O governo brasileiro fez um alerta na reunião do G7, nesta quinta-feira, sobre o risco de uma “desordem global de proporções históricas”.
O Brasil foi convidado para a reunião dos chanceleres do bloco e foi representado pelo ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira. Seu discurso foi marcado pela defesa de uma reforma das instituições multilaterais.
“Atualmente, estamos numa encruzilhada entre a desordem global de proporções históricas e a governança global que protege os interesses comuns da humanidade”, alertou.
“Como sabemos, a governança global enfrenta grandes desafios”, disse Mauro Vieira. “Há anos ouvimos que o multilateralismo está em crise. Testemunhamos, ano após ano, a erosão das instituições que construímos desde 1945 para promover a cooperação e a confiança entre as nações”, afirmou o ministro.
Segundo ele, abordagens unilaterais enfraquecem as instituições multilaterais.
“Agora nos deparamos com as graves consequências de nossa incapacidade de lidar coletivamente com essa tendência”, disse.
Citando Lula, o chanceler apontou como o mundo vivencia atualmente a maior concentração de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial.
“Muitos desses conflitos envolvem a participação de membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – com poder de veto sobre as decisões ali tomadas”, disse.
“Concebido para prevenir conflitos, o Conselho encontra-se agora em impasse permanente. A atração por soluções militares para problemas não resolvidos pela governança global está prejudicando gravemente nossa capacidade de garantir ordem, prosperidade e desenvolvimento sustentável”, afirmou.
O Brasil também apontou para o aumento dos gastos militares e a queda do financiamento para o desenvolvimento.
“Enquanto 2,7 trilhões de dólares foram gastos no ano passado em armas e guerras, 630 milhões de pessoas ainda sofrem de fome”, disse.
Vieira ainda aponta que as instituições financeiras internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, não estão conseguindo atender às necessidades dos países em desenvolvimento.
Ele ainda afirmou que o comércio internacional tem sofrido pressões “nunca vistas” desde antes do estabelecimento do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) de 1947.
“Os próprios princípios fundamentais que norteiam as relações comerciais, como o da Nação Mais Favorecida, estão sendo contestados. A Organização Mundial do Comércio – cuja 14ª Conferência Ministerial começa hoje – se vê incapaz de cumprir seus mandatos. Existem, de fato, tentativas de desmantelar a ordem global como a conhecemos – sem qualquer ideia clara do que poderia substituí-la”, alertou.
Na avaliação do chanceler brasileiro, para enfrentar os desafios globais, será “imprescindível conferir legitimidade política e apoio às nossas ações”.
“A construção de um consenso mínimo na comunidade internacional é indispensável para lidar com problemas que são, por sua própria natureza, coletivos”, disse.
Para ele, o Brasil entende que a reforma das instituições multilaterais é o “único caminho a seguir”.
“Devemos fortalecer, modernizar e tornar essas organizações mais inclusivas e representativas da realidade do mundo atual”, defendeu.
“Se de fato vivemos em um mundo multipolar, nossas instituições devem refletir essa multipolaridade”, insistiu.
Na ONU, o Brasil propõe uma “reforma abrangente”, fortalecendo o papel da Assembleia Geral como principal órgão deliberativo, de formulação de políticas e representativo da Organização.
“Apoiamos uma reforma do Conselho de Segurança que atualize este órgão às realidades e demandas do século XXI, ampliando sua composição para garantir a representação de países da África, da América Latina e do Caribe”, defendeu.
OMC, FMI e Banco Mundial
Para o Brasil, os mesmos princípios se aplicam à reforma do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. A ideia é o fortalecimento da representação dos países em desenvolvimento e do aumento dos recursos disponíveis para o combate à pobreza e às mudanças climáticas.
Na OMC, o chanceler espera que haja uma decisão na cúpula da entidade, nesta semana.
“Uma reforma real é urgente e não pode ser superficial”, disse. “Para isso, precisamos encontrar uma maneira de dotar a OMC da flexibilidade necessária para estabelecer regras que se adequem à realidade econômica e às relações comerciais existentes hoje”, defendeu.
Ele ainda cobrou o G7 a desempenhar um “papel fundamental” para “reverter a erosão da governança global”. “Três dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança pertencem a este grupo. Além disso, os países do G7 estiveram no centro das decisões que moldaram a arquitetura global estabelecida após 1945”, disse.
“Nenhuma nação, independentemente de seu tamanho ou de suas circunstâncias geográficas, está imune às consequências negativas de um mundo instável”, completou Mauro Vieira.
Fonte: ICL Notícias


