Elaine Castelo Branco
Ainda é comum ouvir o termo “portadora de deficiência”, mas ele carrega uma ideia equivocada: sugere que a deficiência é um fardo que a pessoa carrega. A verdade é que a deficiência é apenas uma característica de alguém, que não define sua identidade, talentos ou potencial.
O conceito atual de pessoa com deficiência, adotado pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) e pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU (Decreto nº 6.949/2009), entende a deficiência como impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, que, quando combinados com barreiras sociais, ambientais ou atitudinais, podem limitar a participação plena na sociedade. Ou seja, a deficiência não está apenas na pessoa, mas também nas estruturas e atitudes da sociedade.
As barreiras enfrentadas são diversas:
• Arquitetônicas: calçadas esburacadas, prédios sem rampas e transportes públicos inacessíveis;
• Atitudinais: preconceito, discriminação e estereótipos que diminuem as capacidades;
• Comunicação e informação: ausência de materiais acessíveis, legendas ou tradução em Libras;
• Institucionais: serviços e políticas públicas que não atendem às necessidades da população;
• Tecnológicas: equipamentos e recursos digitais inacessíveis.
Exemplos práticos do impacto da linguagem
Imagine um anúncio de emprego que descreve “vagas para portadores de deficiência”. A palavra “portador” sugere que a deficiência é um peso ou limitação. Ao invés disso, usar “pessoas com deficiência são bem-vindas” valoriza a contribuição do indivíduo e promove inclusão.
Outro exemplo: ao falar sobre esportes adaptados, a expressão “atletas com deficiência visual” transmite respeito e reconhecimento de suas habilidades, enquanto “portadores” reforça estereótipos. Pequenas escolhas de palavras fazem grande diferença na percepção social.
A linguagem inclusiva não é apenas uma questão de semântica, mas de respeito, empoderamento e cidadania. Escolher palavras que valorizam a pessoa antes da condição fortalece a igualdade, reduz preconceitos e incentiva uma sociedade mais acessível e acolhedora.
Portanto, a deficiência não define o indivíduo; as barreiras sociais e atitudes excludentes é que limitam sua participação. Ao adotar uma linguagem inclusiva, estamos transformando o ambiente social, educacional e profissional, contribuindo para uma sociedade mais justa, humana e inclusiva.
Referências
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Diário Oficial da União, Brasília, 2015.
BRASIL. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009. Promulga a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU. Diário Oficial da União, Brasília, 2009.


