COLUNA FAMILIA TEA BAURU| Nem toda birra é birra: o que o comportamento infantil tenta comunicar, por Aline Fernanda Rocha

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Aline Fernanda Rocha

Um olhar psicopedagógico sobre comportamento, emoções e desenvolvimento infantil

Em muitos contextos familiares e escolares, ainda é comum que comportamentos intensos das crianças sejam vistos apenas como “birra”, “falta de limites” ou “manipulação”. No entanto, sob um olhar psicopedagógico e humanizado, é necessário compreender que o comportamento infantil também comunica necessidades, emoções e dificuldades que muitas vezes a criança ainda não consegue expressar pela fala.

A infância é marcada por descobertas, desenvolvimento emocional e construção das habilidades sociais. Nesse processo, a criança nem sempre possui maturidade neurológica para lidar com frustrações, mudanças de rotina, excesso de estímulos ou dificuldades de comunicação. Assim, o choro intenso, os gritos, a irritabilidade e até mesmo algumas explosões emocionais podem representar pedidos de ajuda, insegurança ou sobrecarga emocional.

No caso de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), dificuldades sensoriais, alterações na comunicação e desafios na autorregulação emocional podem fazer com que determinadas situações sejam vivenciadas de forma ainda mais intensa. Sons altos, ambientes agitados, mudanças inesperadas ou dificuldades para expressar desejos podem desencadear comportamentos interpretados equivocadamente como “birra”.

Entretanto, é importante destacar que nem toda manifestação emocional intensa está relacionada ao TEA. Crianças neurotípicas também podem apresentar dificuldades emocionais e comportamentais em diferentes fases do desenvolvimento. Por isso, mais do que rotular comportamentos, é essencial observar o contexto em que eles acontecem, sua frequência, intensidade e os sinais que acompanham essas manifestações.

O olhar psicopedagógico busca compreender a criança em sua totalidade, considerando aspectos emocionais, cognitivos, sociais e ambientais. Muitas vezes, a dificuldade de aprendizagem, o cansaço emocional, a ansiedade ou até mesmo a falta de acolhimento podem refletir diretamente no comportamento infantil.

Na escola, a escuta sensível do professor faz diferença. Crianças que frequentemente são vistas como “difíceis” podem, na verdade, estar enfrentando dificuldades para lidar com emoções, excesso de cobranças ou até mesmo sofrimento emocional silencioso. Quando o adulto acolhe antes de punir, observa antes de julgar e busca compreender antes de rotular, cria-se um ambiente mais seguro para o desenvolvimento infantil.

A família também possui papel fundamental nesse processo. O acolhimento emocional, a previsibilidade das rotinas, os limites estabelecidos com afeto e o diálogo respeitoso ajudam a criança a desenvolver estratégias de autorregulação emocional. Isso não significa ausência de limites, mas sim compreender que educar também envolve ensinar a criança a reconhecer e nomear aquilo que sente.

A neurociência tem demonstrado que emoções e aprendizagem caminham juntas. Uma criança emocionalmente sobrecarregada possui mais dificuldade para manter atenção, organizar pensamentos e aprender. Por isso, comportamento e aprendizagem não devem ser vistos de forma separada.

Mais do que corrigir comportamentos, é necessário perguntar: o que essa criança está tentando comunicar? Muitas vezes, por trás de uma “birra”, existe uma criança cansada, frustrada, insegura, sensorialmente sobrecarregada ou emocionalmente desorganizada.

Compreender o comportamento infantil com sensibilidade não significa ignorar limites ou regras, mas reconhecer que toda criança precisa ser vista para além do comportamento que apresenta. O desenvolvimento saudável acontece quando há escuta, acolhimento e respeito às singularidades da infância.

Agradeço ao grupo Família TEA Bauru e ao Portal GPN pela oportunidade.

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Aline Fernanda Rocha
Pedagoga e Psicopedagoga
Especialista em desenvolvimento infantil e aprendizagem
@alinerocha.psico.pedagogia

Referências

BEE, Helen. A criança em desenvolvimento. Porto Alegre: Artmed, 2011.

BOSA, Cleonice Alves. Autismo: intervenções psicoeducacionais. Revista Brasileira de Psiquiatria, 2006.

CUNHA, Eugênio. Autismo e inclusão: psicopedagogia e práticas educativas na escola e na família. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2015.

WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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