‘É uma eleição de rejeição ao PT’ e desafio para segundo turno é cativar abstenções, avalia analista

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As duas últimas pesquisas de intenção de votos do Datafolha e da Quaest, divulgadas na véspera do primeiro turno das eleições, captaram a tendência de crescimento de Flávio Bolsonaro (PL), cuja campanha passou a apostar na narrativa do voto útil. Com isso, o senador terminou a votação com 47,03% do eleitorado e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou em segundo lugar com 45,16%.

Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a cientista política Priscila Lapa avalia que a construção desse discurso e o investimento da campanha em influenciadores acabaram por desidratar as outras candidaturas e provocar a migração de votos de última hora. Além disso, o resultado prova que a vitória de Lula em 2022 não freou o crescimento da extrema direita, que, inclusive, ganhou muito espaço no Congresso nesta eleição. “Foi uma circunstância de má avaliação da gestão Bolsonaro, congregada com a conjuntura da pandemia, que permitiu a união de forças de centro em torno da candidatura de Lula pela pauta democrática, que permitiu a eleição de Lula em 2022”, pondera.

Ela lembra que o Congresso eleito em 2018, quando Jair Bolsonaro venceu a presidência, já se mostrava conservador, que esse conservadorismo se ampliou em 2022 e, agora, esse cenário se aprofundou. “É como se, a cada eleição, a cada ciclo eleitoral, a gente estivesse fazendo mais um passo à direita”, resume. “Mais importante do que dizer pela direita, é pelo PL que se torna o maior partido do Brasil.”

Lapa destaca que, em 2022, Donald Trump não era presidente dos EUA e não promoveu qualquer interferência como fez dessa vez. Além disso, a cientista política avalia que o governo Lula não conseguiu capitalizar adequadamente sobre pautas importantes, como o fim das bets. “Foi uma eleição de rejeição ao PT, e isso fica claro ao olhar os resultados nos estados”, afirma, ao destacar que “talvez os institutos não tenham conseguido captar essa onda da direita”.

Priscila Lapa aponta que, além de uma má avaliação geral do governo, Lula precisa lidar com o antipetismo. “É um cenário extremamente desafiador, porque, quando a gente vê os números, a gente vê o tamanho e a pujança que essa agenda bolsonarista tem. Independentemente dessa polarização, há um governo disputando a reeleição e eles têm o poder da caneta, têm o poder de tomar decisões, eles têm o poder de tornar atrativamente política a manutenção de alianças de aliados”, destaca, citando sinalizações como a de Hugo Motta e Davi Alcolumbre.

Para ela, contudo, isso não tem sido suficiente, assim como não tem funcionado a narrativa de defesa da democracia. “É muito difuso. A campanha precisa, de maneira assertiva, mostrar, de fato, o que foi conquista do governo atual, o que é conquista e que não pode ser interrompido. É um desafio imenso, mas não é impossível”, pondera.

Sobre as abstenções, que superaram os 33 milhões de eleitores, Lapa avalia que, para vencer, Lula precisa, sim, olhar para esses números. “Ele precisa que mais pessoas do seu campo político vão votar. A abstenção tem um impacto cada vez mais expressivo nas eleições e isso precisa dizer alguma coisa sobre a necessidade de mudança de modelo”, destaca.

Senado X STF

A extrema direita conseguiu eleger 49 senadores para os próximos oito anos, isso sem contar a composição da Câmara dos Deputados, com 121 parlamentares do PL, promovendo uma verdadeira avalanche bolsonarista. Uma das principais pautas da extrema direita é modificar o Supremo Tribunal Federal (STF).

E é justamente o Senado que pode levar a cabo essa promessa de campanha de Flávio Bolsonaro. Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Maria do Socorro Souza Braga, professora de ciência política na UFScar, disse que esse movimento representa um descontentamento com relação à classe política. “A gente pode esperar muitas mudanças. Porque eles foram eleitos com essa promessa de impeachment de ministros do STF”, pontua.

Braga destaca que outra agenda importante para os bolsonaristas é tirar o ex-presidente Jair Bolsonaro da prisão domiciliar. “Então, é possível que a gente tenha negociações também envolvendo, não só o ex-presidente, mas também os condenados no 8 de janeiro. Eu penso que é possível que haja todas essas tratativas no futuro, justamente porque esse grupo sai muito fortalecido”, afirma. “Acabamos ficando nas mãos desse grupo porque não é só o Senado, eles tiveram um aumento expressivo na Câmara e nas assembleias estaduais, e também governos estaduais”, aponta.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.





Fonte: Brasil de Fato

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