Por Dindara Rocha*
A corrida pela inteligência artificial tem sido vendida pelo Vale do Silício como a última fronteira da engenhosidade humana, prometendo a cura de doenças, maior economia no trabalho, a eficiência absoluta e a democratização do conhecimento. No entanto, por trás da interface limpa e dos logotipos minimalistas, a estrutura que sustenta essa tecnologia é alimentada por uma lógica velha conhecida nossa, que é o extrativismo sobre corpos femininos.
Se na era industrial a exploração se dava na materialidade das fábricas, na era da inteligência artificial (IA) ocorre na aparente imaterialidade do código. Nesse cenário, o lucro bilionário das plataformas torna-se diretamente proporcional à desumanização de mulheres e meninas.
Essa desumanização ganha contornos alarmantes quando analisamos os dados globais. De acordo com a ONU Mulheres, a violência contra mulheres e meninas facilitada pela tecnologia está se intensificando de forma drástica. Estudos apontam que entre 16% a 58% das mulheres, em todo o mundo, já são afetadas por abusos digitais, e a inteligência artificial está criando novas formas de violência e amplificando as existentes em taxas sem precedentes.
Já vivemos em um mundo em que pelo menos uma em cada três mulheres sofre violência física ou sexual; ao somarmos a isso uma série de ferramentas de IA treinadas com base em dados embasados em preconceitos de gênero e de raça já existentes, permitimos que essa violência se espalhe ainda mais rapidamente e de maneiras mais complexas.
Recentemente, uma investigação revelou um exemplo prático dessa escala com o Grok, a inteligência artificial, pertencente a Elon Musk, integrada à plataforma X. A ferramenta foi responsável pela criação de 3 milhões de imagens sexualizadas de mulheres e menores de idade em um espaço curtíssimo, em apenas 11 dias.
O argumento de Musk para a ausência de filtros de segurança é a suposta “liberdade de expressão irrestrita”, mas precisamos dar o nome correto ao que está acontecendo. Não se trata de liberdade, mas de uma engenharia atualizada de abuso. Ao remover as barreiras técnicas contra a pornografia não consentida, a plataforma transforma o algoritmo em uma ferramenta de ataque e permite que as violências (gênero e raça), sejam replicadas em uma velocidade impossível de ser contida pelos métodos tradicionais de denúncia.
A facilidade com que qualquer usuário pode, hoje, “despir” uma mulher por meio de um comando de texto revela que o corpo feminino, como sempre, continua sendo tratado como um território de conquista. No mundo das imaterialidades, a imagem da mulher é reduzida a um conjunto de dados mineráveis, funcionando como um insumo bruto para alimentar os motores de alucinação dos sistemas por milhões de usuários que operam essa nova mecânica de violação sob o anonimato das telas. É fundamental compreendermos que a IA não cria do nada. Esse mecanismo é operado por seres humanos com visões de mundo que perpassam pelo o patriarcado e o colonialismo, processando fetiches históricos e devolvendo-os sob uma roupagem tecnológica contemporânea.
A narrativa da imaterialidade da rede serve como uma cortina de fumaça para ocultar a materialidade da dor. O impacto de sua circulação é concretamente devastador e alimenta uma cultura de descarte do corpo das mulheres que avança do espaço físico para o virtual. Esse fenômeno reitera a hipersexualização histórica, no qual o corpo feminino é novamente sequestrado para servir como objeto de consumo automatizado. Trata-se da perpetuação do estigma colonial de que corpos femininos são públicos e disponíveis para o deleite alheio, agora codificados em pixels, e também acaba por fortalecer o racismo algorítmico.
No cenário brasileiro, essa desassistência é agravada por um profundo descompasso legislativo. O debate sobre o Marco Legal da Inteligência Artificial (PL 2338/2023) enfrenta sucessivos adiamentos. Em meio a impasses políticos e críticas de setores que priorizam a competitividade do mercado, a implementação de normas eficazes de proteção permanece paralisada. Enquanto os debates institucionais se concentram em riscos econômicos, as mulheres permanecem em uma condição de vulnerabilidade digital acentuada. A ausência de marcos regulatórios que responsabilizem civil e criminalmente as empresas pelo impacto de ferramentas não é um mero atraso técnico.
Diante desse cenário de vulnerabilidade, existem medidas práticas que podem ser tomadas imediatamente para enfrentar o assédio. Bloquear e denunciar perfis agressores nas próprias plataformas é o primeiro passo para registrar a violação e interromper o contato. Para impedir a propagação de conteúdos não consentidos, ferramentas como Take it Down e StopNCII são vitais para remover imagens privadas da rede, assim como é fundamental manter tudo documentado, guardando capturas de tela, links e registros de data e hora, visto que essas informações são provas essenciais para qualquer denúncia formal.
Não é uma opção aceitar os abusos do mundo digital, que viola sistematicamente os corpos de mulheres, incluindo as negras, reforçando preconceitos, discriminações de gênero e conectando, em geral, as violências racistas. Diante do exposto, é urgente lutar por um marco regulador do uso das IAs. Além disso, é necessário atacar financeiramente as corporações, afinal, se o lucro gerado está vinculado ao sofrimento feminino, esse modelo de negócio precisa ser criminalizado para que possamos romper com a lógica que coloca o balanço das empresas acima da dignidade humana. Se o código é imaterial, as nossas vidas e as nossas marcas na história não são. Retomar o controle sobre a nossa imagem é o ato de resistência necessário para impedir que a inteligência artificial se consolide como o novo chicote do poder colonial, do racismo e do patriarcalismo.
Para saber mais
O’NEIL, Cathy. Algoritmos de destruição em massa: como o Big Data aumenta a desigualdade e ameaça a democracia. Tradução Rafael Abraham. Santos: Editora Rua do Sabão, 2021.
SOUZA, Karla; MIRANDA, Luanda. IA generativa reforça racismo algorítmico e aprofunda estigmas na representação de pessoas negras no Brasil. Revista Afirmativa. 13 de maio de 2026.
*Dindara Rocha é mestranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com pesquisas acerca do racismo algorítmico e ética no uso da inteligência artificial (IA). Integra o Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi/UFPB). Tem atuado como colunista no Brasil de Fato PB, abordando, principalmente, temas relativos aos impactos sociotécnicos e raciais das tecnologias de IAs emergentes.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
Fonte: Brasil de Fato


