FICÇÃO: mãe esfaqueou cachorro da filha por causa da eleição presidencial; voto contrário levou ao bárbaro crime.

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Aqui, uma peça de ficção simulando um depoimento da filha, apenas como exercício jornalistico literário para entender como a barbárie aportou no Brasil desde as eleições de 2018 e se propaga até hoje

O silêncio na viatura da polícia era o som mais alto que eu já tinha ouvido na vida. Eu estava sentada no banco de trás, olhando para as minhas próprias mãos trêmulas, sem conseguir acreditar que o sangue nelas não era de um paciente do hospital, mas da nossa cachorrinha. Minha mãe, aquela mulher que eu via todos os dias, tinha se transformado em um monstro bem na minha frente.

Tudo começou por causa de política. Uma maldita discussão na sala sobre o resultado da eleição. O tom subiu, as ofensas vieram e, no meio daquela gritaria, eu a chamei de louca. Ela subiu as escadas cega de raiva. Quando viu que a lhasa tinha defecado na cama dela, parece que aquela fúria acumulada contra mim mudou de alvo. Ela desceu a escada com os olhos fixos, pegou a faca na cozinha e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, desferiu o golpe. O ganido da nossa cachorrinha ecoou pela casa inteira e o sangue começou a escorrer, manchando o chão.

Naquele segundo, olhando para o desespero do animalzinho e para a frieza da minha mãe, eu soube o que tinha que fazer. Peguei o telefone com os dedos suados e disquei 190. Denunciar a própria mãe é uma dor que eu não desejo para ninguém; destrói uma família por completo. Mas eu também sou da área da saúde, fui ensinada a proteger a vida e não podia ser cúmplice daquela crueldade. Agora, vendo ela sair algemada e sabendo que a nossa cachorrinha está sob cuidados na UBS, sinto um vazio enorme no peito, mas com a certeza de que fiz a única escolha certa possível.

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