Selvagens, por vezes incontroláveis; essencialmente imprevisíveis. Todas as escolhas carregam consequências; nem tudo pode ser antecipado, a previsibilidade se torna com frequência, frágil diante das possibilidades de cenários resultantes das mais simples escolhas.
A verdade é que o arrependimento cheio de remorso e dor, numa identidade quebrada e incerta de si mesma carrega o potencial de nos paralisar na angústia de imaginar o que teria sido “se”.
Diante disso, posso talvez concordar com Thoreau de que todas as coisas boas são selvagens e livres, no entanto, muitas coisas ruins também o são. E a complexa tarefa de distingui-las umas das outras é o que me leva a vários e sucessivos colapsos ao longo dos dias. Existe a vontade de viver a liberdade de tudo o que é bom, mas igualmente uma coleção de marcas deixadas pela mesma liberdade do que foi ruim. E quase todas essas experiências foram de fato resultados diretos das minhas escolhas. Não posso desfazer escolhas que fiz nem apagar as marcas deixadas por elas, não posso simplesmente apagar quem eu fui e nem ignorar os medos de quem me tornei, talvez aos poucos aceitar minhas próprias rejeições.
Não sei o quanto de vida em mim realmente quer viver; sei que muito da vida em mim continua sobrevivendo contra estatísticas e probabilidades. Muito do que me traz paz é o apego quase obsessivo à previsibilidade, mas a natureza de tudo o que está vivo é definitivamente selvagem e livre e isso basicamente transforma toda forma de previsibilidade em uma angústia à espreita, esperando a barreira da segurança prevista ruir diante de notícias, imprevistos, interrupções, cancelamentos, doenças, decisões. Há muito mais palavras para as possibilidades do incontrolável do que para o que se pode sempre e absolutamente controlar, prever, assegurar e isso torna a vida assustadora. Se pelo menos eu soubesse reconhecer que num tom de voz existia um pedido de ajuda, que algumas lágrimas pediam companhia; mas em algum lugar a imagem e a ação se desentendem. Todos os padrões são passíveis de interrupção e o mais imprevisível de todos eles é a interação. Isso torna a vida assustadoramente selvagem
Mariana Komesu Lima* é professora bilíngue, graduada em Letras (Português/Inglês) e em Pedagogia, escritora, poeta e ilustradora de livros infantis. Membro da Academia Linense de Letras, desenvolve projetos que aproximam literatura, arte e educação, valorizando a criatividade, a imaginação e as múltiplas formas de expressão na infância.
Pessoa autista (TEA), com TDAH e altas habilidades, Mariana reconhece na neurodivergência uma dimensão importante de sua trajetória pessoal, profissional e criativa. Por meio da escrita e da ilustração, explora diferentes maneiras de perceber, interpretar e expressar o mundo, transformando experiências, ideias e sensibilidades em palavras e imagens.
Agradeço ao grupo Família TEA Bauru e ao Portal GPN pela oportunidade.
Por fim , convido vocês a seguirem as páginas :
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