A renovação chegou ao Congresso pelas mãos de quem já tinha poder

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No domingo, Alagoas fez duas escolhas que parecem contraditórias. Encerrou a carreira de Renan Calheiros, que buscava o quinto mandato seguido no Senado, terminando em terceiro lugar. E elegeu para a Câmara o deputado mais jovem da história da Casa: Alvinho Lira, de 20 anos, o candidato a federal mais votado do estado, com 172.628 votos.

Alvinho é filho de Arthur Lira, ex-presidente da Câmara, que no mesmo domingo conquistou uma vaga no Senado por Alagoas. É neto de Benedito de Lira, o Biu, que foi vereador, deputado estadual, deputado federal, senador e prefeito de Barra de São Miguel, onde o neto trabalhou como gestor administrativo antes de disputar a primeira eleição. Lira e Renan protagonizaram  uma das disputas políticas mais marcantes do período recente.

A eleição que aposentou o político mais longevo de Alagoas não tirou o estado da lógica das famílias. Trocou uma por outra (Sai: Calheiros. Entra: Lira). E ainda entregou a ela (Lira) duas cadeiras ao mesmo tempo: pai no Senado, filho na Câmara.

No Rio Grande do Sul, Paulo Paim também sairá em fevereiro, mas por vontade própria, depois de 40 anos ininterruptos de mandato no Legislativo Federal. Paim veio do sindicato laboral, construiu base política consistente e transformou essa base em agenda legislativa. O Estatuto do Idoso e o Estatuto da Pessoa com Deficiência são produtos típicos desse modelo: leis longas, negociadas por anos, que exigem permanência e paciência institucional.

Quem são os mais jovens congressistas

Os cinco deputados federais mais jovens eleitos em 2026 têm entre 20 e 24 anos. A trajetória de cada um mostra um mecanismo diferente de recrutamento político.

Alvinho Lira (PP-AL), 20 anos. Terceira geração de uma dinastia regional. Recebeu pronta uma estrutura que levou décadas para ser construída: base municipal, rede de prefeitos aliados, sobrenome conhecido e acesso ao centro do poder em Brasília.

Ana Elisa (PT-MG), 21 anos. Estudante de Direito em Divinópolis, chegou à eleição com um capital digital de cerca de 1,9 milhão de seguidores e fez aproximadamente 524 mil votos, entre os mais votados de Minas. Filiou-se ao PT apenas em março de 2026 e nunca havia disputado eleição. Filha de professora, cresceu em ambiente ligado ao sindicalismo, o que indica socialização política.

Sandro Filho (PP-BA), 21 anos. Criado em Coutos, no entorno de Salvador, foi eleito vereador em 2024, aos 19 anos, com 12.565 votos. Agora é o deputado federal mais jovem já eleito pela Bahia. Sua escola política foi o MBL, do qual era uma das principais lideranças no estado.

Thiago Medina (PL-PE), 23 anos. Ganhou projeção ainda adolescente com conteúdo conservador nas redes, sobretudo em temas de educação, religião e cultura. Elegeu-se vereador do Recife em 2024 com 10.540 votos e integrou a rede de candidatos apoiados nacionalmente pelo Deputado Nikolas Ferreira de Minas Gerais.

Julia de Castro (PL-RJ), 24 anos. Formada em História, nascida em São João de Meriti, é vice-presidente nacional do PL Jovem e também fez parte da rede de endossos de Nikolas.

O que esses perfis revelam

Olhando os cinco casos juntos, aparecem três formas de capital político.

  1. O capital herdado, de Alvinho: transmite-se sobrenome, reduto eleitoral e máquina municipal.
  2. O capital de audiência, de Ana Elisa: seguidores convertidos em eleitores e, consequentemente, em votos, com a filiação partidária chegando depois da popularidade digital.
  3. O capital de rede, de Sandro, Thiago e Julia: organizações políticas e lideranças digitais que funcionam como incubadoras de candidatos. Aqui não se transmite sobrenome nem prefeitura. Transmite-se endosso, linguagem, audiência e acesso a uma comunidade nacional de eleitores.

Há ainda um dado de equilíbrio político que não pode passar despercebido. Quatro dos cinco chegam por partidos ou organizações do campo da direita: dois pelo PL, dois pelo PP, sendo um deles formado no MBL. Só uma vem da esquerda. A renovação etária, ao menos no topo da lista, está à direita.

Onde está o problema

Nenhum desses caminhos é ilegítimo. Todos passaram pela avaliação do eleitor e pelo crivo do voto. O ponto é entender por que são esses caminhos funcionaram.

A lista aberta premia quem já é conhecido. Na eleição para deputado, o eleitor vota em nomes e dentro de cada partido ficam com as vagas os mais votados individualmente. O novato desconhecido disputa contra adversários e também contra os colegas de legenda. Sobrenome e seguidores são, na prática, reconhecimento de nome adquirido antes da campanha.

O dinheiro passa pela cúpula. O Fundo Eleitoral é público, mas cada partido decide como reparti-lo. Quem tem padrinho (ou pai) na direção partidária tem campanha bem encaminhada. Quem não tem, depende de outra fonte de visibilidade.

As carreiras intermediárias encolheram. O percurso que levou Paim a Brasília, da representação dos trabalhadores à Constituinte, quase não aparece entre os que entram cedo. Mesmo os dois que passaram por câmaras municipais, Sandro e Thiago, ficaram pouco mais de um ano como vereadores. O mandato local deixou de ser etapa de formação e virou plataforma de lançamento.

Um detalhe institucional ilustra a velocidade. A Constituição exige 21 anos para ser deputado federal, mas a lei eleitoral verifica essa idade na data da posse. Por isso um candidato de 20 anos pode disputar e vencer. A regra é razoável. O que chama atenção é que alguém chegue ao Congresso antes mesmo da idade mínima, porque isso só é possível com capital político acumulado por outras pessoas ou por outros meios.

O que devem trazer de novo

É cedo para falar em agendas legislativas. Nenhum dos cinco tem histórico em Brasília. Mas a origem de cada mandato permite antecipar os incentivos que vão orientar o comportamento de cada um.

Alvinho Lira tende a ter um mandato que já nasce conectado à estrutura que distribui poder na Câmara e no orçamento. O incentivo é de continuidade: atender a base municipal, manter alinhamento com o grupo familiar, agora reforçado com uma cadeira no Senado. É o tipo de parlamentar que o sistema absorve com facilidade, justamente porque não o desafia.

Os eleitos pelas redes trazem um novo modo de exercer o mandato. Para Ana Elisa, Thiago e Julia, a base eleitoral não está num território, está numa audiência. Isso muda o cálculo. O retorno político mais rápido não vem de relatar um projeto ou presidir uma comissão, vem do discurso que viraliza, do embate gravado, do corte compartilhado. A tendência é de mandatos mais voltados à comunicação de massa e às pautas de identidade, de costumes e de valores do que ao trabalho legislativo lento, como foi a tragetória de Paim.

Os eleitos por redes organizadas trazem disciplina coletiva. Sandro, ligado ao MBL, e Thiago e Julia, ligados à rede de Nikolas, chegam como parte de algo maior do que o próprio mandato. Isso pode significar atuação coordenada, pautas comuns e um peso político que excede o voto individual de cada um.

O choque está na forma como a Câmara distribui poder. Relatorias, comissões, emendas e espaço na pauta passam pelos líderes partidários e pela Mesa Diretora. Quem chega com audiência mas sem vínculo com essa engrenagem terá voz nas redes e pouca capacidade operacional no jogo de poder (faltará caneta). Quem chega com sobrenome terá a caneta sem precisar de voz.

Notas conclusivas

Há uma simetria nesta eleição que diz mais do que qualquer estatística.

Paulo Paim e Renan Calheiros estavam no plenário em 1988, quando a Constituição foi promulgada. Um veio do chão de fábrica, o outro da política alagoana, mas ambos pertenciam a uma geração que entrou no Congresso para redesenhar as regras do jogo. Quase quatro décadas depois, os dois saem juntos. E quem chega para ocupar o espaço dessa geração não vem reescrever as regras. Vem de quem aprendeu a vencer com elas.

Alvinho Lira não precisou conhecer o sistema: nasceu dentro dele. Os eleitos pelas redes construíram algo que nenhum partido lhes deu, autoridade digital, e converteram seguidor em eleitor. Mas, na maioria dos casos, até essa autoridade teve padrinho: um movimento que formou, um influenciador que endossou, uma legenda que financiou.

Alagoas resume o paradoxo. O eleitor derrotou Renan Calheiros e, no mesmo domingo, entregou duas cadeiras à família Lira. Trocou um sobrenome tradicional por outro. Mudou o nome, não o método.

A Constituição que Paim e Renan ajudaram a escrever prometia que qualquer cidadão poderia chegar ao Congresso. No papel, a promessa foi cumprida: a idade mínima é baixa, o voto é livre, a candidatura é aberta. O que o texto de 1988 não previu é que a porta pudesse estar aberta e, ainda assim, ter dono.

Nada disso tira a legitimidade de quem foi eleito. Tira apenas a ilusão de que juventude, sozinha, é renovação. Renovar não é trocar quem senta na cadeira. É mudar a forma como se chega a ela e o que se faz depois de sentar.

Paim levou quarenta anos para se despedir. A nova geração terá quatro para mostrar que não veio apenas ocupar o lugar, mas transformá-lo.





Fonte: ICL Notícias

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