Greve dos Correios: sindicato alerta para retrocesso na universalização dos serviços postais

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A greve dos trabalhadores dos Correios tem como um dos principais pontos de disputa o plano de reestruturação apresentado pela direção da empresa para reduzir o custo da operação. Para o Sindicato dos Trabalhadores dos Correios do Distrito Federal (Sintect-DF), no entanto, as medidas propostas colocam em risco a continuidade de um serviço essencial para a população.

“Às vezes o Correio é o único braço do Estado para emissão de um documento, fornecimento de livros didáticos, na operação do Enem, distribuição de medicamentos”, explica a presidenta do sindicato, Amanda Corcino.

Em entrevista ao Brasil de Fato DF, ela afirmou que a paralisação foi deflagrada por dois motivos: a oposição ao projeto de reestruturação e a defesa de direitos previstos no acordo coletivo da categoria.

Segundo a dirigente, o plano apresentado pela direção prevê cortes na operação, fechamento de unidades e programas de demissão voluntária. Ela também aponta a redução do quadro de funcionários como um dos problemas que já afetam o funcionamento dos Correios.

“O último concurso dos Correios foi em 2011. De lá para cá, já saíram milhares de trabalhadores, e você tem o e-commerce aumentando. A gente está tentando salvar os Correios e também os direitos”, afirmou Amanda.

Para a presidenta do sindicato, a redução do efetivo ocorre justamente em um momento de crescimento da demanda por encomendas, impulsionada pelo comércio eletrônico. A categoria sustenta que a combinação desses fatores aumenta a sobrecarga dos trabalhadores e dificulta o atendimento da população.

A greve ocorre em meio à crise financeira dos Correios e à tentativa da estatal de avançar em seu plano de reestruturação. No dia 3 de setembro, a empresa formalizou ao Tesouro Nacional um pedido de garantia para contratar um novo empréstimo de R$ 7 bilhões com quatro bancos privados. A operação ainda depende da análise do Tesouro e integra o plano de reestruturação financeira da empresa.

Em nota enviada ao Brasil de Fato DF, os Correios afirmaram que a primeira fase do plano de reestruturação contemplou a contratação de empréstimo voltado à recuperação da liquidez da empresa. A segunda etapa prevê controle de despesas e racionalização de ativos, com destaque para a execução do Plano de Demissão Voluntária (PDV) e a alienação de imóveis sem uso operacional. A terceira fase, de acordo com a estatal, já está em andamento e busca diversificar as receitas por meio de novos negócios e parcerias nacionais e internacionais.

Plano de saúde é o principal impasse

Entre as mudanças propostas pela empresa, o plano de saúde aparece como um dos principais pontos de conflito. Segundo Amanda, os Correios pretendem deixar de ser mantenedores do benefício, o que, na avaliação do sindicato, pode dificultar a permanência dos trabalhadores no plano.

“A questão maior é o plano de saúde. A empresa quer deixar de ser a mantenedora. Com isso, ela não tem responsabilidade nenhuma. Hoje o custo já é bem alto para a gente, porque tem, além das mensalidades, a coparticipação. Então fica numa faixa de mais ou menos R$ 1 mil, o que é um terço do nosso salário. Se a empresa não garantir a sua parte como mantenedora, nós não vamos conseguir nos manter no plano de saúde”, afirmou.

A estatal diz que a proposta apresentada para o acordo coletivo mantém a assistência à saúde, embora preveja mudança no modelo de gestão.

De acordo com Corcino, o benefício tem peso ainda maior para uma categoria submetida a condições de trabalho que podem provocar problemas de saúde ocupacional. Ela cita especialmente os carteiros, que representam a maior parte da base da empresa.

“É uma atividade em que a gente adquire muitas doenças ocupacionais. São problemas ortopédicos, porque é o dia inteiro carregando aquela bolsa pesada, e exposição ao sol. E, quando está na atividade interna, fazendo um movimento repetitivo de triagem. O plano de saúde para a gente é essencial”, relata a dirigente sindical.

Além do plano de saúde, o sindicato contesta alterações em outras cláusulas do acordo coletivo. Amanda afirma que a proposta dos Correios retira benefícios considerados históricos pela categoria, incluindo um benefício extra concedido no fim do ano.

Os Correios informaram que a proposta para o Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) 2026/2028 contemplava 78 das 80 cláusulas do acordo anterior e previa reposição da inflação para salários e benefícios. Em 11 de setembro, segundo a empresa, foi ajuizado pedido de dissídio no Tribunal Superior do Trabalho (TST), após o encerramento da mediação sem acordo e a rejeição da minuta nas assembleias sindicais. Com o dissídio, os pontos que permaneceram sem acordo serão submetidos à decisão do tribunal.

Segundo a presidente, parte dessas mudanças ocorre após negociações anteriores em que os trabalhadores já aceitaram alterações em benefícios. A categoria agora considera que novas retiradas podem comprometer ainda mais a remuneração indireta dos empregados.

Sindicato alerta para impacto sobre serviço postal

Para o sindicato, porém, a disputa não se limita às condições de trabalho e aos direitos dos empregados. A organização relaciona o plano de reestruturação ao futuro do serviço postal prestado à população, especialmente em municípios menores e regiões afastadas dos grandes centros.

Corcino afirma que os Correios exercem uma função que vai além da entrega de correspondências e encomendas e que a redução da estrutura da empresa pode afetar o acesso da população a serviços públicos realizados por meio da estatal.

“Um dos impactos para a população com essas medidas que estão sendo tomadas é o não cumprimento da universalização postal. Está na Constituição que o Estado deve garantir o acesso postal a todo cidadão. Então, quando reduz, principalmente nas cidades menores, nos interiores, a população tem que se deslocar às vezes mais de 100 quilômetros e você reduz o papel do Estado”, afirmou.

A universalização dos serviços postais estabelece a obrigação de garantir o acesso da população aos serviços postais em todo o território nacional. A discussão sobre o alcance desse serviço ganha relevância diante das mudanças propostas para a estrutura da empresa.

A estatal está presente em 5.553 municípios brasileiros por meio de sua rede de atendimento, segundo dados divulgados pela própria empresa. A dimensão dessa rede ajuda a explicar a importância da discussão sobre mudanças na estrutura de atendimento, sobretudo para moradores de localidades mais afastadas dos grandes centros.

Os Correios afirmam que a reorganização da rede de atendimento e distribuição segue critérios técnicos, como a existência de “sombreamento”, quando há proximidade entre unidades, e a preservação do cumprimento das metas de universalização dos serviços postais. A empresa também informa que a reorganização contempla novos formatos de atendimento, como o Correios Essencial (CEL) e pontos de coleta, com o objetivo de garantir o acesso da população aos serviços.

Comércio eletrônico e crise dos serviços postais

Amanda também afirma que as dificuldades enfrentadas pelos Correios fazem parte de uma transformação mais ampla no setor postal. Segundo ela, empresas públicas de outros países também enfrentam dificuldades diante do crescimento das plataformas privadas de comércio eletrônico.

Na avaliação apresentada pela dirigente, essas empresas passaram a ocupar uma parcela significativa do mercado de encomendas, enquanto os Correios precisam manter uma estrutura capaz de atender regiões onde a operação pode não ser economicamente vantajosa.

“Os Correios do mundo inteiro, os Correios públicos, passam por uma crise, porque essas empresas privadas, esses marketplaces, igual Mercado Livre, Shopee, lucram com a venda da encomenda, nem tanto com o frete, e não têm nenhum papel social”, afirmou.

A presidenta do sindicato cita os aportes realizados por governos estrangeiros em empresas postais públicas como exemplo de que o debate envolve também soberania e garantia de acesso ao serviço. Segundo Amanda, a mobilização dos trabalhadores busca justamente pressionar o governo federal a considerar essa dimensão nas decisões sobre o futuro da estatal.

Sobre os impactos da paralisação, os Correios afirmam que acionaram o Plano de Continuidade de Negócios logo após o início da greve. Segundo a empresa, a carga postal está sendo remanejada conforme a necessidade para assegurar a continuidade do tratamento e da distribuição dos objetos, enquanto as agências permanecem abertas ao público. A estatal também informou que empregados administrativos estão sendo mobilizados para apoiar as atividades operacionais e que mutirões de entrega estão sendo realizados para preservar o fluxo logístico e minimizar os impactos aos clientes.


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Fonte: Brasil de Fato

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