ASSASSINADA E REVIVIDA, por Isabel Fomm de Vasconcelos Caetano

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por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

Já disse, estou numa idade em que a morte caminha ao meu lado. Em menos de uma semana perdi duas mulheres importantes e amadas: minha irmã postiça, priminha Elizabeth Krausz, com quem cresci, com quem vivi infância, adolescência, maturidade… E uma amiga, de quatro décadas, uma das mulheres mais importantes do Brasil nas lutas feminista e pela igualdade de oportunidades, Amelinha Teles.

Amelinha sempre morou aqui perto de mim. Eu na Paulista, ela no Bixiga. A gente, vira e mexe, se trombava pelas calçadas da avenida, sempre uma alegria! Amelinha fez muita televisão comigo. Teve quadro fixo no meu programa Condição de Mulher, na Gazeta e na Rede Mulher de TV!

Há poucas semanas, perdi outra amiga importante para a ciência no mundo, importante exemplo também para as mulheres brasileiras, a médica pioneira, Dra. Angelita Gama.

Mais três para a minha CGP, Coleção de Grandes Perdas.

Na contabilidade dos mortos queridos mais recentes estão meu grande amigo de adolescência Antonio Carvalho Do Nascimento, o meu Tom, e meu único sobrinho, Paulo Roberto Vasconcellos, o Paulinho, filho do Alvan, meu querido irmão, pioneiro da TV brasileira e um dos braços direitos do Boni.

Mas aí vai somando: os grandes amigos Leda Galotti e Pedro Paulo Hatheyer. O grande Amor, Mauro Caetano. E grandes ídolos: de Gal Costa a Erasmo Carlos.

Sempre cito Noel, que morreu cedo, com 27 anos, mas teve tempo de deixar 425 maravilhosas canções da nossa música popular: “Morrer é da Vida” — Sim, eu sei.

Mas, ainda que estejam muito distantes no tempo, as mortes dos amados continuam doendo. como se tivessem sido apenas ontem. Pai, mãe, irmãos. Já se foram há tanto tempo e continuam fazendo a mesma falta. Meu amor querido, Mauro. Médicos muito amados e muito amigos como Alfredo Halpern e Romeu Meneghelo… Tantos!

Há porém uma grande amiga que, na nossa História, foi várias vezes morta e sempre conseguiu ressuscitar. Só pra falar nos últimos dois séculos, ela morreu em 1930 e ressucitou em 1945; morreu de novo em 1964 e ressucitou em 1985. Depois sofreu uma brutal tentativa de assassinato em 8 de janeiro de 2023 mas, felizmente, sobreviveu.

Agora, essa minha grande amiga se vê outra vez ameaçada por quase a metade dos brasileiros. É um quadro deplorável.

Quando meu amor, Mauro Caetano morreu, em 27 de julho de 2021, meu coração começou a se recusar a bater. No final de novembro, batia tres vezes e parava uma. A ciência e o marcapasso (invenção do pai do marido da minha grande amiga Roseli Zampirolli) me salvaram.

Hoje, porém, que já cheguei aos 75, vivo com insuficiência cardíaca, porque a Medicina mercantilista praticada pelo meu convênio se recusou a colocar o stent na minha coronária entupida (e preciso ir ao SUS para que isso seja feito), meu risco de morrer de desgosto é muito grande.

Assim, se a minha ressuscitada amiga, a Democracia, morrer novamente, certamente morrerei com ela. Porque há um limite, para as almas, na Terra, para as guerras ideológicas. Amelinha, por exemplo, venceu a tortura e transformou sua dor em combustível para todas as batalhas. Mas, de repente, seu corpo disse à sua alma: Agora chega!

Meu querido amigo e sócio Sérgio Oliveira dirige o meu programa Condição de Mulher, briga por ele, mas percebe que, claramente, depois de mais de 6 décadas lutando pela igualdade social das mulheres e vendo, a cada dia, as poucas conquistas do nosso sexo rolarem escada abaixo, meu corpo está dizendo ao meu coração: Stop, my girl, I’m tired!

E meu coração está simplesmente decidido a parar de bater, caso os brasileiros, desta vez, dêem a vitória ao retrocesso. Voto Lula, mas sem grandes entusiasmos. Mas se o poder for, de novo, parar na mão desses golpistas ignorantes, então tenho certeza que partirei, ainda que não seja a minha hora.

Ah, não se preocupe, caro leitor, em me dizer: NINGUÉM VAI SE IMPORTAR! Tenho plena consciência disso. Tirando uns 90 ou 100 maravilhosos amigos que tenho, ninguém realmente se importará se estarei viva ou morta.

Mas eu juro, com toda a força do meu ser, que se os meus irmãos de pátria derem o poder a esses golpistas ignorantes e corruptos, prefiro deixar o meu país, a minha Terra, os meus sonhos, os meus ideias e tentar, numa nova vida, viver coisa melhor!

Por isso, peço, rezo, minha grande amiga, Democracia, pelo amor de Deus, não me abandone!

IMG: Minha amiga querida, Dra. Albertina Duarte, com Clara Charf, na passeata das Diretas-Já, em 1984.

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