Dra. Cecília Cury
Ao pensar na alimentação de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma das primeiras questões que a nutricionista deve investigar é a presença e a intensidade da seletividade alimentar.
A seletividade alimentar pode se manifestar por meio da recusa de determinados alimentos, de um repertório alimentar restrito e repetitivo e, nos casos mais intensos, do consumo de apenas um ou poucos tipos de alimentos durante dias ou até semanas. Essa restrição pode comprometer a ingestão adequada de nutrientes essenciais, prejudicando o crescimento, o desenvolvimento e a saúde de crianças e adolescentes.
Diante desse cenário, surge uma pergunta fundamental: como podemos atuar para favorecer a aceitação alimentar?
Um dos pontos que considero essenciais é a previsibilidade alimentar. Ela está relacionada à criação de uma rotina que ofereça segurança e familiaridade. Isso pode envolver horários definidos para as refeições, o cuidado no preparo dos alimentos, a organização da mesa e o hábito de realizar as refeições em família, em um ambiente tranquilo e acolhedor.
É também resgatar hábitos que, muitas vezes, foram deixados de lado pela correria do dia a dia. Afinal, a alimentação não envolve apenas nutrientes: ela também é rotina, experiência, vínculo e afeto.
Essa previsibilidade pode ser estendida à forma como os alimentos são apresentados. Vamos utilizar o milho como exemplo.
Quando servido na espiga, o milho apresenta uma organização visual previsível: os grãos estão dispostos de maneira ordenada, com formato, textura e coloração relativamente uniformes. Para algumas pessoas autistas, essa apresentação pode facilitar o reconhecimento do alimento e proporcionar maior segurança, reduzindo o desconforto diante do desconhecido.
Agora, imagine o milho misturado ao arroz. Embora os ingredientes sejam os mesmos, a apresentação muda. Os grãos de milho aparecem distribuídos entre os grãos de arroz, criando uma combinação de cores, formas e texturas. Para algumas pessoas com seletividade alimentar, essa mistura pode representar uma quebra da previsibilidade e aumentar a possibilidade de recusa.
Esse exemplo nos ajuda a compreender por que a maneira como o alimento é apresentado pode ser tão importante quanto o próprio alimento.
Não por acaso, muitos alimentos industrializados podem ser mais facilmente aceitos. Seus formatos, sabores, texturas e cores tendem a ser padronizados, oferecendo uma experiência sensorial mais consistente e previsível. Para algumas pessoas autistas, essa constância pode representar conforto e segurança.
Isso não significa que os alimentos industrializados sejam a solução para a seletividade alimentar, mas que precisamos compreender o que torna determinados alimentos mais seguros e aceitáveis para cada indivíduo.
A previsibilidade pode ser um ponto de partida para a nossa atuação nutricional. Respeitar as particularidades sensoriais, compreender as dificuldades individuais e construir experiências alimentares positivas são caminhos importantes para ampliar, gradualmente, o repertório alimentar.
Sim, existem possibilidades de intervenção na seletividade alimentar! E talvez um dos primeiros passos seja olhar para o alimento de outra maneira: compreender não apenas o que estamos oferecendo, mas também como ele está sendo percebido.
Antes de insistir para que uma criança experimente um novo alimento, vale refletir: estamos oferecendo nutrição ou também estamos oferecendo segurança, familiaridade e previsibilidade?
Pensemos sobre a previsibilidade alimentar. Ela pode ser uma importante aliada na construção de uma relação mais positiva com a comida.
Agradeço ao grupo Família TEA Bauru e ao Portal GPN pela oportunidade.
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