brasil de Fato


