As fortes chuvas em São Paulo (SP) resultaram em um alagamento do Túnel do Vale do Anhangabaú, no centro paulistano, na tarde de quarta-feira (14), que deixou pelo menos 20 carros e dois ônibus submersos e motoristas ilhados sobre o teto dos veículos.
O cenário relembrou o episódio de 1999, há 27 anos, quando cerca de 160 automóveis e três coletivos foram cobertos pela água no mesmo local. Em 2021, o túnel registrou transbordamento parcial de uma das pistas no sentido zona sul.
Segundo dados do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) da Prefeitura de São Paulo, a região do córrego do Anhangabaú acumulou 42 milímetros (mm) de chuva em apenas 40 minutos. O volume corresponde a 37% de toda a precipitação média esperada para o mês de outubro na capital, estimada em 112 mm pela administração municipal, o equivalente ao índice previsto para 11 dias. Na estação meteorológica da Sé, o acumulado atingiu 48,5 mm.
Atraso no fechamento
Especialistas e dados técnicos apontam que o alagamento resultou da combinação de um evento meteorológico concentrado com limites estruturais de drenagem e falha operacional na interdição preventiva da via.
De acordo com a empresa meteorológica Climatempo, a tempestade foi gerada pelo encontro de ar quente e úmido com a brisa marítima e a atuação de um cavado de baixa pressão atmosférica, além do transporte de umidade da Amazônia, criando nuvens de grande desenvolvimento vertical.
A concentração de 42 litros de água por metro quadrado em um intervalo curto de 40 minutos provocou escoamento superficial em velocidade superior à capacidade de absorção das galerias centrais.
A Prefeitura de São Paulo disse que o túnel possui seis bombas de drenagem e que todos os equipamentos funcionaram de maneira ininterrupta durante o temporal, sem registro de pane elétrica ou mecânica. Contudo, a vazão máxima do conjunto foi insuficiente para conter o volume que descia pelas encostas da região central em direção ao leito canalizado do córrego.
Aliou-se ao fator hídrico uma falha no protocolo de segurança viária. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mantém uma diretriz de fechar os acessos ao túnel preventivamente sempre que há risco iminente de inundação. Na quarta-feira, a interdição no sentido zona norte só teve início às 15h38, momento em que a enxurrada já invadia a pista e impedia a saída de dezenas de veículos que trafegavam pelo trecho subterrâneo.
O que diz a prefeitura
Em posicionamento oficial, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), afirmou que o temporal teve intensidade “grande e inesperada” e mobilizou equipes de limpeza, hidrojateamento, guinchos e caminhões de sucção para escoar a água e retirar os veículos danificados.
“Foi um volume realmente grande e inesperado em um período muito curto, mas estamos aqui trabalhando para restabelecer completamente a cidade”, declarou o prefeito nas redes sociais.
O Vale do Anhangabaú passou por sucessivas obras ao longo das últimas décadas para tentar mitigar enchentes, desde a reurbanização iniciada na gestão de Jânio Quadros nos anos 1980 até a Operação Urbana Anhangabaú, criada em 1991 por Luiza Erundina para ampliação da macrodrenagem.
Entre 2006 e 2007, a gestão de Gilberto Kassab construiu novas galerias no córrego Moringuinho com a meta de reduzir em 15% a vazão que chega ao vale. A reforma urbana entregue pela prefeitura a partir de 2019, contudo, concentrou-se na requalificação de superfície e convivência, sem alterar a capacidade do sistema subterrâneo de escoamento.
Previsão para os próximos dias
A Defesa Civil do Estado de São Paulo emitiu alerta severo para a continuidade de temporais generalizados nesta quinta-feira (15) e na sexta-feira (16). O risco de novos alagamentos e deslizamentos de terra permanece elevado porque o solo na Região Metropolitana já se encontra encharcado.
Para esta quinta, a Climatempo projeta chuva persistente ao longo de todo o dia e à noite na capital, com volume estimado em 59,9 mm e rajadas de vento que podem atingir 46 km/h. Na faixa leste do estado, que inclui a Grande São Paulo, a Baixada Santista e o Vale do Ribeira, os acumulados pontuais podem chegar a 80 mm. Os termômetros variam entre 17°C e 25°C.
Na sexta, a formação de uma frente fria associada a um ciclone extratropical no litoral do Sudeste manterá o tempo encoberto e chuvoso na capital. A temperatura máxima recua para 23°C, com mínima de 17°C e probabilidade de 100% de chuva, com previsão de acumulado de 39,9 mm. A tendência indicada pelos meteorologistas é de gradual redução das instabilidades a partir do sábado (17).
Para o próximo domingo (18), quando está previsto um ato da campanha de reeleição do presidente Lula (PT) na região do Vale do Anhangabaú, a previsão é de sol com aumento de nuvens e pancadas de chuva isoladas no fim da manhã e à tarde, com noite chuvosa.
Fonte: Brasil de Fato


