COLUNA FAMILIA TEA BAURU| Amizades no autismo adulto, por Mariana Komesu

Compartilhe:

Mariana Komesu

Faz um tempo que tenho a intenção de escrever sobre autismo — sobre o autismo para mim. Sobre saudade, relacionamentos, expressão de carinho e afeto. Acho que, mais do que informar ou divulgar o autismo, eu queria compreendê-lo — compreendê-lo para mim mesma, não apenas para educar os outros.

Sempre percebi que algo dentro de mim se inquietava em situações envolvendo emoções e suas expressões. Se eu sentisse medo, facilmente esse medo me paralisava; mas, dias depois, eu percebia que esse medo era, na verdade, tristeza. Algumas tristezas eram confundidas com raiva, o tédio com angústia, e, sempre que me perguntavam o que eu estava sentindo, a única frase que saía era: “alguma coisa está estranha”. Nem sempre eu consegui — e, na verdade, ainda não consigo — identificar quando minhas inquietações vêm dos fantasmas de dentro ou do caos de fora.

Enfim, emoções, sentimentos, reconhecê-los, nomeá-los e expressá-los sempre foram uma ciência complexa demais. Já são complexos para a humanidade; para um cérebro que funciona de forma diferente, tornam-se ainda mais confusos.

Mas o que eu queria trazer hoje, na verdade, é a minha experiência com amizades. Quando alguém nos confia seu tempo, sua atenção, seu afeto, suas risadas e suas lágrimas, isso é algo muito sagrado — valioso demais para ser subestimado.

Tive a sorte de encontrar pessoas que procuraram — e ainda procuram — me acolher, me amar como sou. Pessoas que percebem quando estou cansada, agitada ou triste; que me oferecem abraços, palavras, silêncios, caminhadas, músicas. E uma das minhas grandes dificuldades era ser essa pessoa para elas também — ser acolhimento, ser abraço nas lágrimas.

Mas o que geralmente acontecia era que algo me imobilizava na hora de acolher quando uma amiga chorava, mal me permitindo reagir. Surgia um certo pânico de estar sendo inadequada e, ao mesmo tempo, a reação “adequada” nunca aparecia — mesmo tendo recebido essas reações tantas e tantas vezes. Havia um medo de não saber ser melhor na amizade e de que, aos poucos, as pessoas se cansassem e fossem embora.

No entanto, fui descobrindo que havia o meu jeito de estar ali e de ser presente na amizade, sem precisar imitar os outros. Aprendi que, quando eu sentia saudade de alguém, eu podia simplesmente dizer: “sinto saudade” — e escrever isso para essa pessoa. Às vezes, eu me lembrava de que alguém muito querido, que eu valorizava muito, tinha dificuldade de lembrar de beber água — e eu podia lembrá-lo ao longo do dia.

Quando alguém estava triste e eu não conseguia ser o abraço, eu podia levar um brigadeiro e dizer que não queria que ela estivesse triste. Eu podia observar essas pessoas e transformar seu aniversário em um dia especial, procurando dar presentes significativos. Às vezes, tudo o que eu conseguia era oferecer um desenho. Pode parecer infantil, eu sei, mas, acredite, era um desenho cuidadosamente pensado, criado, esboçado e pintado com as melhores aquarelas a que eu tivesse acesso, para que fosse realmente especial.

Aos poucos, acho que encontrei minha forma de acolher meus amigos — de deixá-los saber que são muito especiais. Às vezes pode parecer frio, porque eu realmente não serei a pessoa que abraça diante da tristeza ou das lágrimas, mas estarei ali e, de alguma forma, tentarei estar presente.

A expressão de afeto para alguém com TEA é muito peculiar: é intensa, é grande, é profundamente sincera e cheia de significados. Nem sempre é óbvia — quase nunca, na verdade.

Este texto, hoje, eu dedico às amizades que me permitiram existir sendo exatamente assim: um pouco menos natural, levemente esquisita, talvez — mas, de qualquer forma, tentando compreender como ser e existir em um relacionamento.

Convido vocês a seguirem a página do Família Tea Bauru http://@familiateabauru e a minha página  @marianakomesu.

Outras Notícias

Domínio Global Consultoria Web