Flipei: ‘Autodefesa coletiva é caminho para enfrentar o patriarcado’

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A gente reivindica a autodefesa a partir dessa perspectiva de autonomia e não de individualidade”, afirmou a militante feminista Vitória Lobo, coordenadora do Centro Social e Desportivo Estrela Vermelha. Para ela, a capacidade de se defender precisa ser construída também a partir da participação coletiva e de redes de apoio. A análise ocorreu durante a mesa “Enfrentando o patriarcado: perspectivas da autodefesa feminina”, na 8ª edição da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (FLIPEI).

A Opera Mundi, Lobo destacou que o processo da autodefesa começa antes da reação física. É, necessário, em sua avaliação, reconhecer que a vida das mulheres tem valor e que sua integridade física, psicológica e social deve ser preservada. “A gente precisa inicialmente entender que a nossa vida vale a pena”.

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A militante também defendeu que a autodefesa seja pensada a partir de relações de solidariedade. Como exemplo, citou situações cotidianas em que uma rede de apoio pode contribuir para a segurança das mulheres. “Vou pro centro de noite, tem alguma camarada que pode me dar uma carona, posso dormir na casa de alguém, posso voltar de uma forma, disse.

Para Lobo, construir a autodefesa coletivamente significa criar condições para que a segurança não seja tratada como uma “responsabilidade exclusivamente individual”, nem colocada apenas sobre as próprias mulheres. “Eu tenho capacidade de me defender e de defender qualquer pessoa que eu vejo que está sendo vítima de alguma violência”.

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A mesa também contou com as participações da ex-lutadora profissional Paula Yurie e da antropóloga Tainá Farrielo. As participantes discutiram como a autodefesa pode ultrapassar o aprendizado de técnicas corporais e se tornar uma ferramenta de autonomia, produção de conhecimento e enfrentamento à violência contra mulheres.

Ao falar sobre autoridade, Farrielo não se referia apenas a uma posição de comando, e sim a uma forma de produção de conhecimento. De acordo com a antropóloga, reconhecer mulheres como autoridades também significa reconhecer a capacidade de seus corpos produzirem saber, ocuparem espaços e participarem da construção de estratégias de defesa.

“Nós não reconhecemos mulheres enquanto autoridades. E isso é muito forte, porque isso nos enfraquece coletivamente”, afirmou. Para ela, a falta de reconhecimento também interfere na maneira como as próprias mulheres percebem sua capacidade de produzir conhecimento e ocupar espaços de autoridade.

Tainá Farrielo (direita), Paula Yurie (centro) e Vitória Lobo (esquerda)
Raissa Neves

Conhecimento da luta como ferramenta de autonomia

A discussão sobre conhecimento apareceu também na fala de Paula Yurie, que questionou, a partir de suas experiências nos espaços de luta, a redução da autodefesa ao aprendizado de movimentos. Para a ex-lutadora, uma pessoa precisa desenvolver capacidade para lidar com situações de conflito, e não apenas memorizar técnicas.

“Por que o espaço da luta continua sendo predominantemente masculino para transmitir esse conhecimento, enquanto foi criado um espaço de autodefesa para as mulheres aprenderem apenas os movimentos de defesa?”

Para a professora, a questão também está na maneira como oficinas rápidas apresentam a autodefesa. Ela explicou que, em uma atividade de duas horas, parte do tempo pode ser usada para descobrir possibilidades do próprio corpo, enquanto outra parte é dedicada à tentativa de memorizar técnicas que exigem raciocínio e prática. Por isso, defendeu que existem conhecimentos e processos que precisam acontecer antes de uma mulher desenvolver plenamente a capacidade física de reagir a uma violência.

Farrielo relacionou esse processo à necessidade de “deseducar” o corpo. De acordo com a professora, a autodefesa feminista pode contribuir para que mulheres desenvolvam pensamento crítico, compreendam as relações de poder e reconheçam o próprio corpo como possibilidade de ação e autoridade. “A autodefesa tem uma potencialidade da gente reconhecer o nosso corpo como possibilidade de ser uma autoridade”.



Fonte: Opera Mundi

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