“Autismo em foco: entre o avanço do diagnóstico e a precariedade do atendimento público”, por Marco Aurélio Zaparolli

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Marco Aurélio Zaparolli, colunista-sênior do Grupo Portal de Notícias

O aumento no número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil tem trazido à tona uma realidade incômoda: enquanto cresce a conscientização, a rede pública ainda não acompanha a demanda por atendimento especializado.

Famílias enfrentam uma verdadeira via-crúcis para obter um simples laudo diagnóstico — documento essencial para garantir acesso a direitos básicos, como terapias, inclusão escolar e benefícios assistenciais. A principal queixa recai sobre a escassez de profissionais habilitados, como neuropediatras, psiquiatras infantis e equipes multidisciplinares, o que resulta em longas filas de espera e atrasos que comprometem o desenvolvimento das crianças.

Na prática, o tempo que deveria ser dedicado à intervenção precoce — fundamental no TEA — acaba sendo consumido pela burocracia e pela falta de estrutura do sistema público de saúde. Em muitos casos, o diagnóstico só ocorre tardiamente, reduzindo significativamente as chances de evolução no tratamento.

Além disso, mesmo após o diagnóstico, o acesso ao cuidado contínuo ainda é limitado. A oferta de terapias especializadas, como fonoaudiologia, terapia ocupacional e acompanhamento psicológico, é considerada insuficiente diante da demanda crescente. O resultado é um cenário de sobrecarga para as famílias, que muitas vezes precisam recorrer à rede privada ou a iniciativas da sociedade civil.

É nesse contexto que entidades como a AMANDIN desempenham papel fundamental. Atuando na linha de frente, essas organizações oferecem suporte, orientação e acolhimento, além de pressionarem o poder público por políticas mais efetivas. Ainda assim, enfrentam limitações de recursos e dependem, em grande parte, de mobilização comunitária.

Outro ponto crítico é a invisibilidade social. Apesar dos avanços no debate público, pessoas com TEA e suas famílias ainda convivem com a falta de compreensão, inclusão e políticas estruturadas. A ausência de dados atualizados, planejamento integrado e investimentos consistentes contribui para manter essa parcela da população à margem das prioridades governamentais.

Especialistas alertam que não se trata apenas de ampliar serviços, mas de estruturar uma política pública consistente, com formação de profissionais, descentralização do atendimento e garantia de acesso contínuo ao cuidado. Sem isso, o discurso de inclusão permanece distante da realidade.

Diante desse cenário, o desafio que se impõe não é apenas reconhecer o autismo, mas garantir que o sistema público esteja preparado para acolher, diagnosticar e acompanhar essas pessoas com dignidade. Enquanto isso não acontece, a luta segue sendo sustentada, em grande parte, pela persistência das famílias e pelo trabalho incansável de entidades da sociedade civil.

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