O senador Flávio Bolsonaro (PL) chegou ao debate da TV Globo desta sexta-feira (23) com uma aparente moderação, que foi abandonada nos dois momentos de maior tensão do encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O candidato de extrema direita chamou o petista de “nove dedos”, em referência pejorativa ao dedo que o adversário perdeu em um acidente de trabalho.
“Nesse momento, o Flávio ficou completamente destreinado”, afirmou a cientista política Priscila Lapa, durante participação na live do Brasil de Fato depois do debate.
A provocação veio no primeiro bloco, quando Lula questionou o adversário sobre a proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana. “Não adianta nada o salário mínimo de R$ 1,6 mil se você dá com uma mão e tira com os nove dedos”, disse Flávio.
Lula reagiu no bloco seguinte. “Ele me chamou de nove dedos. Se tem alguém que perdeu o dedo […], fui eu, trabalhando de noite, que eu não podia trabalhar. Não vou permitir que o miliciano me chame de nove dedos”, disse o presidente, que cobrou retratação. “Você vai ter que pedir desculpa porque o povo trabalhador está vendo”.
Para o jornalista Igor Carvalho, a provocação foi uma “deselegância absoluta e absurda”. “É um presidente da República que não pode ser tratado dessa forma publicamente”, afirmou. Segundo ele, a resposta de Lula resgatou a biografia do presidente para um público majoritariamente jovem, faixa em que se concentram os indecisos.
Flávio Bolsonaro recuou. “Lula, se eu te ofendi porque eu te chamei de nove dedos, então eu te peço desculpas de verdade”, afirmou. Em seguida, porém, passou a cobrar que Lula também pedisse desculpas.
“Aí não comove. Aí não fica genuíno”, avaliou Priscila Lapa. Para ela, o episódio foi um dos momentos em que Lula se conectou tanto com o próprio eleitorado quanto com quem não vota nele.
“Por mais que algumas pessoas não gostem, não simpatizem com o estilo político de Lula, é duro você ouvir que um trabalhador perde um dedo trabalhando”, afirmou. Nas considerações finais, Lula pediu desculpas pelo tom elevado adotado durante o confronto.
Duas desculpas
Esse não foi o único recuo do senador na noite. Questionado por Lula sobre o voto contra a ampliação da licença-maternidade das servidoras estaduais, em 2009, quando era deputado no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro disse que foi um “erro”. A proposta foi aprovada na Assembleia Legislativa por 54 votos a 1, e o único voto contrário foi o dele. “Eu votei acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem arrumar emprego. Eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância de a mãe estar perto do filho por até mais de 180 dias, se possível”, disse.
Para Priscila Lapa, a justificativa revela uma visão “muito parcial”, que ignora que boa parte das famílias brasileiras é chefiada por mulheres, muitas delas mães solo. “Independentemente de você ser casada ou não, você é mulher, você tem os seus direitos, você exerce sua maternidade”, afirmou.
Para Igor Carvalho, num debate em que os dois candidatos tentavam errar o mínimo possível, os dois pedidos de desculpas deixaram o senador em desvantagem. “Nessa tensão de quem erra menos para se comprometer o menos possível, me parece que o Flávio perde o jogo”, afirmou.
Ana Clara
O momento de maior constrangimento ocorreu quando Lula levou ao debate o caso de Ana Clara, morta aos cinco anos, em 2 de fevereiro de 2021, enquanto brincava na porta de casa, em Niterói (RJ). O policial militar acusado do crime teve Flávio Bolsonaro na equipe de defesa, que recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar evitar o júri popular. A mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva, acompanhava o debate na plateia, a convite de Lula, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Guilherme Boulos.
Ao se dirigir a ela, o senador a chamou pelo nome da filha. “Ana Clara, eu quero falar para a senhora: está, de verdade, a minha solidariedade. Foi uma tragédia o que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filhinha de 5 anos de idade. Eu tenho uma filha de 14 e uma filha de 12. Era uma troca de tiros em uma comunidade conflagrada”, disse. Ao ouvir o nome da filha, Cristiane gritou da plateia: “Ela morreu!”.
O senador seguiu defendendo o policial. “O que eu estou fazendo é porque eu quero ajudar a senhora, inclusive, a saber quem foi o autor desse disparo. Porque eu tenho a confiança que não foi esse policial”, afirmou. O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou o PM por homicídio doloso, sustentando que ele assumiu o risco de matar ao atirar numa área residencial.
Para Priscila Lapa, o senador tentou tratar o caso como “página virada”, tática que, segundo ela, ele já usa ao ser confrontado sobre a relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, sem explicar por que atuou na defesa do policial. “A gente está falando de uma mãe que perdeu uma filha por um tiro de fuzil. Isso une todas as pessoas, e, se isso não une os seres humanos, eu não sei, sinceramente, o que pode humanizar alguém”, afirmou.
A cientista política vê nesses momentos um efeito que vai além da votação. “Mesmo que Lula vença a eleição, fica um legado de algo que precisa ser reconstruído, que são consensos mínimos na sociedade brasileira”, pontuou.
“É muito pedagógico também, independentemente do desfecho da eleição, que as pessoas comecem a compreender o que não pode ser mais tolerado”, ressaltou a cientista política.
Fonte: Brasil de Fato


