“Eu tenho uma série de programas contra as mulheres, que inclusive levei adiante”. Essa frase foi dita pelo ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, candidato do Novo à presidência da República, ao Jornal Nacional na segunda-feira (24). Zema teve um ato falho daqueles óbvios para qualquer pessoa que entenda o básico de psicanálise e que diz muito não só sobre ele, mas também sobre o Brasil de 2026, quando o país bate recordes de feminicídio e as instituições falham miseravelmente em proteger as mulheres.
A justiça do país, por exemplo, tem mostrado claramente que é mesmo “contra as mulheres”. Essa semana, alguns casos jogaram, de novo, isso na nossa cara. Em Goiás, Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, foi sequestrada e mantida em cativeiro por cinco dias pelo seu ex-parceiro, Aílton Rodrigues de Souza, pai dos seus filhos. Ela foi submetida a torturas, estupros e foi encontrada pela polícia acorrentada e com uma máscara de gás no rosto em um imóvel alugado pelo suspeito. Ou seja, um filme de terror.
A história fica ainda mais assustadora quando a gente descobre que a mulher já tinha feito 10 boletins de ocorrência por violência doméstica e tentativas de homicídio contra o homem e nada aconteceu. E, o mais chocante: depois de ameaças de morte, tentativas de homicídio e atentados (ele teria, por exemplo, afrouxado os rodas do carro da vítima e jogado bombas e rojões na casa dela), ela entrou com pedido de medida protetiva contra o ex. Só que esse pedido foi negado pela justiça. De acordo com o Ministério Público de Goiás, houve “incerteza da autoria e ausência de elementos concretos”.
Mais uma vez, uma mulher não foi ouvida e o sistema falhou. Isso acontece, é óbvio, por causa de um machismo que é intrincado em toda a sociedade, que falha na hora de proteger as mulheres, ou citando Zema, atua contra elas.
Se a lei tivesse sido cumprida pelo juizado que NEGOU a medida cautelar, o agressor não teria se aproximado mais da vítima, sob risco de prisão. E, claro, os boletins de ocorrência de violência doméstica e ameaças seríssimas não seriam apenas arquivos mortos em computadores de delegacias e tribunais.
O quanto a sociedade tem que ser contra as mulheres para que uma medida protetiva para defender uma pessoa que já registrou 10 boletins de ocorrência seja negada? O que mais uma mulher pode fazer para se proteger se Emiliane fez tudo direitinho, seguiu todo o protocolo recomendado para que mulheres sigam em caso de violência doméstica e absolutamente nada aconteceu? Nenhum programa de combate à violência contra doméstica vai melhorar a situação de guerra do país se agentes públicos continuarem agindo contra as mulheres nas instituições que deveriam protegê-las.
Emiliane foi encontrada pela polícia depois que sua família registrou o seu desaparecimento. O agressor tentou fugir, mas foi preso em flagrante. Infelizmente, tarde demais.
Mulher jogada do décimo andar
Na mesma semana em que Emiliane foi sequestrada, ficamos sabendo que o empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, preso em dezembro do ano passado, suspeito de jogar a ex, Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos, do 10º andar do prédio onde ela morava, no Morumbi, em São Paulo, havia sido solto. Ou seja, mais uma vez, a justiça mostrou de que lado está: contra as mulheres.
No país que ainda odeia as mulheres, um homem pode até jogar uma ex pela janela de um apartamento que fica impune. O empresário havia sido preso em dezembro, ou seja, ele ficou apenas oito meses na prisão. O que são esses meses de diante da vida de uma mulher que, repito para que a crueldade fique explícita, foi assassinada jogada do décimo andar? Essa é mais uma metáfora para a terrível situação das mulheres do país: somos jogadas, atiradas ao deus dará, descartadas, enquanto nossos algozes são liberados para “viver a vida”.
O que nos resta? “Contar os mortos”, como diria o rapper Criolo. E repetir, de novo, nossas estatísticas de guerra. De acordo com dados divulgados pelo Sinep (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública) o Brasil registrou 848 casos de feminicídio nos primeiros sete meses de 2026. Em 2025, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025. Como negar que o país é “contra as mulheres”?
Fonte: ICL Notícias


